O facto de se estarem a produzir gigantescos dispositivos de “memória” tem que ser pensado não apenas pelas suas consequências directas, mas sobretudo por aquilo que indirectamente daí decorre e que, como tudo indica, é afinal uma perda da memória.
Com efeito, a memória que mais importa não se define em termos de extensão, mas sim de intensidade, de potência que suporta a tensão entre sentido e sem- sentido e não de pura reiteração do idêntico. Ela só existe enquanto relação com o outro, não apenas humano mas cósmico, num aqui e agora indetermináveis. Participando esta relação de uma dimensão de permanente (mas não absoluta) auto-criação, ela supõe sempre o não-fixável, não-arquivável, algo que escapa à memória como registo e se pode considerar uma memória pensante. Na nossa época, as tecnologias que desenvolvem a capacidade de armazenar dados, ao converterem tudo em actual e disponível, concorrem para uma fuga ao tempo, à irreversibilidade, e, desse modo, para aquilo a que Baudrillard chamou “a greve dos acontecimentos”. “Se há um traço distintivo do acontecimento, diz ele, do que faz acontecimento e portanto tem valor de história, é que ele é irreversível, e que qualquer coisa nele excede sempre o sentido e a interpretação”.
O crescimento desmedido, ou excessivo, da memória-arquivo acarreta consigo o risco da redução do “pensamento” ao cálculo e de uma alienação da faculdade de pensar aos mecanismos daquele. Por muito que se recorra aos mecanismos do cálculo (e à memória que os permite, o já estabelecido) na ciência e na política, deverá haver neles sempre algo que não se justifica pelo passado mas pelo que há-de vir, aquilo a que se dá crédito, a que se apela, que se promete (ao conferir-se exclusivamente à arte, ou à poesia, a função de exceder o cálculo está-se a contribuir para a converter ou num processo estéril ou num processo autoritário – estéril, quando se pretende não-interferente, autoritário quando se quer última palavra a administrar, e portanto falsamente final, pois no fim está a sua administração).
A promoção da acessibilidade ao conhecimento revela então de imediato uma questão decisiva: será que ao mesmo tempo que se desenvolvem os processos de disponibilização de conhecimentos, eles não adquirem a aura de uma ideologia que tudo reduz ao calculável? Se assim for, aquilo que não é directamente imputável àquela promoção é-o no entanto indirectamente, como um “efeito colateral”. Se a disponibilização de grandes massas de memória for solidária de uma lógica segundo a qual o que importa é exclusivamente o que é da ordem do cálculo, tudo o que fica à volta pode ser destruído. A acessibilidade em excesso pode matar o pensamento, precisamente por rasurar o não-acessível, por fazer crer que tudo pode ser disponível. É por isso que se torna perigoso, quando não fatal, contribuir para que os estudantes se absorvam inteiramente no acessível, naquilo que pode ser recebido, o que acontece quando se hipervaloriza a erudição e se ignora a dimensão poética da existência, que não está desligada de tudo o resto.
Na hipótese de se garantir a todos os indivíduos o acesso a dados reunidos e expostos publicamente, faltaria ainda cumprir-se aquele que Diderot colocava como objectivo principal da enciclopédia, a transmissão dos conhecimentos às gerações futuras. É que a transmissibilidade da memória e do conhecimento não coincide de modo nenhum com a sua disponibilidade, dependendo inteiramente da capacidade de se abrir ao futuro. Esse é o problema que não pode ser iludido, sob pena de em nome da apresentação de dados se descurar a criação de condições que possibilitem a sua transmissão.
As desigualdades na acessibilidade ao conhecimento, condicionadas pela actual organização política, poderiam (?) ver-se resolvidas da pior maneira, que seria a de uma catástrofe do humano enquanto potência de desejo e pensamento – a total perda de memória.
Para não se ser catastrofista impõe-se que se seja vigilante, que daquilo que põe em perigo se retire o ensinamento que pode salvar. Baudrillard coloca essa possibilidade. Diz ele: “Está tudo aí: salvaguardar a inutilidade radical do pensamento, a sua predestinação negativa em relação a qualquer uso ou finalidade (...) Liberto de toda a funcionalidade, doravante devolvida às máquinas intelectuais, devolvido à clandestinidade, o pensamento torna-se livre para não conduzir a lado nenhum”.
A libertação da subordinação do pensamento a um fim seria então hipoteticamente o triunfo do poético. Mas será que ao retirar-se de toda a relação com o útil, o pensamento não estaria também a anular a sua possibilidade enquanto jogo que apenas se desenrola na presença de obstáculos, embora estes não sejam a sua finalidade? Ou seja, será possível separar o uso da memória da maneira de construir uma existência? Será possível separar a ontologia da ética (e da estética)?
Silvina Rodrigues Lopes