Enciclopédia e Hipertexto

Hipertexto e Medievalidade

Maria Adelaide Miranda

Introdução O texto e a imagem Enciclopédia Medieval Manuscritos Iluminados Românicos das Etimologias Bibliografia

 

II. O texto e a imagem

Introduzindo o tema da nossa análise, podemos ainda relacionar a importância crescente da imagem na contemporaneidade com a que os códices medievais apresentamnum espaço complexo de texto e imagem, ilustração e ornamentação. Tal como os ícones do computador, as iniciais iluminadas funcionam simultaneamente como palavra e imagem. Só os homens da imprensa com as novas tecnologias favorecem a separaçãodo espaço verbal e imagético.

Em multimédia, particularmente em CDROM ou DVD e também em certas páginasdo WEB, o aspecto gráfico domina o écran enquanto as palavras aparecem como títulos ou para identificar os botões. O estilo botões é mais utilizado para a escrita com imagens do que com palavras.

A iluminura uma arte medieval. Do rolo ao códice . A expansão da imagem. A iluminura como clarificadorado texto.

Se se podem estabelecerligações interessantes entre a Idade Média e a contemporaneidade, o certo é que a iluminura medieval assume também especificidades que resultam da sua inserção no livro manuscrito. Este, sendo produzido em ambiente monástico como peça única, possui uma relação privilegiada com a imagem quando esta se afirma no Ocidente cristão com características que se hão de manter no desenrolar de toda a cultura ocidental.

No contexto do códice, o papel da imagem é desde as suas origens fundamental, como refere A. A. do Nascimento : “imago e verbumsão processos de representação, de conhecimento e de comunicação. como tal são construídos. Autónomos e não totalmente homólogos, cada um desses processos se rege por códigos próprios. A iconografia pode existir sem apoio do texto, como este pode subsistir sem aquela, e em qualquer deles a relação com a realidade não tem de ser necessariamente de transposição por identidade.Mas, associada ao texto, a imagem constitui uma espécie de traço supra-segmental que marca leituras, suscita apelos, cria modos de realidade que induzemsignificação no interior de comunidades textuaissuficientemente advertidas”(NASCIMENTO, 1998 p.21).

É no período Tardo-Romano provavelmente no decorrer dos séculos II e III que se opera a substituição do rolo pelo códice, provocando alterações profundas na relação entre o texto e a imagem : as dimensões do fólio obrigaram, por exemplo o iluminador a ajustar o tamanho da imagem aos novos formatos. A imagem progressivamente autonomizou-se até adquirir um tamanho e esplendor que atingiu todo o fólio. A dobragem exigida pelo rolo danificava a imagem e levava a que fosse evitada. No início, foram apenasos tratados científicos aqueles em que a imagem toma maiores proporções no fólio (WEITZMANN, p.58-59).

As imagens no interior do texto prosseguiramcomo era habitual no rolo, mas passaram autilizar um espaço muito definido do fólio. Foram reservados espaços para o texto e as iluminuras, conferindo assim aos códices uma uniformidade estética e artística.

Nesta execução teria, sem dúvida, um papel fundamental o responsável pelo scriptorium ; competia-lhedividiros espaços e deixar indicações precisas quanto à cópia, rubricação e iluminação, assim como as emendas caso fossem necessárias.Oestudo para o espaço deixadoao iluminadorobedece a regras muito precisas, que orientam o leitor nas divisões do texto, mas que também lhe oferecem afruiçãoda própria imagem.

O iluminador podelimitar-se aos elementos ornamentais dispostos na estrutura e divisões do texto, sublinhandoo valor e a importânciade certas passagens e parágrafos, oupode juntar cenas figuradas que acompanham o texto para o esclarecer. Estes dois processos estão ligados à génese da iluminura medieval. É a organização de todos estes elementos de maneira harmoniosa que chamamos empaginação ou mise en page (SMEYERS, 1974, p. 30-31). Processo que marcou a produção da escrita até aos nossos dias.

A relação entre o espaço do texto e o da imagem não eradeixado ao acaso. Estava sempre presente a procura da harmonia e a conjugação destes elementos, através de títulos rubricados e manchetados a lembrar as antigas inscrições epigráficas.

A organização geométrica da empaginação terá obedecido a uma construção precisa mas apesar de estudos exaustivos feitos em determinados fundos utilizando metodologias de codicologia quantitativa, as conclusões não têm sido muito animadoras. E após longos trabalhos, os seus autores interrogam-se ainda se o processo da empaginação seria empírico ou feito sobre modelos, já que não encontram valores constantes, sendo deste modo todos os resultados provisórios (BOZOLLO, C.,MUZERELLE, D., ORNATO, E., 1990, p. 303).

Um dos primeiros processos de iluminar um manuscrito consistiu na pintura do fólio, através da púrpura. Mas foram somente aqueles que eram considerados de luxo que utilizaram esta técnica, muito difundida no império carolíngio nas obras encomendadas pela corte.

A escrita a ouro ou prata foi também executada com fins de embelezamento do livro que se queria solene (SMEYERS, 1974. p. 36-37 ).

O papel de organizar o volumen ou o codex cabia ao responsável pelo scriptorium mas o teólogo, o copista e o iluminador tinham um papel fundamental .

 

O estatuto da imagem

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A relação entre o texto e a imagem e consequentemente a expansão da iluminura a partir do período carolíngiotem de ser entendida no contexto do debate em torno do papel da imagem e do texto que tem um momento decisivo neste império e que vai marcar o estatuto da imagem para o Ocidente cristão.

A teorização deste tema é sistematizada nos Libri Carolini, um trabalho em quatro livros (120 ou 121 capítulo) escrito entre 790-92, sendo a versão definitivo de 793. Dois dos autores mais importantes devemter sido Alcuíno de York e Teodulfo de Orléans . Os Libri Carolini foram publicados em 1549 por Jean de Tillet que os encontrou num manuscrito da catedral. Os Protestantes deram notoriedade a este texto.

Resposta do império Carolíngio ao II Concílio de Niceia de (787), foi tornada pública no sínodo de Frankfurt e logo no ano 794 confirmada, após algumas alterações, por Adriano I.

 

Iconoclatas e Iconófilos

O texto teve a sua origemnuma deficiente leitura da versão latina das resoluçõesdo II Concílio de Nicéia,que as negligências dos copistas romanos agravaram; neste texto crucial, as partes negativas são omitidas e por outro lado o concílioé revelado em função da afirmação da adoração das imagens tal como da própria Trindade, enquanto o exemplar grego genuíno é bastanteortodoxo. Os dois termos gregos que indicavamo culto divino devido às imagens e o culto devido a Deus, proskynesis e latreia, foram traduzidos pelo mesmo termo latino adoratio.Desta tradução resultavaqueculto idêntico fosse tributado a Deus e às imagens.

Esta versão foiseveramente criticada numa assembleia de teólogos francos,ao qual Carlos Magno assistiu. Foi emendado e enviado ao papa Adriano I que assumindo uma posiçãomoderada, emendou-o ratificando o concílio. Insatisfeito com a defesa do concílio,Carlos Magnoprovocou a preparaçãodos “Quattuor Libri Carolini”.

Um ano depois reuniu-se o concílio de Frankfurt, com o objectivo de condenar o adopcionismo mas no segundo canône era referido que “Houve na Assembleiauma discussão relativa ao sínodo dos gregos (...). De qualquer modo os nossos santíssimos padres rejeitaram com desprezo a adoração e a servidão e condenaram os que aceitavam esta doutrina.”

As imagens são aceites apenas com valor pedagógico. Os Libri Caroliniexpressam a ideia de que os pintores devem comemorar acontecimentos históricos, a vida dos santos, mas defendiam que as imagens não incarnavam a divindade. A pintura deve embelezar os templos mas nãodeve servir pararender culto ao divino. A querela das imagens durou até ao reinado de Ludovico Pio (814-840)e quando Bizâncio retornou à doutrina iconoclasta, o concílio de Paris (825) manteve a postura de compromisso dosLibri Carolini.

A refutação das posições a favor do culto das imagens, impõe aos teólogos carolíngios a necessidade de uma elaboração própria,uma terceira via na teoria das imagens que evitasse os excessos que tinham caracterizado as resoluções iconoclastas e iconofilas, uma doutrina em que o culto das imagens fosse autorizado com moderação: “adorando um só Deus e venerando os seus santos, segundo a antiga eclesiástica tradição dos Padres, tenhamos as imagens na igreja pela beleza e recordação dos factos”(LC II, 31)

Para os Livros Carolíngios as imagens não podem dar acesso ao mundo espiritual, já que a forma icónica dá apenas aspectos materiais da coisa representada. As imagens não levam os fiéis à contemplação das coisas espirituais, mas pelo contrário levam-no para as materiais,.

Segundo Teodulfo“A relação de semelhança entre Deus e o homemdiz respeito apenas ao aspecto espiritual do homem, do espiritual não é possível dar imagens: a forma icónica não pode ser sinal do invisível. Não é possível representar Deus. As imagens não possuem aqui valor ontológico. Teodulfo desconfia da imagem e quanto mais ela é “verdadeira” maior é o factor de falsidade.”

Se a imagemé um dado meramente material, a expressão verdadeira do espiritual vai buscar-se numa linguagem que não seja figurativa. A verdade do Espiritual é a Revelação que se manifesta verbalmente através da linguagem da Escritura. Nos Libri Carolini dá-se absoluta superioridade à escrita na transmissão da mensagem cristã.

Mas a linguagem verbal e a linguagem figurativa possuem numerosas analogias. A narração por imagens pode ser equivalente à narração por palavras: como meio de comunicação que se presta a contar os factos. Como qualquer palavra depende do contexto, também a imagem depende do contexto iconográfico.

Assim estava aberta a possibilidade da imagem, embora fosse aconselhado o controle através do texto.

Mas se estava legitimado o papel da iluminura no contexto do códice como complemento da escrita, com um carácter pedagógico explícito, pedia-se-lhe uma outra função a de despertar o leitor para a leitura, com um sentido de sacralidade mas tambémcom uma funcionalidade gráfica.

A imagem no texto

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A página de título ou melhor a de incipit, é uma invenção medieval que não era conhecida na Antiguidade, e que se pode considerar como uma das primeiras formas de ornamentação (SMEYERS, 1974, p. 37).

Porto, B.P.M.P. Bíblia,Incipit Ornado, Sta Cruz,1, Anterrosto

A página-tapete é outra situação comum nos manuscritos românicos, mas excepcional entre nós. Só a encontramos num manuscrito,produzido talvez noutro scriptorium Alc.396 fl.9. Constituindo um monograma do In que começa o In principio do Génesis; este fólio iluminado traz a Alcobaça a tradição da página ornada, outrora veiculada pelos evangeliários irlandeses.A estrutura geométrica das letras combina-se harmoniosamente com os ritmos criados pelos caules espiralados.

Lisboa, BN, Bíblia,Página Tapete Alc. 396 fl.9.

As Tábuas de Concordância são particularmente ricas como espaço ornamental nas duas grandes bíblias românicas, Sta Cruz 1 e Alc. 396-399. Os seus iluminadores criaram imagens de evangelistas, construíram arquiteturas simbólicas conjugadas com um bestiário fantástico onde revelam grande sentido de composição e de cor.

Porto. B.P.M.P. Bíblia. Tábuas de Concordância. Sta Cruz 1. fl.362 .

A inicial.O iluminador pode limitar-se aos elementos ornamentais dispostos na estrutura e divisões do texto, sublinhando o valor e a importância de certas passagens e parágrafos, ou pode juntar cenas figuradas que acompanham o texto para o esclarecer.

Nos manuscritos em queo copista não utiliza título corrente, marcação dos fólios, tábua das matérias, o leitor é guiado pela inicial e o incipit rubricado a vermelho.

Com a inicial pretende-se ordenar e hierarquizar, ela funciona como uma ajuda visual destinada a proporcionar claridade ao conteúdo. “É a necessidade de estruturação do enunciado que resulta determinante na origem da decoração do livro” (Mentré, 1976 p. 52)”.

A inicial desempenha um papel predominante nos nossos manuscritos românicos, quer como complemento estruturante na empaginação e organização do volume, quer como espaço ornamental.

Porto. B.P.M.P.Bíblia.Inicial I. Sta Cruz 1, Fl.2

Sem excluir toda a diversidade de situações, é assim o primeiro fólio que recebe uma ornamentação mais exuberante levando o leitor, iniciaticamente, a entrar num espaço considerado sagrado que é o do texto.

Por ordem de importância seguem-se as iniciais ornadas que abrem cada livro ou capítulo, muitas vezes inseridas também em quadros pintados de grande impacto no fólio . Seguindo- se- lhes as iniciais de menores dimensões que assinalam o início dos parágrafos, com grande simplicidade, em alternâncias cromáticas.

A hierarquização destas iniciaisem manuscritos mais cuidadosobedece a proporções bem determinadas.

Lisboa. BN. Legendario.Inicial Ornada P. Alc.

Porto. B.P.M.P. Epistolário. Inicial H. Sta Cruz s/nº ms 861, fl. 6v

Lisboa. BN. Comentário Bíblico.Inicial historiada V . Alc. 353, fl.1

A inicial historiada é excepcional nos fundos portugueses de Santa Cruz e Alcobaça. Neste último scriptorium , surge apenas em três manuscritos. Em termos de organização do volume e sua ornamentação não há qualquer razão lógica para a opção do artísta, já que as restantes separações de igual importância são marcadas através de iniciais ornadas. Apenas o Alc. 353 poderia justificar a escolha pelo facto de se encontrar na abertura do texto.

Em Santa Cruz de Coimbra existem cerca de dezasseis iniciais historiadas, mas concentram-se quase exclusivamente no Sta Cruz 1 .Este manuscrito compreende seis iniciais historiadas, embora muito sintéticas. A maior parte destas iniciais poderiam inscrever-se na designação de figuradas, ou seja, não narram cenas, antes representam o personagem ligado ao respectivo livro bíblico.

A ornamentação marginal, embora não seja frequente nos manuscritos românicos não deixa de estar presente.

Porto.B.P.M.P.Evangeliário. Ornamentação marginal. Sta Cruz 72, fl. 19v.

Nos fundos portugueses, concentra-se na margem de pé, podendo eventualmente ocupar o intercolúnio ou as margens laterais. Surge ligada às iniciais, mas com grande autonomia. O Alc. 149, 173 ou 339, são emblemáticos deste tipo de ornamentação, que não estava possivelmente programada , mas que o iluminador alterou tomando estas como pretextos para os motivos ornamentais.

As numerações de caderno constituem, no contexto das margens, outro dos locais que recebem ornamentação nos dois mosteiros, se bem que não seja um processo habitual.

Lisboa. BN. Legendário.Ornamentação na numeração de caderno.Alc. 421, fl.33

No Sta Cruz 11 a criatividade do iluminador deu corpo a imagens que se distribuam ao longo de toda a obra. Umas vezes o artista parte da numeração dos cadernos para a execução do desenho, outras é na margem de pé que sem qualquer ligação aparente com o texto, que faz desfilar uma enorme e surpreendente variedade de figuras e ornamentos.

A partir de meados do séc. XII são conhecidos repertórios de modelos de iniciais ornadas, como o que teria sido produzido na Toscânia e que se encontra conservado em Cambridge, Fittzwilliam Museum, Ms 83.1972.

Este manuscrito contém as iniciais ornadas por ordem alfabética; duas letras estão pintadas e as restantes apenas desenhadas a tinta.. Contudo, esta prática só se generaliza em finais da Idade Média, surgindo associada à profissionalização do iluminador. Estes repertórios de modelos destinavam-se a dar a conhecer as invenções de um mestre iluminador aos seus discípulos, tendo em vista que estes a reproduzissem nos seus trabalhos (ALEXANDER, J. J. p. 92-94).

 

As imagens invadem o texto

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Este não é o processo românico, onde domina o gosto pela variedade e o monge não se considera um criador.

No gótico esta relação de todos os elementos estruturantes do fólio vai-se alterar tendendo a imagem a ocupar um espaço mais diversificado. O processo de acesso dos leigos à cultura provoca a multiplicação de imagens. Uma rica aristocracia que assume o livro como objeto de ostentação e poder paga os ricos fólios e os artistas e responsáveis pela organização do fólio podem agora dar largas à sua criatividade, conjugando sagrado e profano e estendendo a imagem às margens. Se a inicial mantém a sua função e assume cada vez mais o caráter historiado as margens adquirem um novo estatuto deixando de acolher a participação da palavra através da nota/comentário e remetendo o leitor para um espaço imagético que pode explicitar o sentido do texto, ou construir um discurso paralelo.

Lisboa. BN.Speculum Historiale, Vincent de Beauvais.

Os tipos de livros multiplicam-se assim como os seus processos de produção se alteram a partir do séc. XIII, contudo mantêm-se todas as características de medievalidade do séc. V ao XV. Só a introdução da imprensa modificará esta relação.

III. A Enciclopédia Medieval

.III A Enciclopédia Medieval ou a aspiração ao saber total e sistematizado

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Nesta relação texto imagem e tendo em conta aspectos de correlação já referidos, vamos debruçar-nos sobre um dos textos iluminados que mais próximos estão do conceito actual de hipertexto, e que conta com a cópia de um dos livros de estudo indispensáveis nas bibliotecas medievais - as Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha -enciclopédia medieval que se destaca pelas repercussões que teve no contexto do saberes medievais só suplantada pela de Vincent de Beauvais

Isidoro de Sevilha (560?-636) foi uma figura decisiva na Espanha visigótica no primeiro terço do séc. VII. Foi bispo metropolita durante 35 anos e exerceu uma influência considerável sobre os governantes. Participou nos mais importantes concílios da sua época ( presidiu ao II concílio provincial de Sevilha de 619 e ao IV concílio de Toledo 633). Esta última cidade emerge lentamente como capital do reino e o rei Gondemar confirma justamente o bispo de Toledo, tornando-se a cidade, metrópole da província eclesiástica da Cartaginense.

É com o rei Sisebuto (612-621), monarca que unificou a península tendo expulso os bizantinos do território, que Isidoro tem uma ligação mais estreita, nomeadamente no plano literário, consagrando-lhe mesmo o tratado Da origem dos godos.

As Etimologias foram escritas antes de 621, ano da morte de Sisebuto e ter-lhe-iam sido também dedicadas apesar da correspondência com Braulio, nos levar a pensar que este era o destinatário. “Esta obra, que se adapta absolutamente aos métodos do mais profundo saber, quem quer que a leia frequente e reflexivamente, pode assegurar-se que não ignoraránenhum conhecimento relativo a tudo o que é divino e a tudo o que é humano (Braulio, Renotatio.).

A ideia de realizar uma obra enciclopédica enkuklios paideia remonta à cultura helenística, com Varrão, Plínio-o-Antigo eSuetónio, reduzindo-sena Antiguidade Tardia, ao esquema escolar das sete artes. Também Marciano Capela, o ambiente cultural de África do séc. V e as Instituições de Cassiodoro (Itália do séc. VI) terão de alguma forma servido de fontes para a redacção desta obra. O tratado De doctrina christiana, síntese de cultura cristã, era igualmente conhecido de Isidoro (FONTAINE, 2000 p.174-175).

Isidoro terá escrito esta obra por encomenda régia para melhorar a cultura das élites laicas e eclesiásticas do reino, partindo do princípio que o saber global se pode atingir através da origem das palavras etymologia est origo.. O facto do latim do séc. VII, ser um latim já bárbaro, leva-o a dar um sentido mais puro às palavras numa Espanha que ainda o falava (FONTAINE, 2000 p.176),Também o seu gosto pela cultura pagã está presente, embora guiado pela De Doctrina Christiana de Agostinho.

Uma carta de Isidoro a Sisebuto dá-nos referências sobre os seus objectivos: “Como te prometi, envio-te a obra acercaDa origem de certas coisas, recompilada com a recordaçãode antigas leituras. Por isso , nalgumas passagens, aparece anotada de acordo com o que escreveram os nossos antepassados.”

Isidoro recorre a vários processos que Diaz y Diaz enumera e explicita como abreviação, autocombinação e acumulação (DIAZ Y DIAZ, 1982 p. 181-186).

1. A técnica da abreviação surge no momento da leitura ou releitura das obras antigas quando toma notas e selecciona passagens que podem ser utilizadas posteriormente. É um procedimento muito utilizado na época, no sentido de reduzir o saber a fórmulas concentradas, as quais têm o valor de resultar mais memoráveis.

A primeira tarefa realiza-a mediante a aplicação de extractos ou resumos que proporcionammateriais globais orientados para uma ciência ou conhecimentos determinados, em forma de perícopasliterais ou resumos conceptuais, que servem de elementos de erudição para serem inseridos quando necessário. A comparação entre uma certa fonte e a utilização que emmais de uma obra faz dela,resulta muito significativa e digna de atenção. Isidoro teria ficheiros de materiais preparados para serem utilizados quando fosse conveniente.

2.Outro procedimento que poderia denominar-se autocombinação, consiste na contaminação de um texto cuja fonte anterior se conhece, com esta mesma fonte , numa espécie de involução que quase sempre obedece ao desejo de proporcionar um dado ou menção deixando de lado pela que poderíamos denominar de fonte imediata.

3.Utiliza igualmente o processo da “acumulação” . Isidoro chega a um tema ou capítulo, induzido pela presença no contexto de uma palavra ou termo vinculado com o capítulo correspondente, que desperta nele a necessidade de aclará-lo ou descrevê-lo, encadeando-sedesta maneira os temas em cada capítulo, às vezes numa ordenação um pouco incompreensível.

Neste contexto a gramática é para Isidoroo saber fundamental“Ela é a ciência da expressão correctaa origem e fundamento das letras liberais” (ETIMOLOGIAS, 1,5,1) sendo assim o fundamento de toda a cultura e a mãe de todos os conhecimentos. O tema desenvolve-se no decurso de mais quatro capítulos: analogia, etimologia, glosa e diferença.

Isidoro consideraa existência respectiva de palavras conformes à natureza das coisas e outras que são de natureza arbitrária.

É através da gramática que Isidoro pretende estabelecer um equilíbrio entre cultura profana e cultura sagrada.

O primeiro manuscrito conservado remonta ao séc. VIII e teria sido copiado em Bobbio. Em Portugal, existem dois manuscritos, cópias de manuscritos pré-românicos ibéricos, que remontam respectivamente aos sécs XII e inícios do XIII e que mostram a divulgação deste saber enciclopédico, que séculos depois de ter sido criado, ainda servia de instrumento fundamental para o estudo e cultura monásticas.

Continuação

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