Idílio entre um predicado com um passado e um objecto que lhe cede, embora protestando

 

 Esta aplicação metafórica implica tensão e resistência e também adequação e inteligibilidade.

Para que a metáfora exista., é necessário que o termo seja aplicado numa extensão que lhe é contra – indicada, e que, assim, constitua um chamado erro categorial. Este requisito só por si não chega, porque para aplicar um termo numa extensão contra – indicada, pode-se simplesmente dizer um disparate. O que não é propriamente a mesma coisa que utilizar uma metáfora. Para que haja metáfora, é necessário que a aplicação do termo seja feita sob uma sugestão das regras e hábitos que determinam a sua aplicação anterior e esta aplicação da palavra com um uso já estabelecido tem de satisfazer todos os requisitos ao mesmo tempo. Assim, devido a  um deles, a aplicação da metáfora é proibida mas ao mesmo tempo é sugerida. Surge assim uma resistência e uma atracção ao mesmo tempo. 

Percamos um pouco de tempo na explicação destes dois termos: resistência e atracção.

Como o objecto a que o termo é aplicado não pertence à extensão habitual do termo, podemos facilmente compreender onde reside a resistência, uma vez que é natural que o termo resista de certa forma à nova aplicação. A atracção por sua vez  levanta problemas “bicudos” uma vez que a aplicação metafórica é sugerida pela aplicação literal. O problema é saber como é que é “sugerida”? Como é que a metáfora se consegue articular com o referente literal e o referente metafórico ao mesmo tempo? 

Goodman assume que há uma semelhança entre as duas extensões do termo, mas afirma que, mesmo que verifiquemos que existe realmente essa semelhança e mesmo que  possamos, em alguns casos, elaborar explicações, não é possível construir uma resposta geral sem circularidade. Logo, pelo menos à partida, deixa-nos sem explicação, sem solução para a questão da semelhança metafórica. Contudo, há  uma outra via que pode sugerir uma resposta. Esta resposta é conseguida à custa da relação de exemplificação que surge no funcionamento metafórico.

Se Romeu afirma que: “Julieta é o sol”, podemos dizer que “Sol” denota, na sua extensão literal, o astro que ocupa o centro do sistema solar e que, na sua extensão metafórica, denota a bela Julieta. Desta forma é estabelecida uma relação entre Julieta e o sol.

 

“Sol” “deslumbrante”
O Sol  Julieta

                                             

Como funciona esta cadeia? Ela é constituída apenas por elos de referência literal que unem a extensão literal do termo à sua extensão metafórica através de uma etiqueta que é coexemplificada pelas duas extensões. Por sua vez, essa etiqueta é o que as duas extensões têm em comum.
É claro que, de forma alguma, uma cadeia de referência literal pode esgotar tudo o que está contido na metáfora. Esta é apenas uma maneira de simplificação de um complexo sistema de funcionamento da metáfora. A exemplificação não tem necessariamente de ser anterior à metáfora e, muitas vezes, é justamente a aplicação metafórica que cria a exemplificação e com ela a semelhança. 

Contudo, um novo problema se coloca com esta explicação: qual é o critério de escolha ou de selecção? Qual a razão pela qual o funcionamento metafórico selecciona determinadas propriedades e não outras? 

A explicação dada por Goodman recorre mais uma vez à teoria da exemplificação. De acordo com esta teoria, um objecto, quando funciona como símbolo exemplificativo, não é símbolo de todas as propriedades que possui, mas apenas de umas tantas, seleccionadas em função da sua relevância no contexto em que o objecto se encontra a funcionar como símbolo. Assim, é de grande importância o conhecimento do contexto no qual o objecto se encontra. 
No caso da metáfora, temos de conhecer o contexto no qual ela está a funcionar pois só em função deste é que podemos identificar a etiqueta que serve de meio de semelhança metafórica. Entre as etiquetas atribuíveis a Julieta e a Sol, são seleccionadas apenas aquelas que são pertinentes para o funcionamento simbólico nesse mesmo contexto.
Quando temos de identificar a propriedade que é coexemplificada pelos referentes literal e metafórico, dispomos de todas as propriedades que pertencem a qualquer das extensões ( primária e secundária ) e então seleccionamos aquela que é pertinente em função do contexto. O que acontece na metáfora é que objectos que não funcionam habitualmente como símbolos são propostos para símbolos. Julieta e o Sol são apresentados como símbolos exemplificativos de uma mesma propriedade e é por isso que se tornam semelhantes. Ao criar a metáfora, Romeu cria a semelhança.

Passemos agora a outra questão: como se pode articular o referente literal e o metafórico na metáfora? Do que já foi exposto, podemos concluir que a semelhança metafórica é uma questão de coexemplificação. O referente literal e o referente metafórico articulam-se, compartilhando uma ou mais etiquetas que ambos exemplificam ao funcionar como símbolos desta mesma etiqueta. O funcionamento exemplificativo que intervém no processo metafórico permite-nos explicar a questão central da metáfora sem circularidade uma vez que as propriedades exemplificadas não são propriedades nomeadas pelo predicado metafórico mas sim pelas propriedades nomeadas pelo predicado que é exemplificado, literalmente, ou pelo referente metafórico ou pelo referente literal. Podemos assim chegar à conclusão de que a ordem causal entre simbolização e semelhança é invertida, ou seja, que é possível explicar a semelhança metafórica em termos de coreferencialidade exemplificativa.

A metáfora do idílio permite pois verificar que:

A atracção esclarece-nos quanto à diferença entre metáfora e ambiguidade, a resistência dá conta da diferença entre aplicação metafórica e aplicação literal. Na ambiguidade, podemos ver que não há nenhuma atracção entre as duas extensões de aplicação do termo tal como na aplicação literal não há nenhuma resistência no que respeita à aplicação do termo ao objecto.

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Carlos Garcia Pinheiro