DIGITAL

O sistema digital tem um carácter essencialmente descontínuo, utilizando tecnologias electrónicas para gerir, arquivar e processar informação num sistema binário. Em vez de reflectir valores que variam continuamente, a informação digital é baseada em dois estados distintos, expressa por um conjunto de dígitos (positivo e não-positivo - 0 e 1). Cada um destes elementos chama-se um bit (contracção de binary digit) e às sequências de conjuntos que um computador trata individualmente (normalmente de oito bits), um byte.

Comparado com a codificação analógica, o código digital regista valores que são atributos das coisas que estão a ser codificadas, não analogias delas, e esses valores, uma vez codificados, são excepcionalmente resistentes ao erro e à degradação, o que torna a informação codificada de forma digital uma “matéria” pronta a sofrer todas as metamorfoses, a aceitar todos os envolventes, todas as deformações, como sugere Lévy.

Fieldman, em Introduction to the digital media (1997), refere cinco características distintivas da informação digital que são a chave de todo o seu potencial: (i) é manipulável, (ii) é passível de trabalhar em rede (workable, no original), (iii) é densa, (iv) é comprimível e (v) é imparcial.

Estas características são determinantes na consideração dos aspectos que, segundo McClintock (1992), determinam o valor da informação na actividade humana: produção e reprodução, arquivo, transmissão, acesso selectivo e processamento inteligente.

A tecnologia digital torna possível utilizar um sistema para produzir todas as formas de informação, reproduzi-la com custos e perdas mínimas, providenciar o seu arquivo indefinido através do processo da reprodução contínua e transmitir qualquer elemento que a constitui a qualquer utilizador de forma rápida e barata. No entanto, apesar de estas características tornarem a informação muito mais acessível, não constituem por si só um sistema desenvolvido de comunicação.

A questão que se coloca é então a do acesso selectivo à informação, a necessidade de encontrar, seleccionar e aplicar ideias. A tecnologia digital facilita esse processo através de ferramentas para indexar, abstrair, fixar e catalogar. Por outro lado, permite que as referências tradicionais sejam bidireccionais, tornando possível encontrar todos os trabalhos que contenham uma passagem específica, por exemplo, sendo igualmente muito mais fácil seguir uma referência, através do hipertexto. O próprio domínio do não-textual se torna mais facilmente acessível, na medida em que é possível pesquisar um acorde musical ou uma forma geométrica, numa base de dados, ou representar visualmente um dado estatístico.

No vértice destes elementos encontra-se o processamento inteligente da informação. Desde sempre, as ferramentas de comunicação (ou as “tecnologias da inteligência, seguindo a terminologia proposta por Lévy, 1990) utilizam artefactos externos para estender a memória, deixando o processamento inteligente de ideias exclusivamente ao homem. Com o computador, todavia, estamos a exteriorizar inteligência para essas ferramentas externas de maneira mais acentuada, sem que isso se torne um factor de alienação.

A memória, por exemplo, sempre foi exteriorizada em objectos  materiais, das tabuínhas de argila aos livros, o que só aumentou a nossa capacidade de recordar. Nesse processo, compensámos as nossas limitações, reforçámos as nossas capacidades e melhorámos a atenção, a precisão ou a velocidade.

Os sistemas digitais ajudam a calcular, correlacionar, combinar e relacionar; aumentam as capacidades de escolher, ordenar, classificar e seleccionar, expandindo o poder de percepção. O computador torna mais fácil produzir, reproduzir e transmitir trabalho cultural, acelerando potencialmente os ganhos intelectuais e abrindo o acesso cultural de formas sem precedentes. Aumenta tremendamente as capacidades humanas de selecção, memória, percepção e cálculo, ampliando potencialmente a inteligência de cada um.

Rui Vaz