José Augusto Mourão (UNL-DCC)
Abstract
No doubt that the execution and the functioning of the computers predetermines in a direct way the existence of this new pattern of the ergodic literature. Neither poetry, neither interactive novel existes without the intervention of a computer of literary creation, called "littéranciel" (Paul Bradffort), "sintetizador (Pedro Barbosa e Abilio Carvalheiro) or "générateur" (Jean-Pierre Balpe). With "interactivity" the approach to literature has been completely changed. The relationship between the author, the text and the reader are become radically transformed. One analyses here the interactive novel, Manuel Pais' Metacarne, asking two questions: first, the function of electronics tools in the literary creation, second, the crucial question of this novel: what it mean, exactly, to say that we humans have become something other than human?
"(somos) as últimas gerações de um modo de ser humano, e o que aí vem vai ter muito que ver connosco; nós somos o último suspiro dessa civilização" - (José Saramago).
"We have to develop microrobots whose behavior is not pre-programmed, but activated by temperature, blood chemistry, the sofness or hardness of tissue and the presence of obstacles in tracts. These robots can then work autonomously on the body" - (Stelarc)
"METACARNE é o que não acaba no cemitério. O software".
"Os bots do futuro, a inteligência do futuro, a segunda espécie dominante sem carne, deuses com criadores carnais, espécie com futuro" - (Manuel Pais)
As nossas vidas passam-se entre textos, em textos: “É no discurso que se efectua a reprodução das relações sociais”[i]. A vida social multiplica os gestos e os comportamentos impressos através de modelos narrativos; reproduz e empilha sem descanso “cópias” de relatos. A nossa sociedade tornou-se uma sociedade recitada, num triplo sentido: é definida simultaneamente por relatos (as fábulas das nossas publicidades e das nossas informações), pelas suas citações e pela sua interminável recitação (Certeau, 1980, 312). Eis uma citação que soa hoje como palavra antiga.
Uma nova cartografia cognitiva (Lynch e Jameson) está em marcha. Marc Augé fala dos processos de “desrealização”, “desqualificação” e “virtualização” dos espaços - os não-lugares. A produção do espaço - a “ritmanálise” de Henri Lefebvre (1974) desvenda as relações entre o corpo e o espaço. “Le lieu, c'est le palimpseste” (de Certeau, 1980, 337). H. Lefèbvre lançou o conceito de “texto social”: “Cada um se encontra constantemente - quotidianamente - diante dum texto social. Percorre-o, lê-o. Comunica com outrem, com a sociedade global por um lado, com a natureza do outro, através deste texto e através da sua leitura. Ao mesmo tempo, cada um faz parte dum texto social. A rua é espectáculo, quase unicamente espectáculo, não de todo, porque andamos nela, paramos, participamos. Quase espectáculo absoluto, não totalmente, é um livro ou antes um jornal aberto: novidades, banalidades, admirações, publicidade” (Lefèbvre ,1968, 307, 310).
A escrita, que vivia da hesitação entre a língua e a fala, deslocando-as, vive hoje uma outra deslocação, orientando-se para aquilo a que se convencionou chamar “hipertexto”. A escrita hipertextual é antes de mais virtual, maleável e ubíqua como o pensamento, feita de uma temporalidade “alargada”, próxima da conversação. O centro de gravidade do hipertexto desloca-se de um écran a outro ou, como escreve Derrick de Kerckhove, “o conteúdo do hipertexto é o “ça” colectivo, não o eu privado”[ii]. Enfim, o hipertexto responde à aceleração instantânea, à pertinência do contexto da sua actualização, à rectroactividade, i.e., às texturas complexas da troca humana em tempo real, sem perder a objectivação do texto escrito, e à multimedialidade. Quer dizer hipertexto não torna apenas a escrita interactiva, reticular, mas faz com que ela se torne um meio de elaboração mental colectiva em tempo real, enfim um pensamento colectivo.
A linguagem hipertextual convive bem com a ideia de agenciamentos (a "unidade real mínima" de Deleuze) a partir da qual se geram os enunciados mais diversos, e não a Palavra, a Ideia, o Conceito, o Significante, o Objecto. "O enunciado é o produto de um agenciamento, sempre colectivo, que põe em jogo, em nós e fora de nós, populações, multiplicidades, territórios, devires, afectos, acontecimentos" Estamos sempre a inventar "agenciamentos a partir dos agenciamentos que nos inventaram, fazemos passar uma multiplicidade numa outra. O difícil é fazer conspirar todos os elementos de um conjunto não homogéneo, fazê-los funcionar em conjunto. As estruturas estão ligadas a condições de homogeneidade, não os agenciamentos. O agenciamento é o co-funcionamento. É a "simpatia", a simbiose. É ainda uma multiplicidade que comporta muitos termos heterogéneos e que estabelece ligações, relações entre, através das idades, dos sexos, dos reinos - naturezas diferentes". O que é importante não são nunca as filiações, mas a alianças e as ligas, não são as descendências, mas os contágios, as epidemias, o vento[iii].
Ciberliteratura
O conceito de literatura, um campo afinal mal determinado pulverizou-se, ao integrar géneros em que a literaridade é independente da avaliação, e outros em que depende inteiramente dessa avaliação. Aboliram-se as fronteiras entre literatura canónica e cultura popular, o que torna ainda mais difícil julgar o que é ou não pertença desse campo. A literatura era mais uma técnica do imaginário do que uma tecnologia. Essa situação está a mudar. A poesia era a linguagem com o mais alto e gozoso nível de violação de expectativas. Também essa situação está a mudar, mesmo se a árvore (da poesia) (ou a tradição) continuam a produzir bons e maus frutos, independentemente dos modelos ou das tecnologias. Com a falência, quer do modelo arbóreo (tree-search) quer do modelo profundo (vertical) da gramática, parece evidente que para descrever a linguagem que se escreve hoje se precisa de um outro modelo: o da ciberpoética? [iv] Podemos hesitar acerca da denominação a dar a esta nova forma de literatura: infoliteratura, Literatura Algorítmica, Literatura Potencial, Ciberliteratura, Geração Automática de Texto, ou Poesia Animada por Computador. Não há dúvida que as novas tecnologias de difusão estão a impor um novo estilo à escrita. Mas é bom saber que a geração automática de textos faz-se há trinta anos, pelo menos[v].
Vão longe os tempos em que a literatura se definia a partir de conceitos como literaridade ou estranhamento, definições que correspondem ao momento formalista da linguagem.Aquilo que ontem era tido como violação é hoje uma expectativa sedimentada.A ciberpoética significa mudança de campo da literatura. De tecido inteiro, o texto tornou-se um tecido sem costura, indiferenciado. Com o hipertexto - uma paisagem (multimedia) em movimento onde cada um, à partida, solitariamente navega, electronicamente seduzido pelo princípio do prazer, até chegar a uma “read-write form”, uma construção significante, interlocutiva - chegou a era da desestabilização generalizada.. O texto deixa de ser uma rígida colecção de regras ou de procedimentos técnico-formais, acabado, para passar a ser um percurso generativo, construtivo, de formas e de significância. Não há duvida que a metáfora hipertextual transporta uma particular visão utópica da informação na última fase da literacia. É uma metáfora próxima daquilo que Hakim Bey descreve, uma TAZ, que é um estado transicional na rede total de informação em que “islands of functionning anarchies appear fleetingly only to eventually fail in their development as fully-fledged universal autonomies and Utopias”[vi].
O mundo da ciberliteratura introduziu mudanças profundas no dispositivo da escrita narrativa. O que mudou completamente na passagem das formas textuais às formas hipertextuais, foi a sua forma físico-lógica, o seu dispositivo ou suporte. Mudou também a forma ou estrutura do texto. Mudou a concepção do texto (informativo) e mudou a sua recepção (interpretação ou uso). Os dispositivos recentes da informática fizeram vir a lume a narrativa arborescente princípio que está na base dos "livros em que você é o herói" e do Conte à votre façon de Raymond Queneau (1967), história de "trois alertes petits bois" publicado com os trabalhos do OULIPO. Esta forma de literatura narrativa algorítmica permite a cada leitor construir a sua história - esquemas complexos, com entrecruzamentos, são possíveis, podendo algumas pistas levar a uma interrupção prematura do processo narrativo em razão do fracasso do herói-leitor. Quer dizer, tornou-se dificil sustentar a tese de Paul Ricoeur como "um discurso homogéneo de discurso" (Ricoeur, 1980, 3) e dizer que "existe uma estrutura narrativa comum". As condições elementares duma sequência narrativa esboroam-se. Não porque desapareça o agente, ou deixe de haver um estado inicial ou ainda uma série de mudanças orientadas no tempo e que levam a um resultado final, mas porque agora se interrompem as condições elementares que compunham uma sequência. Pode sempre dizer-se que onde não há sucessão não há relato, embora a linearidade temporal possa ser problematizada; pode dizer-se que sem implicação de interesse humano também não há relato, embora a unicidade do actor não garanta a unidade da acção, pode dizer-se que o relato acabado se pode ler como a transformação de um estado no seu contrário (Hénault, 1983, 27), como também se pode dizer que há relatos de transformação zero.
Metacarne
Em Portugal, de há vinte anos a esta parte, o CETIC (http://www.ufp.pt/staf/pbarbosa/PersonalWebpage.htm) de Pedro Barbosa propõe-se abordar teoricamente o polifacetado domínio da multidiscursividade ligado ao advento das novas tecnologias, bem como laborar no âmbito dos novos paradigmas textuais e comunicacionais daí emergentes. Mas Pedro Barbosa trabalha fundamentalmente a geração automática dos textos. Metacarne de Manuel Pais (2000) corresponde a uma outra técnica, a da hiperficção. Mais uma "tecniquería" (a palavra é de Miguel de Unamuno) este livro que ainda não tem par na literatura portuguesa actual[vii]? Será o livro electrónico um "gadget" condenado a desaparecer (Alberto Manguel)? Mais uma provocação a pensar a difícil questão em torno daquilo que é a carne e aquilo que é o espírito? Mais um sintoma evidente de que a Literatura está a morrer?
Metacarne, de Manuel Pais, é "a curta história relativamente cyberpunk de um punk sem pernas e de uma rapariga com rumo". Maria José Carpinteiro (jornalista) e João Paulo Baptista (hacker viciado na Net), depois de um desencontro na vida real, encontram-se online. Como é feito Metacarne? Este texto combina varias formas de comunicação on-line ou escritas: desde o "chat" ao e-mail". A história passa-se sobre as novas linguagens e cada língua tem um sistema de decodificação: a) as palavras sublinhadas tem significado em ABC; b) também em ABC: i. abreviaturas; ii. Emoticons; iii HTML iv pontuação v UNIX. O autor propõe ao leitor uma hipótese de fim (p. 153), declarando antes que "A história não tem fim enquanto RESISTIR quem continue" (p. 149). Mas uma coisa enuncia e que é importante: "Finais sem fim, sempre o princípio de novos fins por caminhos a abrir" (Ibidem). Metacarne e uma obra de "desmantelamento", na confluência da literatura, da música techno - o rock tornou-se o rei das artes mutantes. Ora o "espirito rock" manifesta bem a ideia de não-pertença, de desafiliação, de desaprovação. Manuel Pais partilha o mesmo gosto por uma cultura do collage, do tratamento e da hibridação. Por isso o seu texto é polifónico, sendo produto de várias misturas, de metalinguagens - de que é feita segunda parte como uma espécie de enciclopédia a consultar a passagem dos "links" que pontuam o texto.
Literatura ou jogo?
A ideia de ciberliteratura confunde-se largamente com a ideia de jogo. A interactividade significa hoje a possibilidade de intervir, de forma significativa, na própria representação, e não na maneira de a ler. É a narrativa que é suprimida na interactividade, ou antes uma certa ideia de narrativa (aristotélica)? Estará a antiga masterview (o ponto e vista dominante do narrador, do realizador), associada ao main character point of view (o ponto de vista da personagem principal) a ser destronada pelo first person point of view da nova experiência imersiva facultada pela RV? Está a socialização das experiências interactivas, associada á hegemonia dos jogos sobre as narrativas, a gerar uma nova cultura?[viii]. Para Richard Ledes: “a tecnologia interactiva encontrou um nicho seguro nos jogos, mas mantém uma tempestuosa e não-resolvida relação com a arte de contar uma boa história”. O problema é que quando se da à audiência o controlo sobre o material bruto, dá-se exactamente aquilo que ela não quer. A audiência não quer um monte de tijolos, quer uma construção acabada, uma casa acabada. Ainda segundo R. Ledes: “O que é preciso é tornar os tijolos em gemas polidas de intriga, fragmentos de história que cativem a nossa atenção devido aos seus próprios atributos, e devido à sua afinidade com formas que a eles associamos. Estes blocos construtivos podem ser chamados historiomorfemas”. Ou: “Mais do que num monte de tijolos, deveríamos pensar numa casa de madeira ardendo in reverse (no sentido inverso)”[ix].
Metacarne pretendia ser um livro interactivo. O leitor/utilizador podia de facto continuar a história, criando-se uma sequência aqui mesmo neste site. Mas infelizmente não houve essa interactividade. A ideia era continuar no site do autor a historia com a contribuição de leitores. Houve bastante resposta por e-mail, mais para cavaquear do que para propriamente interagir, correspondendo. A última parte do livro - ABC - remete para o pulular de hiperlinks - é hipertexto em papel. Neste sector estão todas as linguagens que o leitor/utilizador vai encontrar enquanto avança. Metacarne apela a interacção, mas sem grandes adesões. Para A. Cameron, a ideia de uma narrativa interactiva é contraditória, dado que a forma narrativa é linear e não interactiva[x]. Como se sabe, o sistema de interacção entre o corpo e a máquina é uma variação do tocar - porventura o sentido mais recalcado em nós e que reencontramos com as máquinas.
O corpo que vem
O corpo hoje é protésico, cibernético (Cronemberg), imaginal, dissolvido (Lynch). Está a surgir uma sexualidade cibernética: no território virtual, essa imersão pode ser tão ficcionalmente intoxicante, ser de uma ficção tão real que, no limite, conseguir-se-á fazer tudo aquilo que quisermos sem ter que haver presença carnal, incontornável, absolutamente física do outro. A clonagem e muitas outras técnicas visa libertar-nos do sexo e da morte. É bem o que promete a reprodução biotécnica asexuada, que vai da inseminação artificial à clonagem integral. A cultura também clona, e a clonagem mental precede de longe a clonagem biológica. As ideias, o modo de vida, o meio e o contexto cultural são os instrumentos mais silenciosos de anulação das diferenças inatas. O Human Xerox é o irmão gémeo do pensamento único. Os "dildónicos" de T. Nelson - termo que serve para descrever a relação sexual entre humano e máquina, ou humano com humano através de uma máquina. - estão a porta. Ainda não há equivalentes de síntese para substituir a sensação, a percepção, a fruição e o sofrimento. Inventar máquinas que tenham prazer está ainda fora dos poderes do homem. As máquinas não têm tentações narcísicas nem são seduzidas pelo seu próprio saber. O que explica talvez a sua melancolia profunda. Todas as máquinas são, afinal celibatárias.
Carne-espírito é um par, mas a relação que os aproxima é subtil. Estão entre eles como o empurrão e a atracção, duas forças que agem uma a montante, a outra a juzante. O erro mais comum consiste em opor radicalmente a carne e o espírito, portanto em tentar substituir o movimento do espírito pela deriva da carne. O corpo tornou-se um campo de batalha (Barbara Krueger). O corpo esta a tornar-se "biotécnico". O corpo metafísico esta a ser destruído pelo corpo utópico, que e uma mistura de técnica com o bios. a carne está a tornar-se meta-carne. Com o colapso realidade vs ficção também a dualidade cartesiana espírito/corpo é eclipsada pelo conceito de "cyborg" que mina o conceito de "humano". Com efeito o estatuto do "cyborg" nem é humano nem artificial, mas um híbrido dos dois, alterando radicalmente a subjectividade humana neste processo. Se as fronteiras entre humano e artificial colapsam, todas as outras dualidades se dissolvem também e as suas partes tornam-se indistintígueis, como prevê Donna Haraway no seu "Manifesto for Cyborg" (Haraway, 1985). Derrick de Kerckhove[xi] diz que o robot faz parte dos inúmeros espelhos de que o homem tem necessidade porque e o mais profundo e com varias funções. Mas o robot é muito mais inquietante que todas as outras máquinas por ser um espelho fiel da realidade humana. Por ser simultaneamente uma ameaça e um atractor. Com efeito, desde a função que Derrick de Kerckhove selecciona, em primeiro lugar a da autodefinição e segundo a qual os robots nos remetem o reflexo de nós mesmos, falando de nós. "És parecida com o teu avatar?"Dê-se ao respeito." "Desculpa, mas pareces tão fascinante" (p. 115). Desde a função da especialização que ensina que a robótica é uma extensão de algo, da mão, dos dentes, das orelhas. Enfim desde a terceira função, a do impulso criador, senão sexual. "Frankenstein é um pai que cria um filho sem a ajuda duma mulher. É um monstro. Assim o robot constitui uma das respostas a esta função criadora" (Ibidem).
A "carne" designa a substância animal em todas as suas formas. Desde a sua instalação na terra, o ser vivo é definido pelo confronto dos contrários: crescimento e reprodução, por um lado, destruição e morte, por outro lado. A sexualidade, sem ter um caracter tão universal, dá-nos o terceiro elemento do tripé em que se apoia a evolução das espécies: a vida, o sexo e a morte. A carne o corpo opõem-se fenomenologicamente. O corpo aparece, mas a carne permanece invisível. Não posso separar-me da minha carne: "A minha carne é, entre todas as coisas, a mais próxima do meu sentimento e da minha vontade", sublinha Husserl[xii]. A carne escapa como tal à fenomenalidade. No e-book de Manuel Pais a carne aparece como corpo físico - "corpos presos aos cadeirões pelas grilhetas dos hábitos cómodos", "vou morrer na carne e ficar nas memórias de silício" (pp. 73-74). Corpo/carne vs vinculum conhecimento/inteligência: eis o que está para além do corpo. A Rede é uma "drogaria electrónica" em que vale só a inteligência (p. 78). Em Metacarne encontramos seres autónomos, bots, que ganham vida. Seres só de espírito. Pouco importa que se entre em crash, sem ligar nada a nada, no mundo do abstracto. Os fantasmas, só tem sentido na aproximação, não na plena presença. Os bots movem-se no espaço de um software hiper-racional e no tempo de um futuro distante. O nosso autor imagina bots por todo o lado, criaturas que ilustram a saciedade uma ciberantropologia da desincarnação, um mundo de máscaras que J. Perry Barlow lobrigou. A compulsão do virtual é a compulsão para existir in potentia em todos os écrans, o que resulta na desaparição do eu "real" e da comunidade "real" através da proliferação destes signos. "A Rede foi o ópio/energia dos anos 90" (p. 116). O auto/programador Manuel Pais inspira-se na teoria que percorre 2001 Odisseia no espaço, bem antes do aparecimento de Matrix. Vem indicado na página 99 o modo de ler: "Este livro e um espaço de liberdade, de poesia" a não servir "como um cachorro quente para seduzir". Afinal o seu propósito é mesmo metafísico: "esse no principio era o verbo <carne>, não as letras <nomes, imagem, aparência, política, jogos de poder, equívocos>, e machos e fêmeas ainda não eram homens e mulheres, eram ainda mais parecidos do que são hoje, e as pessoas que pertencem a ideias de religiões ou de raças ou de classes ou de outra realidade virtual, eram uma única espécie, talvez se avance para o princípio, com o verbo a recomeçar tudo nos bots <metacarne>> na nação bot, os humanos só tem de pensar num dos sete símbolos de pecado/prazer para serem satisfeitos pelos bots" (p. 162). O próprio Cristo desce à terra na forma de bot (p. 149).
Coda
“O homem não experimenta nada e não usufrui de nada sem ser ao mesmo tempo criativo. Tal é a qualidade mais íntima da natureza humana” (Goethe). A crítica da técnica só dela deve brotar, da lei que lhe é imanente. A determinação do que é a técnica deve preceder a crítica do seu valor. Como a língua, cuja única definição deve ser genética, as técnicas não podem ser compreendidas senão como um modo e uma direcção fundamental do processo de produção. A “desmaterialização”, a moralização da técnica são hoje problemas fundamentais. A interactividade, ligada ao prazer do jogo, é sobretudo uma libertação. Mas não pode ser também um cansaço? J. L. Borges fala da supersticiosa ética do leitor[xiii] Não será absurda uma ética com critérios puramente hedonistas?.
A geração automática introduz-nos no cenário interactivo em que primazia é dada ao aleatório, ao “mundo possível”, ao calculável, à ausência de qualquer teleologia e ao fluxo: a fractalidade da ficção. Se o cerne da estética negativa de Adorno é “o horror à origem”, “porque o que dá a ideia não é a sucessão, mas a constelação”, o cerne da ficção hipertextual é o horror à linearidade, à hierarquia, ao fetichismo das essências [xiv]Ora a ideia de constelação remete para a ideia de espaço, que é reconhecidamente a categoria mais proeminente do pós-modernismo[xv]. A reaparição do espaço com Deleuze, Foucault e Rupert de Ventós manifesta-se como a condição formal de todo o pensamento futuro[xvi]. O ideal da física clássica era atingir a perfeição intemporal da geometria. Todavia, a todos os níveis, desde a cosmologia até à biologia, vemos aparecer um elemento narrativo. Este elemento narrativo é inseparável da noção de criatividade que atinge um cume na história do homem.
Manuel Pais não tem apenas o mérito de ter lançado Metacarne como o primeiro romance interactivo em português, como ainda se antecipa, de um ponto de vista teórico - Metacarne é tanto um livro sobre o destino da carne depois da carne, como um metadiscurso sobre a vida no ciberespaço - sobre questões que a cibercultura hoje, de uma forma irrecusável, coloca de uma forma evidente. Webness (reticularidade) é o termo que Derrik de Kerchove utiliza para falar de uma nova condição cognitiva[xvii]. A ideia de "inteligência conectiva" neste livro corresponde exactamente a essa tese (p. 144). Outra a questão do ciberespaço - questão fundamental neste texto. Ou ainda o tópico do êxtase da comunicação. Ou a Rede vista como a nova droga. No seu todo, a utopia do ciberespaço sai deste livro plenamente desmitificada. A vida no ciberespaço, desenhada como Thomas Jefferson quereria: fundada na primazia da liberdade individual e no comprometimento com o pluralismo, a diversidade e a comunidade, é bem mais igualitarismo do que elitismo, e bem mais descentrada do que hierárquica. Parece ter sido. Para milhões de "netters", o ciberespaço é um lugar real com potenciais reais. As ciber-comunidades oferecem-nos estratégias de desterritorialização como zonas de jogo - salas de vicio privado em que cada tem a sua Disneylandia à cabeceira.
"Nous ne savons pas ce que peut un corps" (Spinoza). Sabemos nós o que pode um livro? (p. 11) Que anuncia esta nova Babilónia? (p. 134). Que religiões propõe? (p. 78, p. 92) Que ética de escrita? A presença de Camus no exergo deste livro que anda remete-nos para a ideia de "engagement". Que pode a literatura, e mais, decisivamente agora, a ciberliteratura?
Bibliografia
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NOGUEIRA, L. C. (1997), La Risa del espacio - El Imaginario Espacio-Temporal en la Cultura Contemporánea: Una Reflexión Sociológica, Barcelona, Tecnos.
PAIS, M. (2000), Lisboa, Oficina do livro.
ZOCK, M. & SABAH, G., "La Génération Automatique de Textes: trente
ans déjà, ou presque", in Langages, nº 106, Juin 1992.
Notas
1 FRIEDMANN, A. G., Idéologies, discours, pouvoirs, A. Bouillon, 1981, p. 43.
2 KERCKHOVE, Derrick de. de , “L´hypertexte, texte du temps, non de l´espace, texte du ça, non du moi”, McLuhan Program, Université de Toronto, p. 2.
3 DELEUZE, GILES, em colaboração com Parnet, C., Dialogues, Paris, Flammarion, 1977.
4 WWNDT, Larry, URL: http://www.indirect.com/www/warren/surreal.html;
URL: http://www.ugcs.caltech.edu/~benedett/hyper.html;
URL: http://english.hss.cmu.edu/ctheory/ctheory.html;
URL: http://pharmdec.wustl.edu/juju/surr/Futurism/FUT-MENU.html
5 ZOCK , Michael & SABAH , Gérad, "La Génération Automatique de Textes: trente ans déjà, ou presque", in Langages, nº 106, Juin 1992.
6 BEY, Hakim, “The Temporary Autonomous Zone” Autonomedia, New York, 1991, in Art & Design Magazine, 1995
7 ZINK, Rui publicou entretanto Os surfistas na Internet entre 4 de Junho e 31 de Agosto de 2001, sob a forma de folhetim interactivo.
8 KERCKHOVE, Derrick de, Inteligencias en conexion. Hacia una socied de la web, Barcelona, gedisa, 1999.
9 MENDES, João Maria, “Interactividade: do hipertexto à imersão na realidade virtual”, Abril 1998.
10 LEDES, Richard, “The Challenges of Building Interactive Narratives”, http://www.intelligent-agent.com/aug_building.html.
11 CAMERON , Andrew, “Dissimulations: the Illusion of Interactivity”, Millenium 28, Primavera de 1995.
12 KERCKHOVE, Derrick de ,"L'espace de la robotique en art", in Esthetique des arts mediatiques, tome 1, p. 272.
13 Idees directrices, II, § 21, p. 94 e 41 (trad. franc. P. 142aa).
14 Discussão, Difel, 2ª ed. 1986, p. 15.
15 BOURDIEU , Pierre, Raisons Pratiques, Seuil, 1994: 50.
16 Cf. COELHO, Eduardo Prado, “Espaço e Pós-modernidade” in Público Leituras 9 de Maiode 1998; NOGUEIRA, Luis Castro, La Risa del espacio - El Imaginario Espacio-Temporal en la Cultura Contemporánea: Una Reflexión Sociológica, Barcelona, Tecnos, 1997. Georges Benkp e Ulf Strohmayer, Space & Social Theory - Interpreting Modernity and Posmodernity, Blackwell, 1997.
17 "Divina eloquia aliquo modo cum legentibus crescit" (Gregório Magno).