A RESERVA

Imagine-se que sei o que escrevo. Poderão intuir-se outros, ou novos, aspectos, e nada mais. Ou melhor, a humanidade avança. No teatro, e para uma melhor idade do mundo, o público tem que acreditar connosco no que fazemos. Quem sabe? Vivemos, possivelmente, uma ilusão e nela vai sobrevivendo também a raiz das línguas. No simples e complexo, somos a  humanidade que somos. Que consciência tenho das palavras? Se a natureza das coisas já era antes porquê hoje o império da escrita? Talvez porque vamos sendo cada vez mais com ela e as suas tecnologias, e precisemos de sobreviver com o que dizemos uns aos outros, sentimentalmente, reinventando o mundo. O actor será um estrangeiro tentando morar numa língua que não é a sua? Neste texto, inesperadamente, falar-se-á de Reserva de Poetas.

Quase na condição de garimpeiros do insondável, e no vício de viver um pouco mais à frente, impulsos da arte que sempre obrigam a pensar no que deve ou pode fazer-se,  somos tentados a manobrar o carro para a frente dos bois. O que ainda não é público no trabalho da escrita torna-se muitas vezes o motivo central do escritor e que ninguém pode avaliar, nem ele. Como garantir o que diz se não se conhece o que fez, se não se dá a conhecer uma palavrinha escrita ou dita, uma palavrinha interpretada?, se não há quem deseje sequer interessar-se pelo que foi e será dito? O pouco que vou escrevendo em volta dos textos para o teatro é apenas radiação, por certo sugerindo o que nem sempre está presente na obra, e até o que nunca antes foi pensado, e nenhuma outra pretensão, digo eu, que não seja, por agora, uma pequena vantagem no afecto pelo mundo, algum norte no desconcerto das viagens e assumindo um diálogo mais para além de nós, um melhor acerto com a dor e consagrando a passagem por aqui.

Ainda não me cansei de dizer para mim: o texto para o teatro é sempre um espectáculo virtual. É uma fórmula que me ajuda a compreender que um texto escrito para o teatro é logo outra coisa antes mesmo da arte do actor e usando essa possibilidade que tem de interrogar à medida que vai promovendo a acção. Há, digamos, uma ética na dinâmica do texto, no teatro, um serviço à humanidade. Mas outros saberão explicitar tudo isto muito melhor do que eu. E não esqueçamos: o ponto final numa obra de literatura é a sinalização de uma experiência de corpo, ou não houvesse espírito e máquina na decisão da escrita. Será aí, ao mesmo tempo, o extremo da experiência do escritor? Não sei. Escrevendo para o teatro- esse lugar ideal porque sempre mais adiante- acredito não no milagre ao modo de certas crenças religiosas mas na possibilidade de justiça, isto é, de acrescentar a quem assiste- ao público- o que parece que foipresente antes do espectáculo: a própria utopia morando na palavra. O teatro é, assim, um lugar onde podemos ter acesso à melhor humanidade, e se a utopia está no teatro terá que ser presente na humanidade. Eis uma visão da serpente emplumada, ou da outra, a que engole o rabo.E onde podemos compreender que o teatro melhora a vida? Também nas pequeninas acções fora dele. Não vejo outra possibilidade utópica e que importe a realidade do corpo, a sua experiência física e metafísica. Somos memória uns dos outros e as palavras terão que dizer algo mais do que dizem ou a poesia será retórica. Tenho o gosto do fragmento. Muita gente tem. Há nas coisas mínimas o fundamento das máximas e as grandes sentenças, as grandes obras, parece que estão centradas nas ínfimas, indefinidas, partículas. Nada que uma simples intuição dos mundos não revele, até com alguma alegria, pois que as realidades serão todas numa só, as virtuais e as outras, e partilhada por infinitos. Escutar o íntimo é obra musical e pode não expressar-se, depois, em som ou partitura, mas permitir continuar a caminhada. E esta coisa do íntimo será o quê? Pieguice ou verdadeiro lugar de garimpo? Ou nem uma coisa nem outra e está permitido falar-se dele, simplesmente, mais ou menos como falam as margens para o rio? E o que vem a ser uma caminhada? O propósito que me vai animando, e já que falei de serpente com pluma, terá que ser a própria palavra e o corpo, ainda antes de ser o propósito de outros, em seguida, no teatro. É a minha responsabilidade. Os outros terão as suas. Por exemplo, e depois da caligrafia ou do teclar sentimental: o actor é um corpo comunicante. Imagina-se a responsabildade? Não posso falar de muitíssimas coisas, sobretudo daquelas que não estando presentes na obra nunca poderão enriquecer a tal, minha, paisagem íntima, e a de outros, mas devo aproximar-me desse mais além onde, afinal, se decide o que vamos experimentando agora. O que é preciso é acreditar, dizem os comentadores desportivos.

O assunto aqui, em La Valldigna, é, pois, “da palavra ao corpo”, no teatro. Dois espelhos um diante do outro com suas imagens, qual delas a mais vazia?, pergunta a legenda budista. Aproximemo-nos, então, do espaço teatral, daqueleque será o lugar da consagração da palavra pensada para o actor, e que tem a enormidade da vida. E o que vemos? O corpo do actor entra no texto como sal na água. Ou deveria entrar. Ou não? Com o espectáculo, é a cerimónia dos três espaços, o virtual (texto), o físico (espaço teatral da representação), e… o público, que multiplica os sentidos ao infinito. Com os seus gostos e desgostos, o público é autor do hipertexto e isto levar-nos-à longe. Sob o efeito do mesmo texto, o público decide-se por diferentes sentidos fazendo experiência noutros lugares do mesmo e duplo espaço. No horário pré-determinado, público e artistas encontram-se, depois, e de novo, na saída do teatro, renovadamente solitários.

Num texto que escrevi em 2000, Supernova, e numa aproximação, hoje, à experiência da descoberta portuguesa do Brasil e da cultura índia há quinhentos anos, propõe-se a visão, no teatro, de uma Reserva Natural patrocinada pelo poder democrático da actualidade e estimulando o turismo cultural, mas uma Reserva já não de índios, mas de Poetas. Em boa hora me lembrei do assunto. Não temos já, também, essa visão fora do teatro?

E agora imagine-se que não sei o que escrevo. Fazemos uma pausa. Por certo ouviremos agora uma outra voz. Obrigado.

Abel Neves