Enciclopédia e Hipertexto

Hipertexto e Medievalidade

Maria Adelaide Miranda

Introdução O texto e a imagem Enciclopédia Medieval Manuscritos Iluminados Românicos das Etimologias Bibliografia

I. Introdução

Falar no contexto de um seminário sobre o Enciclopédia e Hipertexto, conceito de grande actualidade e relacioná-lo com o manuscrito medieval pode parecer estranho, contudo um conjunto significativo de autores ligados à teorização deste conceito procura na Idade Média e no livro manuscritoparalelos com a realidade hipertextuale hipermédia. Podemos citar entre outros : Jay David Bolter Writing Space; Michael Joyce Hypertext and Poetics; Paolo Rossi Logic and the Art of Memory ou Pierre Lévy em As Tecnologias da inteligência.

Umberto Eco em Travels In Hyperreality (ECO, 1986, p. 68-72) refere nove pontos em que a contemporaneidade julga rever-se na Idade Média. Mas interroga-se sobre que Idade Média, já que há numerosas formas de a abordar. Este longo período de dez séculos abarca mundividências bem diferentes: os anos do românico ligados a uma civilização rural são necessariamente diferentes dos anos do gótico com o ressurgir das cidades e um mundo laico que desperta para a cultura e domínio das instituições, antes apanágio do clero.

Segundo este autor, é através dos paralelos culturais e artísticos que estas ligações se tornam mais complexas, embora se encontrem “ perfeitas correspondências entre dois períodos que, por diversos caminhos mas com utopias educacionais idênticas e com iguais camuflagens ideológicas das suas ajudas paternalísticas para controlar formas de pensar, tentaram uma ponte entre uma cultura letrada e uma cultura popular através da comunicação visual ” (ECO, 1986, p.81).

Não podemos deixar de referir, para exemplificar esta ligação entre as duas culturas, a correspondência entre as imagens representadas no tímpano do portal de Sta Maria Madalena de Vezelay e o texto das Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha. Se bem que seja abusivo integrar este tímpano no conceito de cultura popular, o facto é que a sua criação se deve a uma atitude de divulgação e propaganda da igreja, no contexto das construções dos caminho de peregrinação. Estes centros eram visitados por multidões de peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela pelo Caminho Francês. O artista que executou este magnífico relevo, figurou o divino, como figura central que atrai todos os olhares, mas que igualmente irradia luz sobre os apóstolos que irão evangelizar os povos a terra. Estes povos são representados sob o lintel e revelam um conhecimento letrado que passa necessariamente pelas Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha . Desfilam nele seres monstruosos que habitam algures no Oriente : “Contam que na Escitia vivem os panotios , com orelhas tão grandes que lhes cobrem todo o corpo.” “Também naquele país [Índia] vive outro povo cuja estatura é a de um côvado e a quem os gregos – por medir um côvado – chamam pigmeus” (ETIMOLOGIAS, II vol. 1983, p. 51). Os seres prodigiosos de Isidoro de Sevilha que estão ligados a relatos de viagem e a um imaginário rico que se sobrepõe a uma atitude que valoriza a realidade e aceita o visto e escrito, desde que legitimado como auctoritas, povoam textos e imagens medievais.

Portal de Sta Maria Madalena de Vezeley

Portal de Sta Maria Madalena de Vezeley

 

Da Idade Média á Contemporaneidade

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Entre os diversos aspectos Humberto Eco refere como os mais significativos de convergência entre a civilização medieval e a contemporânea (ECO, 1986, p. 81-85)os seguintes:

Civilizações de imagens. Em ambos os períodos uma elite restrita debate textos escritos com uma mentalidade alfabética, mas em seguida tradu-los em imagens com dados essenciais e uma estrutura fundamental da ideologia dominante. A Idade Média foi também uma civilização da imagem em que a catedral é o grande livro de pedra, um verdadeiro écran de televisão.

Objecto artístico. Outro aspecto em que manifesta esta similitude é exactamente no objecto artístico.O objecto estético não se distinguedo objecto de mera curiosidade, tal como o trabalho do artesãoda obra do artista. Na Idade Média valoriza-se afunção litúrgica, mediação para atingiro sagrado. O gosto pela cor e a ligação sagrada à luz estabelece um elemento físico de prazer.

Arte não sistemática mas aditiva e compositiva. Trata-se, segundo aquele autor, de outro aspecto comum entre a nossa arte e a da Idade Média. Hoje, como antes, coexistem as experiências elitistas com as grandes empresas de popularização. O autor refere as aproximações entre osmosteiros e os campus universitários contemporâneos.

Ajustamentos contínuos. A nossa própria Idade Média é igualmente uma idade de permanente transição em que são empregues novos métodos de ajuste.

O problema não é de transmitir o passado cientificamente mas desenvolver hipóteses para uma explicação da desordem, entrando na lógica da conflitualidade. É uma cultura de constantes reajustamentos, esgotadas as utopias. A Idade Média assume a transmissão do passado não de uma forma passiva mas numa constante reinterpretação, oscilando entre nostalgia, esperança e desespero.

A Idade Média vista nesta perspectiva não é entendida como uma época de dogmatismo e imobilidade mas paradoxalmente de “ revolução cultural”.

 

Espírito Enciclopédico

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O espírito enciclopédico que se manifesta no desejo de abarcar e sintetizar todo o conhecimento manifesta-se como uma aspiração medieval e que está igualmente presente no mundo contemporâneo. Na visão do mundo medieval que se estrutura a partir da Antiguidade Tardia, destaca-se a procura de um sentido unificador, o estabelecimento de conexões de sentido, elegendo como princípio maior a linguagem. A totalidade dos saberes diz-se por palavras, as res também designadas por verba. Com a ascensão do Cristianismo domina o princípio segundo o qual Deus criou o mundo sendo a linguagem a sua a emanação primeira, o verbo revelado ao homem. A procura do origo verborum revela o poder das palavras e o processo gerador e explicativo do mundo. As etimologias aprecem como uma procura das causas, precedendo assim a ciência.

A Bíblia é o livro por excelência a partir do qual todo o saber medieval procura a sua justificação, mas ela é estudada com instrumentos que remontam ao saber antigo profano, nomeadamente as gramáticas, os vocabulários e as enciclopédias. Os textos que constituem a lectio são constituídos pelos livros de apoio à interpretação das Escrituras e predominam nas bibliotecas monásticas . A prática da lectio começa pela leitura e análise gramatical dos textos bíblicos, de modo a explicitar o seu sentido literal, tornando-se a Gramática um instrumento indispensável.

O Vocabulárium de Papias, a Ars Gramática, o Líber interpretationis hebraicorum nominum de Jerônimo, Nomes bíblicos de Beda o Venerável e o De Numeris de Rábano Mauro, as Etimologias de Santo Isidoro são algumas das obras indispensáveis nas bibliotecas monásticas.

Segundo Bolter “ O impulso enciclopédico foi forte na Antiguidade Tardia,quando os editores produziramnumerosos livros manuscritos, miscelâneas ou temas importantespara a sua cultura, tal como a retórica, poesia, história natural e medicina. O impulso é também forte nos intelectuais bizantinose durante a Idade Média Ocidental, porque os intelectuais medievais davam muita importância à autoridade dos textos. Os filósofos / teólogosproduziam numerosas summae . Para a Idade Média, toda a descoberta da verdade passava pela recepção das autoridades tradicionais. A compreensão do mundo não passava por uma função criativa mas por uma assimilação.Este impulso enciclopédico enfraquece na idade da imprensa. Como os livros se multiplicam, torna-se difícil abarcar todo o conhecimento. As enciclopédias tornam-se mais utilitárias. Hoje o conceito de enciclopédia como síntese de conhecimentos reemergiu de forma nova. Muitos trabalhos em CDROM e DVD e no WWW substituem a enciclopédia impressa. Enquanto num sentido lato, milhares de páginas hiperlinked, no WWW são lidas pela nossa cultura como um compêndio electrónico de conhecimentos” (BOLTER, 2000, p. 82).

Todos estes textos que fazem parte da lectio poderão funcionar como uma rede que se estabelece em torno da Bíblia e da concepção do mundo que ela reflecte.

 

A procura de múltiplas conexões

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O saber contemporâneo é percorrido por duas correntes: uma que persiste na busca de uma visão unificadora do real e outra que nega esta possibilidade, exaltando um discurso fragmentado, mas que abre a possibilidade de estabelecer conexões plurais. É nesta última que emerge o Hipertexto no contexto da WWW, definido nos inícios dos anos 60 por Ted Nelson como sistema avançado de documentos interconectados em que se estabelecem tópicos e as suas conexões. Estas podem ser parágrafos, frases, palavras, gráficos ou segmentos de vídeo. As conexões de um hipertexto constituem percurso de significado. Tal como na Idade Média esta atitude levou à procura de um projectoa que chamaram memex e que deveria preenchero lugar de uma enciclopédiaou de uma biblioteca interactiva.Toda a vasta elaboração de textospatrísticos se podem considerar como um vasto comentário tentando abrir todas as possibilidades de “percursos” de significado a partir do texto bíblico ou para o atingir. Esta auctoritastinha o poder de colocar o seu comentário nas margens; por esta razão elas ocupavam um lugar considerável no contexto da empaginação.

 

Estatuto do texto e do autor. Do texto ao intertexto

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A partir do séc. XII generalizam-se os livros glosados quesurgemna sequência da importância dos livros de estudo bíblicosem que mestres como Lanfranc introduziram nas cópias bíblicasanotações marginaise interlineares. Anselmo de Laon será um dos primeiros professores a compilar uma colecção destes livros, tornando-se o exemplo do novo compilador. As palavras individuais eram explicadas e os pequenos extractos eram feitos com escritos patrísticos. Pedro Lombardo inicia uma outra forma de comentar o textocom maior capacidade de intervenção – a glosa. Aqui o “designer” do fólio cria uma nova forma de a organizar, estabelecendo em vez de links sucessivosuma hierarquia entre o texto bíblico e a glosa. O copista e responsável pela execução do códice têmde realizar previamente um rigoroso regramento, de modo a pôr em evidência não apenas os textos bíblicos, mas os comentários de cada autor, dispondo-os como imagem. O escriba escrevia numa coluna central o texto bíblico, em seguida acrescentava as pequenas glosas entre linhas e por fim as maiores à margem. As grandes iniciais marcamo início de cada divisão bíblica e as menoresa rubricação que é intensa dando uma maior legibilidade ao texto.

Lisboa. BN. Glosas sobre os Pequenos Profetas. Alc.157, fl.27

Lisboa. BN. Epístolas de S. Paulo glosadas . Alc. 158, fl. 2v

A liberdade que era dada às compilações locais permitia a utilização do texto original com uma certa liberdade no livro manuscrito, assim como na organização dos textos conformea utilização dada.

O estatuto do copista, a concepção de texto e de autor são substancialmente diferentes daquela que o livro impresso vai instaurar. Neste aspecto podemos encontrar pontos de convergência entre o período medieval, o hipertexto e a informação textualveiculada pela Internet onde se tendea esbater o conceito de “direito de autor, ou obra original. A criação textual e o papel do autor eramsecundarizados, já que, criador só Deus, o texto original é manipulado, interpretado em função das novas autoridades, e deste modoperde-se o controlo sobre o seu autor.

M. Augusta Babo refere a propósito “Não tendo a relevâncianem as atribuições que a modernidade lhe vem conferir, o auctorlimita-se a produzir ideias suas que são apoiadas em autoridades. O autor medieval remete-se a um anonimato, não só porque não assina o texto, mas ainda porque é recoberto pela figura da autorictas ”( BABO, 1993, p.14-15).

Por outro lado, o facto destes textos remeterempara outros textos e imagens,relativisa o conceito de obra que o livro impressovem instaurar no contexto da cultura humanista do Renascimento italiano onde o indivíduo e o acto da criação começa a ser valorizado.

Continuação

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