João Dionísio
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Há momentos corais que juntam o que está dividido ou revelam a matéria comum ao que até aí fora percebido como separado. Para certos autores, o hipertexto [1] parece poder ter esta capacidade reunificadora, aplicável tanto no interior da crítica textual como no âmbito das relações entre a crítica textual e os estudos literários.
Primeiro, procurarei descrever a fronteira cavada no campo da crítica textual, para depois tentar mostrar como o hipertexto permite abolir esta fronteira. Segundo, tenciono descrever a incomunicação de fundo entre a crítica textual e os estudos literários, para em seguida apresentar o modo como o hipertexto pode repor as relações entre as duas áreas. Embora na primeira parte este texto tome em consideração a crítica textual europeia e na segunda tenha em conta sobretudo a filologia portuguesa, subjacente às duas está quase sempre o meu conhecimento da literatura antiga, sobretudo da literatura medieval escrita em vernáculo. Além desta observação preliminar, importa deixar claro que não me ocuparei dos aspectos técnicos da concepção de um produto hipertextual; que tocarei mais nas vantagens do que nas desvantagens de um produto deste tipo; e que tentarei escusar-me a tomar partido por algum dos modelos editoriais de que falarei.
1. Empenhada na recuperação do texto tal como se pensa ter sido escrito pelo autor, certa crítica textual elegeu como melhor garantia de atingir esse objectivo concentrar a sua atenção nos testemunhos mais antigos (e, portanto, mais vizinhos do autor), recusando por isso que os testemunhos mais recentes pudessem desempenhar algum papel nesta matéria. Este pressuposto ficou cristalizado na declaração recentiores deteriores. Reactivamente, provou-se que testemunhos menos remotos, desde que dependentes de menor número de cópias intermédias, podem transmitir lição mais próxima do que o autor escreveu. Assim, o que mediria o grau de utilidade de um determinado testemunho para a fixação do texto seria, não a distância cronológica que o separa de um dado original, mas o número de cópias realizado entre este e aquele. Esta verificação empírica conduziu à declaração recentiores non deteriores. Utilizarei estas duas declarações emblemáticas de sentido contrário para caracterizar de maneira sumaríssima as duas principais correntes da crítica textual tradicional.
O conjunto de operações que visava acabar com o primado do gosto subjectivo do editor e que, organizado sob a forma de método quantitativo, é atribuído com maior ou menor razão a Karl Lachmann (1793-1851) [2] e aos seus seguidores desenvolve-se sob o lema recentiores non deteriores. Quer dizer, os adeptos deste método confiam na capacidade do homem para recuperar o texto escrito pelo autor, ou o seu arquétipo [3], ou uma cópia alta do arquétipo. Independentemente dos sucessivos abaixamentos de fasquia, os partidários de Lachmann acreditam nas possibilidades de se transformar para melhor (isto é, para mais próximo do que o autor escreveu) a lição, sempre deteriorada, que nos chega através da tradição manuscrita e/ou impressa. Apoiado em critérios quantitativos, o editor intervém tanto nos casos de tradição múltipla como, de forma mais tímida, nos casos de testemunho único.
A crítica ao método lachmanniano desenvolve-se sob o lema oposto, recentiores deteriores. Em 1928, o autor desta crítica, Joseph Bédier, procura retirar crédito à pretensa mecanicidade do método lachmanniano, observando que a representação esquemática das relações entre os testemunhos produzida pelos seguidores do filólogo alemão não é imune aos desejos do editor, pois está orientada para criar representações que, logo sob o original ou o arquétipo, se bifurcam. Tal bifurcação faria com que o gosto do editor, que Lachmann expulsara pela porta da frente da crítica textual, regressasse agora pelas traseiras. Perante lições divergentes que remontam a apenas dois ramos matriciais é impossível aplicar o princípio de acolher a lição testemunhada pelo número maioritário de famílias de cópias. Ora, em sintonia com Lachmann no ponto em que o gosto do editor deveria ser expulso, Bédier abandona um método que afinal não garantia o extermínio da subjectividade. Ao fazê-lo, adopta uma atitude descrente que se materializa na reprodução austera de textos de acordo com um respeito, pouco ou nada interventivo, pela lição manuscrita. Apostar nesta forma de respeito pelo testemunho significa preferir o trabalho do copista pretérito ao trabalho do editor presente, este mais distante do autor do que aquele, este mais tendente do que aquele a construir monstros, ou seja, a organizar num todo incongruente peças provenientes das mais diversas paragens [5]. Na perspectiva dos partidários de Bédier, o tempo é de irremissível e perpétua decadência.
Nestes diferentes modos de preparar edições, há implicações gráficas que determinam orientações de leitura. A edição lachmanniana lê-se vertical e hierarquizadamente de cima para baixo, do texto para o aparato [6] em rodapé; a edição bédiériana lê-se horizontal e descentradamente, comparando-se as cláusulas ou os versos correspondentes das redacções presentes em diferentes testemunhos, cada uma disposta na sua página ou na sua coluna. A edição lachmanniana acredita no texto e oferece um produto sintético; a edição bédiériana acredita no texto, mas, descrendo da possibilidade de a ele chegar, oferece um produto analítico.
Em 1989, Bernard Cerquiglini publica ensaio polémico que desfaz a oposição entre estas duas correntes, reconhecendo nelas um denominador comum forte e que importaria ultrapassar. Uma e outra, ao acreditarem no texto (singular e estável), desconsideravam a evidência empírica de que o que existe é sobretudo textualidade (plural e instável). Em particular, que mesmo na tradição medieval, em que os testemunhos são predominantemente não-autógrafos, o objecto a estudar não é o texto (entidade apenas ficcionável segundo categorias modernas, posteriores, por exemplo, à legislação dos direitos de autor), mas as transformações por que passa “o texto” (ou melhor, que “são o texto”) materializadas nas variantes. De modo simplificador, poder-se-ia dizer que a teoria de Cerquiglini corresponde a uma conversão optimista da visão bédiériana: da elegia do texto passamos para o elogio da variante. Uma tal passagem é inalienável de várias condicionantes, entre as quais avulta o aparecimento e desenvolvimento de teorias literárias centradas no leitor, da crítica genética francesa, da variantística italiana e da aplicação da informática à edição de texto.
Foi o carácter analítico do trabalho editorial teorizado por Bédier e encarecido, com base em ideologia diferente, por Cerquiglini, que levou os seus adeptos a pensarem em termos mais optimistas sobre as vantagens da edição em hipertexto. Com efeito, a necessidade de dar a ler todas as redacções transmitidas pelos manuscritos bons e de as colocar lado a lado, esbarrava na dificuldade de acomodar um número potencialmente grande de redacções ao formato do livro e nos custos tipográficos que depois se reflectiriam no preço de venda. O hipertexto parecia fornecer a resposta para estes problemas: capacidade de armazenamento muito superior à do livro tradicional, leitura em confronto garantida pela formação de janelas, baixo preço. Mas vantagens como estas, quando nascem, nascem para todos, e foram reconhecidas pelos adeptos do método lachmanniano, que, além do mais, viram no hipertexto a possibilidade de resolver a pouca legibilidade do aparato, habitualmente impresso em corpo demasiado pequeno para a importância que tem.
Assim, embora o hipertexto, tanto quanto se pode perceber pela situação actual, não permita uma conciliação substantiva das duas principais correntes da crítica textual tradicional, oferece condições para disponibilizar, através de um arquivo electrónico, a reprodução facsimilada dos testemunhos, a transcrição de cada uma das redacções e a edição propriamente dita. Esta, por seu lado, pode ser apresentada de acordo com os princípios de Bédier ou consoante o método de Lachmann, cabendo a decisão ao utilizador [7]. Como afirma María Morrás, superar-se-ia assim a fronteira que separa os editores documentalistas e conservadores dos seus colegas idealistas e interventivos [Morrás 1999: 195] [8]. Veja-se, contudo, que uma superação assim é cega, pois reúne, mas não resolve.
2. Apesar de o conflito entre a tendência lachmanniana e bédiériana no âmbito da crítica textual ser um veio condutor na história da filologia, ele é em geral ignorado na bibliografia dos estudos literários. A filologia, contudo, não deixa de comparecer como uma etapa na história dos sucessivos modelos de abordagem da literatura [Coelho 1982: 203-37, Martins 1993: 147-63]. Tal história tem sido habitualmente construída em perspectiva disjuntiva - ou isto ou aquilo - e em que cada etapa costuma funcionar como degrau mais ou menos estanque de uma escada que conduz invariavelmente ao modelo favorecido pelo autor do relato [9]. Além do desconhecimento específico da bibliografia nesta área de estudos por parte de teorizadores da literatura e da orientação ascendente dos relatos que se têm ocupado da sucessão de escolas literárias, há outras circunstâncias (com outros protagonistas) que agravam a incomunicação entre críticos textuais e críticos literários. Refiro-me, por exemplo, no que diz respeito a Portugal, à escassíssima produção teórica no domínio da crítica textual, que cimenta o empirismo solipsista que caracteriza parte do trabalho que se realiza nessa área. Com efeito, quase não existem manuais e o ensaísmo é apenas ocasional [10]. As consequências que daqui advêm são múltiplas e tanto afectam banais questões de terminologia como amparam acordos de cavalheiros de interesse hoje duvidoso entre os praticantes de estudos textuais e os de estudos literários.
Em relação às questões de terminologia, a consabida amplitude semântica do termo edição, que tanto se ajusta a trabalho intelectual como a trabalho empresarial, tem permitido usos inesperados. Diz-se editor quem prefacia ou introduz um texto reproduzido fotograficamente, assim como se diz edição a reprodução de edição alheia. Mesmo se o termo vem qualificado com o adjectivo crítica, a confusão não esmorece [11]. Dir-se-á que esta é uma questão menor, mas é elucidativa de como as fronteiras de determinada actividade, ao não serem reconhecidas, ocasionam erros de percepção traduzidos no não-reconhecimento dessa actividade (isto é, de um campo de reflexão com técnicas, teorias e histórias).
No tocante ao acordo de cavalheiros, que constitui também um relato sobre fronteiras, McGann explica-o nos seguintes termos. O grau de especialização que atingiu o estabelecimento crítico de um texto tornou-se de tal modo exigente (em competências diversificadas e, assim, em tempo gasto) que as tarefas interpretativas têm de ficar para outros. Contudo, esta divisão do campo, prossegue McGann, foi desejada tanto pela filologia (ou, para ser mais exacto, por uma das suas correntes) como pelos estudos literários, daqui resultando que a primeira ficava com um território demarcado onde actuava de acordo com princípios gizados por ela própria; os segundos, dispostos a pagar o preço de não questionar o que lhes era oferecido como base de trabalho, libertavam-se de tarefas ditas preliminares e entregavam-se à interpretação [McGann 1985: 181]. Este acordo de cavalheiros garante convivência à distância, mas instaura zonas de grande desconhecimento mútuo cujo resultado traz actualmente mais desvantagens do que vantagens aos dois lados do campo.
Antes de ilustrar uma parte deste desconhecimento, procurarei explicar como vejo a articulação entre estudos textuais (em especial, a edição de texto) e os estudos literários. Falar de articulação, no sentido que me interessa aqui, implica abolir a ideia de qualquer espécie de precedência (metodológica, hierárquica, ...) dos estudos textuais em relação aos estudos literários e implica, portanto, recusar o estatuto ancilar daqueles relativamente a estes [12]. Articulação significa aqui uma espécie de conversão metonímica do conceito de “círculo hermenêutico”, entendido como «qualidade da interpretação que consiste na impossibilidade simultânea de poder compreender partes de um texto sem o apelo a uma compreensão geral do mesmo texto e de poder construir uma compreensão geral de um texto sem recorrer à compreensão das suas partes» [Tamen 1995: 1158]. A impossibilidade a que quero aludir é mais exactamente a inconveniência de estudar literatura de um ponto de vista “literário” sem uma perspectiva “textual” e (para re-citar a definição truncada) de estudar literatura de um ponto de vista “textual” sem uma perspectiva “literária”. Os elementos relacionados na definição deixam de ser “todo” e “parte”, desaparecendo assim a dimensão sinedóquica, mas a relação parece ser exactamente esta: sem centro, sem princípio predeterminado, sem fim predeterminado. Uma resistência a esta formulação resulta do factor humano (por exemplo, a esperança de vida média de um indivíduo) e são poucos os que, trabalhando notoriamente nas duas perspectivas, o fazem com proficiência notável (penso em Cesare Segre). Tal resistência deixará de aparecer tão aguda quando deixarmos de pensar à escala individual e ponderarmos a hipótese de colaboração entre indivíduos. É para esta direcção que encaminho, de seguida, a ilustração do desconhecimento a que aludi em cima com brevíssimas anotações sobre dois dos reparos mais habitualmente dirigidos de fora à crítica textual: o seu desinteresse pela interpretação e a sua procura (vã, entenda-se) da verdade.
Quanto ao primeiro reparo, por detrás dele está a presunção de que a crítica textual se ocupa de tarefas de simples reprodução mecânica ou, o que é semelhante, que à crítica textual cabe preparar a apresentação de um texto, que ficará assim disponível para submeter-se a operações interpretativas. Em parte, isto tem especial incidência numa tradição literária como a nossa, alimentada no período medieval por muitas situações de testemunho único, e num cânone servido por lacunas impressionantes de edições críticas em relação a autores maiores com obra assegurada por tradição múltipla (a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes; a poesia de Sá de Miranda, para não falar na obra de Camões [13]). Neste reparo pode, quando muito, vislumbrar-se uma caricatura das posições bédiéristas, que ilustrarei recorrendo ao debate entre Félix Lecoy, seguidor do filólogo francês, e Aurelio Roncaglia, adepto de Lachmann. Roncaglia assinala que uma das razões por que a edição Appel do trovador provençal Marcabru, apesar de lachmanniana, não o convencia, era a interpretação não ter sido suficientemente desenvolvida. A certo ponto da troca de argumentos, Lecoy replica que a interpretação não faria parte das atribuições do editor, mas sim do comentador ou do filólogo [Lecoy 1978: 509-513]. Ou seja, a divergência seria de carácter territorial, colocando um a interpretação dentro da edição, o outro colocando-a fora [14]. No entanto, se os bédiéristas se recusam a fornecer um texto e expulsam da edição a leitura interpretativa, na medida em que não deixam de trabalhar sobre a tradição manuscrita, investem no terreno da história cultural e literária, pois o estudo das etapas da transmissão de um texto tem uma dimensão interpretativa irrecusável. Portanto, o reparo parece não colher, mesmo como caricatura deste tipo de abordagem.
Em relação ao segundo reparo, quer pelo lado dos seguidores de Bédiér, quer do lado dos herdeiros de Lachmann, a crítica segundo a qual a filologia estaria obsessivamente preocupada em atingir a verdade convida a várias observações. A verdade não se concilia bem com o estudo de um objecto disseminado, como fazem os primeiros, ou com uma hipótese de trabalho, como defendem os segundos. Isto é, toda a carga unívoca e sólida que costuma atribuir-se ao conceito de verdade tem pouco que ver com a instabilidade fundamental do trabalho filológico. Mesmo na versão de filologia menos cara a McGann, o seu resultado único, a edição crítica, não se oferece como veículo de verdade, mas como exibição de um saber discutível sobre determinado texto e que convida à discussão pelo próprio facto de mostrar, através do aparato, os elementos em que se baseou. Estamos, assim, no terreno do que Contini insistentemente chama uma hipótese de trabalho, uma hipótese histórica que depende da documentação disponível e, entre outras circunstâncias, do momento em que ela é formulada (por muito que a explicitação desta circunstância costume parecer rasurada das pesquisas filológicas publicadas, por muito que não haja consciência desta circunstância em alguma pesquisa filológica).
Depois desta digressão necessária, note-se que são vários os modos como o hipertexto se presta a resolver a incomunicação entre estudos textuais e estudos literários, visível em equívocos do género do que tentei explicar nos parágrafos anteriores. O modo mais simples tem natureza compilatória. De facto, o hipertexto permite juntar lado a lado texto ou textos editados e comentários de críticos literários. Sucede que pôr lado a lado, à semelhança do que foi dito a respeito do emparelhamento de produtos bédiérianos e lachmannianos, não fornece resposta substantiva. Aliás, a ampliação óbvia destes recursos de contiguidade conduz a uma espécie de lógica de hipermercado, segundo a qual tudo o que o utente quiser (e não quiser – mas este é o preço de satisfazer uma pluralidade de utilizadores) está lá (se colocamos em vizinhança texto e comentário, por que não acrescentar glossário, bibliografia, arquivo de imagens fotobiográficas do autor, filmes com entrevistas sobre a sua obra a escritores contemporâneos, recortes de jornal, registo de fontes, levantamento das obras influenciadas pelo autor, censo das alusões à sua produção literária em intervenções parlamentares, depoimentos dos netos, cadastro policial, lista dos pratos favoritos com ligação aos restaurantes onde comia habitualmente, etc. ?) [ cf. Robinson, 2002] [15].
Encarado este fenómeno pela positiva, não é difícil arranjar exemplos práticos do papel que o hipertexto pode ter em diversas possibilidades de encontro das duas áreas de estudo que tenho vindo a referir. Há um primeiro grupo de exemplos que se relaciona com a percepção do objecto de estudo. Todos eles resultam do que se poderia chamar um alargamento do campo bibliográfico [16], embora se trate de um uso vocabular impróprio, na medida em que utilizo a expressão para referir outros produtos além de livros. Sublinho que, ao falar de uma expansão do campo bibliográfico, coloco a questão numa perspectiva conjuntiva - edições em papel e edições hipertextuais - parecendo-me ocioso admitir um cenário em que estas substituam aquelas. A circunstância de, por si, a edição hipertextual não eliminar vias tradicionais de transmissão de textos não significa que não se preste melhor do que as edições em papel a difundir artefactos verbais com certas características. Eis alguns deles:
1) A obra extensa de autores que, apesar de não fazerem parte do cânone mais ou menos restrito de uma determinada literatura nacional, influenciaram autores canónicos. A extensão considerável do texto e a importância relativa do autor em causa tornam a edição em papel economicamente desinteressante, mas esses não são impedimentos para edições electrónicas, menos ainda para produtos hipertextuais [Van Vliet, 2002: 68-69];
2) A obra representada por testemunhos manuscritos ou impressos de texto em construção com momentos de suspensão, quer dizer, casos em que espaços em branco não foram preenchidos ou não se procedeu a uma escolha de entre diversas variantes. O hipertexto permite, por exemplo, recomposições fotográficas do testemunho de modo a documentar as diferentes fases por que passou o processo criativo: 1 = imagem da redacção inaugural; 2 = 1 + primeira campanha de revisão; 3 = 1 + 2 + segunda campanha de revisão, etc.. Paralelamente (ou em alternativa), na hipótese de se escolher representação linear: texto fixado nas partes que não variam, sendo as partes de fixação inviável marcadas por sinais distintivos que assinalam ligações ao rol de variantes [cf. Van Vliet, 2002: 73-78];
3) A obra integrada no conjunto de textos que a acompanha nos testemunhos que chegam até nós. O texto deixa de ser visto como uma entidade autónoma para passar a ser estudado no âmbito de outros pertencentes à mesma espécie bibliográfica. Privilegia-se assim a unidade material sobre critérios de vizinhança genológica, de autor comum, de período igual de produção [Van Vliet, 2002: 71-73]. Por exemplo, a edição das diversas narrativas hagiográficas contidas no manuscrito da Livraria n.º 2274 pertencente à Torre do Tombo [Castro (apr.), 1982-83] passaria a incluir também os outros textos, com afinidades mas pertencentes a géneros diferentes, que se encontram nessa cópia (a Contemplação segundo as sete horas canónicas atribuída a S. Bernardo, a explicação dos Dez Mandamentos e o texto do Símbolo Quicumque vult salvus esse);
4) A obra não-exclusivamente textual de certos autores. Isto é, por exemplo, não os que pintam e escrevem, mas os que quando escrevem fazem intervir no processo de recepção do texto elementos materiais que não se cingem a letras alinhadas. Pense-se, por exemplo, em experiências da literatura modernista, mas também em manuscritos medievais decorados ou na poesia visual barroca. Dir-se-á que, nestes casos, o facsimile constitui solução adequada, mas, como assinala McGann, uma vez que a edição facsimilada se apresenta como uma estrita coincidência com o objecto reproduzido, dispõe de capacidade analítica mínima [McGann, 2001: 56].
Obviamente, o inventário não se esgota aqui, mas, além destas, as situações mais interessantes em que o hipertexto pode intervir com vantagem para o estímulo de colaboração entre estudos bibliográficos e estudos literários residem nas possibilidades de pesquisa incorporáveis em edições hipertextuais. E, se há possibilidades introduzidas em certos produtos que fornecem ao utente os meios não só para controlar a edição apresentada como para fazer a sua própria edição alternativa (estamos no domínio de estudos textuais para estudiosos textuais) [Robinson 2002: 56-57], existem outras possibilidades de pesquisa que se situam tradicionalmente no campo dos estudos literários. Para que estas últimas se concretizem, é fundamental gizar a cooperação entre os produtores da edição hipertextual e os seus futuros utentes. Estes seriam (serão) questionados sobre o tipo de pesquisas que, de acordo com o seu ponto de vista, interessa tornar possível (figuras retóricas, citações, estrangeirismos, nomes, inovações ortográficas, etc.) [Van Vliet, 2002: 69-70] [17]. Será despiciendo sublinhar que trabalhos como este obrigam a uma pré-definição clara das categorias pesquisáveis e convidam os estudiosos literários a pensar em matérias quantificáveis.
Há momentos corais que juntam o que está dividido ou revelam a matéria comum ao que até aí fora percebido como separado. Para certos autores, o hipertexto parece poder ter esta capacidade reunificadora, aplicável tanto no interior da crítica textual como no âmbito das relações entre a crítica textual e os estudos literários.
Se regressarmos a Lavagnino [7-8] e reflectirmos sobre a sua ideia de que as edições hipertextuais não despertarão maior interesse do que as edições tradicionais se não motivarem o utente para o interesse do aparato e se não o apetrecharem com ferramentas analíticas que o ajudem a aproveitar este dispositivo, perceberemos que a questão hoje já não é exactamente essa ou já se formula de outro modo. Pensar em termos de aparato equivale a tomar como referência o suporte em papel e o formato do livro, o que em ambiente hipertextual não faz pleno sentido. Do mesmo modo que em vez de edição mais verosimilmente se falará de arquivo, o “aparato” será agora com probabilidade uma ligação a uma transcrição com as partes variantes marcadas, quando não (também) uma ligação a imagens dos próprios testemunhos. Nesta medida, a solução para os problemas colocados pelo aparato é o seu próprio fim. Ora, transformando o aparato tradicional em emblema das grandes questões de relacionamento que tenho vindo a mencionar, o seu fim tem significados diferentes conforme falamos da querela entre seguidores de Lachmann e de Bédier ou da incomunicação entre críticos textuais e críticos literários. O hipertexto não resolve a querela referida, mas oferece terreno fértil para colaborações entre críticos textuais e críticos literários. Claro está, uma coisa é o terreno ficar disponível, outra é cultivá-lo. Assim, apesar de cada um poder continuar a cantar na sua própria língua, a canção de Guilherme IX, graças ao sentido colectivo de lor e à articulação proporcionada pelo enjambement, sugere que cada um pode cantar na sua língua de acordo com um canto novo: «Ab la dolchor del temps novel / Foillo li bosc, e li aucel / chanton, chascus en lor lati, / segon lo vers del novel chan» [ed. Riquer, 1989: 118].
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[1] «"Hypertext" can sometimes appear to be a confusing or simply fuzzy concept, because of the variety of existing hypertext systems, but it has one essential feature: linking. A hypertext system is one in which links may be specified between different places in the text.» [Lavagnino: 1]
[2] Sobre justificadas resistências ao uso comum da expressão “método lachmanniano”, entendendo por isso um conjunto de procedimentos concebidos e aplicados originalmente pelo filólogo alemão, veja-se Timpanaro 1981 e, sobretudo, Fiesoli 2000 (em especial o capítulo IX).
[3] Testemunho perdido, distinto do original, do qual todos os outros são derivados [Timpanaro 1981; Contini 1986].
[5] Bédier [1970: 67-68]. Os emblemas doutrinal e literário deste tipo de censura encontram-se, respectivamente, no início da Arte Poética de Horácio e em Frankenstein, de Mary Shelley (cf. p. 56: «I collected bones from charnel-houses; and disturbed, with profane fingers, the tremendous secrets of the human frame. In a solitary chamber, or rather cell, at the top of the house, and separated from all the other apartments by a gallery and staircase, I kept my workshop of filthy creation (...). The dissecting room and the slaughter-house furnished many of my materials»).
[6] Do ponto de vista constitutivo, o aparato é um dispositivo onde são registadas as lições da tradição manuscrita que o editor recusa (este aparato é por isso chamado negativo; o positivo, menos usual, inclui todas as variantes, inclusivamente as adoptadas no texto crítico [cf. Fränkel 1983: 10-11]); do ponto de vista funcional, o aparato permite que o leitor controle as escolhas do editor. Sobre esta matéria veja-se Avalle 1978: 122-24.
[7] Ou, como se adivinha na proposta de K. David Jackson, a apresentação de vários bons testemunhos de um texto (conforme a ideia de Bédier) na qualidade de passo preliminar para a determinação desse texto (segundo o objectivo de Lachmann). Trata-se do cd-rom intitulado Camões and the first Edition of Os Lusiadas, 1572, que acompanha o número especial sobre Camões da revista Portuguese Literary & Cultural Studies (University of Massachusetts-Dartmouth, 2002).
[8] Luiz Fagundes Duarte propôs recentemente um modelo interactivo de seis tipos de edição com diferentes graus de conservadorismo [Duarte 1997]. Como assinala António Emiliano, tal proposta poderia ser aplicada em ambiente hiper-textual com o percurso entre as várias edições a ser assegurado por meio de "links" [Emiliano 2002: 39]. Note-se, de qualquer modo, que estamos aqui no domínio da edição documental, a que interessa aos estudos de linguística e apenas um dos tipos que me interessa considerar.
[9] Considerem-se as observações de Manuel Gusmão sobre este tipo de orientação [2001: 200].
[10] O único manual publicado em Portugal é o de West [2002]. Não obstante constituir referência no campo, a existência solitária deste livro no nosso panorama editorial faz pesar sobre ele expectativas demasiado grandes para poderem ser satisfeitas (as de responder à pergunta de resposta variável "como se faz uma edição?"). Ao centrar-se na produção literária greco-romana (cuja tradição textual apresenta características bem diferenciadas da transmissão das obras medievais, por exemplo), o manual de West vai ao encontro de uma pequena parcela de um nicho de mercado. Não é que outros manuais, fosse algum deles o escolhido para pedagogo singular, não passassem pelo mesmo problema, mas o problema existiria menos se, além do livro de West, dispuséssemos de outros com finalidade semelhante, mas com campos de reflexão diferenciados (neste ponto, cabe lembrar a necessidade de fazer um manual vocacionado para lidar com a especificidade da literatura portuguesa). Quanto ao ensaísmo publicado sob a forma de livro, ignoro o que nos últimos vinte e cinco anos haverá além dos volumes de Luciana Stegagno Picchio [1979], Carlos Reis & Maria do Rosário Milheiro [1989], Ivo Castro [1990] e Luiz Fagundes Duarte [1993].
[11] É particularmente significativo que possa aparecer como edição de Elisa Esteves as Narrativas da Crónica Geral de Espanha de 1344. Antologia (Lisboa: Vega, 1998, colecção «Obras clássicas da literatura portuguesa», n.º 23), quando o trabalho editorial é de Lindley Cintra. Sempre em relação a questões de terminologia, veja-se a advertência de Teresa Brocardo: «O adjectivo "crítica" tem sido usado por vezes de forma algo vaga para classificar edições (como equivalente, por exemplo, de "rigorosa")» [Brocardo, 1997: 154].
[12] Vê-se que Wellek & Warren [s.d.: 65-81] cristalizam este estatuto ao chamarem à parte II do seu livro "Operações preliminares" e ao intitularem o capítulo único desta parte "A ordenação e a fixação dos testemunhos".
[13] Cf., a título de excepção, as edições Macchi de Fernão Lopes [Crónica de D. Pedro,1966; e Crónica de D. Fernando, 1975, reed. 2004] e a edição Vanda Anastácio da poesia de Pêro de Andrade Caminha [1998]. Está neste momento a ser elaborada uma edição crítica da Crónica de D. João I da responsabilidade de Giuliano Macchi e de Teresa Amado.
[14] Esqueço voluntariamente o sentido em que a interpretação não pode estar fora de tarefas de transcrição [Emiliano 2002: 29-30].
[15] É interessante ver como Peter Robinson, perante a proliferação de arquivos hipertextuais como o consagrado a Dante Gabriel Rossetti (http://jefferson.village.virginia.edu/rossetti/), manifesta alguma nostalgia pelos projectos editoriais que forneçam um texto de referência, assim a edição electrónica do Novo Testamento grego (http://nestlealand.uni-muenster.de).
[16] «conjunto estruturado de unidades bibliográficas (livros impressos), organizadas em torno de um determinado texto: o campo de um texto é o grupo formado pelas edições existentes desse texto (...) o campo é uma estrutura funcional, cujos elementos são valorizados de acordo com a sua capacidade para a difusão pública do texto» [Castro & Ramos, 1986: 112].
[17] Além da exaustividade na reprodução de testemunhos, é nas ampliadas possibilidades de pesquisa que se situa a evolução marcada pelo cdrom de Gil Vicente relativamente a um produto precursor no panorama nacional como a antológica Biblioteca Virtual de Autores Portugueses. Noutro âmbito, entre os conteúdos da Biblioteca Nacional de Lisboa digital (BN Digital), a secção intitulada "Construção da Memória", na parte da literatura, funciona como um acervo digitalizado de imagens de testemunhos de obras literárias portuguesas conservadas na instituição, mas nem sempre a selecção de exemplares obedeceu a critérios de representatividade editorial e não estão disponibilizados mecanismos de pesquisa. Neste sentido, a função parece ser sobretudo a de poupar os próprios testemunhos, desaproveitando possibilidades criadas pelo ambiente hipertextual (http://bnd.bn.pt/ecrans/memoria_literatura.html).