Sobre o laboratório hipertextual

 

 

 

[Laboratório Hipertextual]
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No âmbito do projecto de investigação Enciclopédia e Hipertexto, foi decidido construir um hipertexto que permitisse testar laboratorialmente  as várias perspectivas a partir das quais a questão do hipertexto pode ser abordada. Assim nasceu este laboratório hipertextual.

Trabalho em progresso, em contínua alteração, a reflexão sobre o formato deste laboratório suscita imediatamente uma consideração importante: decisões aparentemente secundárias  representam verdadeiras tomadas de posição sobre aquilo que o hipertexto é, deve ser ou pode ser. Ao optar-se, por exemplo, pela existência de uma página inicial, está já a impor-se um determinado modelo que define este hipertexto em relação a outros modelos teoricamente possíveis.

Também a questão da autoria determina em muito a natureza deste hipertexto. As opções possíveis são balizadas por duas posições radicalmente opostas: páginas assinadas individualmente pelo seu autor ou páginas não assinadas.  A possibilidade de posições intermédias foi também considerada: páginas sem assinatura mas com uma diferenciação material - cor, tipo de letra, etc. - que permitissem uma identificação dos autores, pelo menos entre os colaboradores (no fundo, ainda "assinadas"); ou colaborações individuais não assinadas mas guardadas e apresentadas separadamente, num "mapa do site", por exemplo. No caso de se ter optado por páginas não assinadas, a autoria do hipertexto torna-se-ia colectiva, não sabendo o leitor qual dos vários autores que assumem o hipertexto seria  responsável por determinada página.  No caso presente, todas as páginas são assinadas. Cada autor mantém portanto o controlo sobre o seu material. No entanto, a integração desse material  faz-se num contexto não inteiramente  pré-determinado:  é o autor quem escolhe o local em que o seu contributo deve ser inserido mas não é ele quem controla as ligações que, a partir desse material, podem ser estabelecidas. 

O que se prende com uma outra questão: saber se, uma vez inserido na rede, o conteúdo de uma página pode ser alterado e, nesse caso, por quem e de que maneira. No caso presente, cada autor pode, a qualquer momento, alterar o conteúdo de uma página sua. Já essa possibilidade estar ao alcance de outro colaborador nos pareceu não dever ser aceitável, na medida em que a responsabilização sobre o texto, que motivou a escolha pela solução de textos assinados, seria posta em causa. Uma outra opção porém se perfila: poderia  qualquer colaborador ter a possibilidade de sugerir ligações em/a partir de páginas de outros participantes? Não é verdade que um texto sem ligações é diferente de um texto com ligações? Que, no fundo, uma ligação é um convite explícito à deriva? Consequentemente, sugerir uma ligação num texto de outro colaborador não é, de alguma forma, alterar esse texto? Neste momento, a opção deste laboratório  passa por ser o autor de cada página a aceitar ou não, as sugestões feitas por qualquer colaborador de ligações em/a partir do seu texto.

Uma questão decisiva  diz respeito à existência de uma página inicial do hipertexto. Nela radica, em grande medida, o facto de o hipertexto ter, ou não, um centro. Sabemos que, por defeito, o endereço do site abre uma página. Se aí existir um texto que sintetize o projecto e abra linhas de articulação, essa página funcionará como um eixo à volta do qual as outras páginas vão crescendo, se vão interligando. Ela terá uma posição privilegiada, pois será  sempre lida, enquanto as restantes estão dependentes do percurso individual de cada leitor. A opção oposta consistiria em inserir uma linha de código no servidor, linha que, aleatoriamente, reenviasse o leitor, no seu acesso ao site, para uma qualquer das páginas do hipertexto. Assim se atribuiria o mesmo valor a todas as páginas, independentemente da sua posição no hipertexto. Optou-se por começar pela segunda hipótese: criar um texto explicativo que acompanhasse o lançamento da iniciativa. Porém, pensamos que, num segundo  momento,  será interessante experimentar retirar a página inicial. Poderá então verificar-se se a rede textual entretanto criada se sustém por si mesma ou se algumas páginas ficam  isoladas na medida em que se relacionavam com a página de entrada. Estaríamos assim  perante a possibilidade de verificar a pregnância da ideia de centro, ver até que ponto ela  teria ou não sido abandonada.

Relativamente ao design, deveriam todas as páginas ter um aspecto gráfico comum (uniformidade de cor de fundo, de fonte, de cor e tamanho de letra, etc.) ou deveria isso ficar ao critério de cada autor?  Se, por um lado, a variedade gráfica pode ser usada para efeitos retóricos ou estéticos significativos, por outro, apresenta o risco de saturar o leitor, forçado assim a conviver, página a página, com uma organização visual diferente. É a questão da relação forma / conteúdo que aqui está presente. A nossa opção, neste momento, é a de um design comum a todas as páginas, com uma grande economia de elementos visuais.