Para haver metáfora tem de haver uma denotação anterior. Há contudo casos em que os termos aplicados metaforicamente não têm denotação anterior porque têm uma extensão nula. Este facto é evidente nos casos de ficção como D. Juan ou D. Quixote. Estes são termos que não podem reflectir uma denotação anterior porque não têm qualquer denotação. Desta forma surge o problema de saber como é que o comportamento metafórico de predicados com extensão nula pode ser subsumido sob a teoria de Goodman (extensionalista ) da metáfora.
A resposta é construída apelando à referência por exemplificação. O que se passa é que, nestes casos, a aplicação da metáfora não reflecte uma denotação anterior mas antes uma exemplificação anterior. Não diz respeito ao que os termos classificavam mas à maneira como eram classificados.
Podemos classificar pessoas como D. Juans ou D. Quixotes. Consideramos correcta a aplicação quando reflecte a aplicação literal anterior. Recorre-se às extensões secundárias para resolver o problema: embora todos os termos fictícios tenham extensão primaria nula, têm extensões secundárias reais porque os seus compostos têm como extensões classes particulares dos objectos. Desta forma, as extensões de aplicação literal dos compostos dos termos fictícios são diferentes entre si. A “descrição – de – D. Quixote”, aplica-se a determinados objectos enquanto que “ a descrição – de – D. Juan” aplica-se a outros objectos. Há uma diferença entre os predicados que os dois termos fictícios podem exemplificar. Apenas “D. Juan” pode exemplificar “ descrição – de – inveterado sedutor” e apenas “D. Quixote” pode exemplificar “ descrição – de – lunático sonhador”.
Logo podemos explicar como é que, na aplicação metafórica de termos fictícios, se mantêm os princípios que governam a aplicação metafórica em geral. Há uma classificação ou denotação literal anterior, embora essa denotação não seja a denotação efectuada pelo termo fictício mas a denotação efectuada sobre ele. A classificação metafórica reflecte a classificação literal uma vez que são classificadas como D. Juans todas as pessoas que exemplificam “inveterado sedutor” e como D. Quixote aquelas que exemplificam “lunático sonhador”.
Assim a cadeia referencial pode-se exprimir desta maneira:
“descrição – de – D. Juan”
(“descrição – de – inveterado sedutor”)
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“inveterado sedutor”
D. Juan
determinadas pessoas
Segundo Goodman, a grande inovação e o grande contributo da exemplificação é que, ao permitir a aplicação metafórica de entidades fictícias, ela fornece a chave para a explicação de como é que as ficções podem ser cognitivas. As ficções são cognitivas porque, embora tendo denotação literal nula, podem muito bem ter denotação metafórica real. Por outras palavras, embora literalmente falsas, as ficções podem ser metaforicamente verdadeiras.
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Carlos Garcia Pinheiro |