Enciclopédia e Hipertexto

Hipertexto e Medievalidade

Maria Adelaide Miranda

Introdução O texto e a imagem Enciclopédia Medieval Manuscritos Iluminados Românicos das Etimologias Bibliografia

 

IV. Manuscritos Iluminados Românicos das Etimologias (Sta Cruz 17, Alc. 446)

Introduzidas as várias temáticas que constituem este trabalho, passa-se ao estudo dos dois exemplares das Etimologias de Isidoro de Sevilha, manuscritos iluminados românicos que fizeram parte das duas mais importantes bibliotecas monásticas do Portugal Medieval – Santa Maria de Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra. O carácter de aparato destes dois manuscritos reflectem a importância que detinham na cultura letrada do seu tempo. São manuscritos de grandes dimensões (o exemplar de Alcobaça mede 428X 292; o de Sta Cruz 414X295) escritos em pergaminho e com cerca de 200 fólios.

O manuscrito de Santa Cruz, escrito em meados do séc. XII em gótica muito próxima da visigótica, inclui o texto da Carta a Braulio assim como um outro anónimo Sobre um concílio no tempo de Carlos Magno, remetendo sua iconografia para uma cópia de um manuscrito hispânico do séc. X.

O exemplar de Alcobaça copiado em inícios do séc. XIII, revela um modelo francês de ornamentação, apesar de ser cópia de um texto hispânico. Da sua constituição fazem parte além das Etimologias, As cinco cartas de Isidoro a Bráulio e Acerca da natureza das coisas.

O processo de construção destas obras segue a divisão de um dos textos mais antigos e mais próximos do texto original. Os títulos são rubricados a vermelho e manchetados. Cada livro é antecedido da respectiva tábua e título, marcando assim as grandes divisões do texto.

Há aqui uma intenção clara de orientar a leitura por sinais gráficos, mais do que enriquecê-lo com imagens, desvendar percursos de leitura que levem a, como já referimos, “ quem quer que a leia frequente e reflexivamente pode assegurar-se que não ignorará nenhum conhecimento relativo a tudo o que é divino e a tudo o que é humano”

Dominam pois os esquemas junto dos livros de aritmética, geometria e astronomia e tem destaque especial a representação tripartida da terra (apesar da Ásia se apresentar dividida em dois), onde o mar logo após a esfera celeste tem lugar bem marcado pela palavra OCEANUS , separada por uma cruz grega. Aos três continentes estão ligados os nome dos filhos de Noé numa referência ao seu papel de povoadores (Ásia/Sem, Europa/Iafeth, África/Cham). Dos grandes rios estão marcados o Tanais (Don) e o Nilo, o Mediterrâneo aparece a separar a Europa da Ásia. Também os pontos cardeais assinalam uma orientação que privilegia o Oriente. Deste modo apesar da modéstia da ornamentação e da cor, os manuscritos apresentam-se bastante completos na informação geográfica conhecida .

Porto. B.P.M.P. Sto Isidoro. Etimologias. Representação da Terra. Sta Cruz 17, fl 129

Lisboa. BN. Sto Isidoro. Etimologias. Representação da Terra. Sta Cruz 446, fl 138.

Os esquemas são muito simples sem qualquer ornamento e só quando chegamos ao De praedictis Afinitatibus e De Gradibus Generis Humani, o artista é mais exigente na concepção gráfica dos graus de consangüinidade.

Porto. B.P.M.P. Sto Isidoro.Etimologias. Árvore da Consanguinidade. Sta Cruz 17, fl. 92v

Porto. B.P.M.P. Sto Isidoro.Etimologias. Árvore da Consanguinidade. Sta Cruz 17, fl. 93

No manuscrito de Santa Cruz na fl. 92v, o esquema de consanguinidade está muito próximo das cópias do séc. X e XI ibéricos. A criação simbólica de uma árvore, onde se dispõem os diferentes graus de consanguinidade, estará presente ao longo da história do enciclopedismo sob a forma de árvore da ciência. Esta árvore cujos entrelaçados sugerem um enraizamento inicial, são por vezes enquadradas por um personagem: identificado por alguns autores como o rei David ou também por Jessé ligadas ambas as personagens à linhagem de Cristo.

Madrid.R.A.História. Etimologias. Árvore de Consanguinidade.Ms 76, fl.73v.

Auxerre. BM. Pontigny. Árvore da Consanguinidade. Ms 76, fl. 66v

Uma preocupação que está igualmente presente no design gráfico contemporâneo e também na NET manifesta-se na intenção de criar imagens que sejam de tal forma fortes que permitam uma fácil visualização do texto e a sua consequente memorização. Este esquema era especialmente apreciado porque permitia com clareza estabelecer os limites dos laços de parentesco a partir dos quais os casamentos eram impedidos, levando muitas vezes á sua anulação. Importantes como normas de direito canónico e para regulamentar as estratégias de casamentos dos poderosos, os diagramas generalizam-se, mesmo em manuscritos pobres em ornamentação.

No fl. 23 do manuscrito conimbricense é também uma excelente arquitectura que organiza os graus de parentesco. Arcadas de arco ultrapassado que dignificam e sacralizam o texto, criando um espaço intermédio, devidamente assinalado a partir do qual havia impedimento natural para as ligações matrimoniais.

Lisboa. BN. Sto Isidoro de Sevilha. Etimologias. Árvore da Consanguinidade. Alc. 446, fl 96v.

Lisboa. BN. Sto Isidoro de Sevilha. Etimologias. Árvore da Consanguinidade. Alc. 446, fl 97.

O manuscrito de Alcobaça pertence á tradição da escola de iluminura francesa em que a pintura é relevante, mas cujo texto segue a versão ibérica. As semelhanças com uma cópia do Decreto de Graciano originária do mosteiro cisterciense de Pontigny são notórias.

Auxerre. BM. Árvore de Consanguinidade. Ms. 1269, fl.1.

No fl. 96v a figura régia que sustenta o diagrama apresenta um tratamento do rosto e uma dignidade de porte de influência bizantina. Majestosa e hierática sobrepõe-se visualmente ao próprio texto. No fólio seguinte continua a mesma preocupação com a valorização do texto no contexto das imagem. Dois dragões entrelaçados constituem os limites em que se inserem os cinco níveis de arcadas que sugerem a presença de uma arquitectura sagrada. Está assim presente neste duplo fólioa relação íntima de Isidoro com o poderrégio.

Este tipo de empaginaçãoe ornamentaçãoestá perfeitamente adequado á sua função didáctica. Os iluminadores deram maior importânciaaos esquemase diagramas explicativosdo que á ornamentação das iniciais que são de grande simplicidade.

Particularmente interessante nestes manuscritos, o sistema de anotações marginais que se escondem em animais que transmitem uma força anímica. Num período em que a imagem é estática sem os recursos tecnológicos que a imagem em movimento permite, os artistas do scriptorium recorrem a processos de chamada de atenção utilizando corpos de animais. A águia bicéfala e o dragão, animais que transportam uma forte carga simbólicamas cujo desenho nos dá uma grande expressividade são dois exemplos do dinamismo que as anotações marginais procuram ultrapassando o espaço estrito da autorictas , dialogando com o texto.

Lisboa. BN. Sto Isidoro de Sevilha. Etimologias. Notas Marginais. Alc. 446, fl. 32v

Realiza-se pois o livro como metáfora da natureza, modo de conceber o cosmos,natureza, história e o corpo humano. Para o intelectual medieval o mundo torna-se inteligível através de trabalhos chave tais como os de Agostinho ou Sto Isidoro. A verdadeira estrutura do mundo supunha-se espelhar-se em determinados livros, e o próprio universo era visto como um grande livro. – daí a importância das enciclopédias e sumasque traziam todo o mundo textual sob controle. Como Gellrich refere em The Idea of a Book (1985), a ambição dos enciclopedistas e teólogos não era mais do que a leitura colectiva num Enorme Texto, enciclopédia e Suma, que fosse o espelhoda justa e transcendental ordem, tal como a Bíblia era um espelho do livro da natureza, o Ciberespaço é igualmente o reflexo do mundo natural e socialnum grande livro de escolhas culturais que coincidem com a ordem natural.

Se a Internet acalenta o sonhode transmitir conhecimentos à escala universal, Isidoro de Sevilha soube procurar na cultura clássica, nas bibliotecas e na sua memória a imensidão do saber que até então se tinha acumulado, criando o primeiro buscador temático nos seus vinte livros da Etimologias. A Internet prestou-lhe homenagem tornando-o o seu patrono.

Maria Adelaide Miranda (FCSH)

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