Enciclopédia e Hipertexto

Modelos hipertextuais

Leonor Areal

1.  Introdução

 

Após uma apresentação do cd-rom MultiPessoa[1], feita no seminário Enciclopédia e Hipertexto em 10/4/2002, sumarizam-se aqui os diferentes modelos de hipertexto utilizados neste cd-rom, que apresenta a obra completa de Fernando Pessoa em suporte electrónico. Procurarei demonstrar a forma como, na adaptação a hipertexto da obra literária de Pessoa - dada a sua estrutura fragmentária - solucionei diversas possibilidades de abordagem através de utilização de alguns modelos actuais de hipertexto electrónico: exploratório, potencial, construtivo e criativo.

 

2.      Hipertexto e intertextualidade

O termo "hipertexto" designa um conjunto de documentos organizados de forma não-linear e que estabelecem entre si uma rede complexa de relações associativas. A sua organização é explicitamente não-sequencial, não hierárquica e sem raiz.

O hipertexto, cujas raízes conceptuais se explicam pela natureza associativa do pensamento humano, tem como equivalente teórico em literatura o conceito de intertextualidade, segundo o qual tudo o que escrevemos está cheio de referências a outros textos e ecos da nossa tradição cultural, e assim cada texto deve ser interpretado como repositório, talvez inconsciente, de outros textos, gerando uma indefinida rede de inter-relações textuais.[2]

A obra literária que, sem ter um ponto de partida nem de chegada, encontra em si própria unidade através das relações entre os seus fragmentos, propondo múltiplas associações e caminhos para a leitura, encontra uma realização plena em Fernando Pessoa, cuja obra sempre incompleta vive de uma intertextualidade fundamental, através da criação de personagens literárias cujas vozes poéticas constituem um diálogo permanente, representado potencialmente em cada poema, em cada verso, e integrando um universo coerente.


3.      Fernando Pessoa: obra fragmentária

O próprio Fernando Pessoa, numa definição premonitória de hipertexto, explica a condição inevitavelmente fragmentária e incompleta da sua obra:

«Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados.»[3]

Por outro lado, a divulgação da obra de Fernando Pessoa, intensificada a partir do cinquentenário da sua morte (1985), tem-se caracterizado principalmente pela edição de literatura especializada, e menos por obras de contéudo pedagógico, talvez porque, pela sua complexidade, seja difícil encontrar formas de a tornar acessível através de uma compreensão simplificada, mas globalizante. A dificuldade vem de F.P. não ser um só autor, mas «toda uma literatura»[4]. O problema que se põe é, portanto, como explicar o sistema literário que subjaz à sua obra, de modo a que os textos e as poesias dispersas não pareçam ao neófito esparsas, incoerentes e contraditórias.

Como é sabido, o sistema literário de Fernando Pessoa baseia-se na criação de múltiplas personalidades poéticas cujas perspectivas se confrontam ou comparam, sendo o interesse de cada uma delas sempre enriquecido pela alternativa que lhe dá uma outra. Sem perceber isto e sem identificar as polaridades existentes, torna-se difícil, para o leigo, criar uma imagem integrada da obra de Fernando Pessoa, na qual novas leituras vão fazendo sentido. Realmente, a obra pessoana é como um labirinto com múltiplos acessos, uma teia de relações interminável, um universo construído a múltiplos níveis.

Destas características surge então a ideia de conceber a obra pessoana como um sistema hipermedia, ou seja, um sistema em que todas as relações desejáveis são possíveis de se construir de modo não linear, através de hipertexto ou de navegação cruzada. E, assim, decidi ensaiar a adaptação da obra pessoana a suporte digital - o cd-rom MultiPessoa - que aplica diversas formas de hipertexto, distribuídas pelas secções Labirinto, Obra, Pessoana e Jogos.


4.      Labirinto: hipertexto potencial

A secção Labirinto apresenta uma selecção antológica de textos de Fernando Pessoa, organizados em percursos temáticos, através dos quais o leitor pode navegar. 

A definição dos módulos de informação tomou como unidade cada texto literário, em relação ao qual se destacou um tema principal - correspondente ao título de página - que permitisse encadear vários textos, segundo uma lógica expositiva, e estabelecer entre eles um fio condutor - representado pelo comentário de topo de página. Por outro lado, para tornar mais estreita a relação do título e do comentário com o texto, destacou-se deste uma citação que estabece com os primeiros uma relação dinâmica de sentido.

Cada página ou nódulo está assim estruturado como uma pirâmide, contendo 1) título, 2) comentário (frase de síntese que estabelece uma relação narrativa com as páginas anteriores e seguintes desse percurso), 3) citação e 4) texto ao qual ela se refere, além de 5) uma imagem.

O utilizador que percorra as páginas numa primeira exploração superficial do programa - situação típica - poderá ler essencialmente os elementos sintéticos, mas essa informação será suficiente para que o percurso, ou a comparação entre percursos, faça sentido e leve à assimilação de alguns elementos básicos relativos ao universo pessoano. Numa outra passagem por esses "locais", poderá aprofundar a sua exploração, seleccionando e lendo os textos, mas já com uma noção do conjunto. De facto,  a leitura do texto literário é o objectivo último deste programa, a que o utilizador é levado através de todas as outras informações de suporte. Mas não é indispensável ler cada texto de Pessoa para se ficar com uma percepção da obra, uma compreensão do sistema ou mesmo uma visão de conjunto. Este é o objectivo primeiro do programa.

O conceito de labirinto, utilizado como metáfora de organização, é concretizado do seguinte modo: existem percursos independentes de introdução à obra de F.P.; cada percurso desenvolve-se ao longo de um número variável de páginas organizadas sequencialmente segundo uma lógica de iniciação temática; entre esses percursos são estabelecidas ligações determinadas por relações analógicas de conteúdo, cuja teia forma uma espécie de labirinto. Assim, a partir de cada página é possível fazer comparações temáticas e contrastivas com páginas de outros percursos, e sucessivamente de página em página até que o labirinto se torne um desafio real, isto é, em que arriscamos perdermo-nos.[5] O estímulo para saltar de um percurso a outro, consiste numa frase ou verso do texto para o qual remete a ligação e que aparece escrito na base da janela, quando o utilizador passa o rato sobre o link assinalado a azul.

Nesta teia de relações pré-estabelecidas, cabe ao utilizador o papel activo de interpretação e construção de sentidos. Ele assumirá, portanto, uma autonomia como leitor e explorador da obra literária, para a qual  lhe são fornecidas pistas mas não respostas. A este tipo de hipertexto de base intertextual, em que o leitor é convidado a cotejar diferentes textos para tirar conclusões próprias, poderemos chamar também de hipertexto potencial[6], já que, pressupondo a colaboração do leitor para desvendar as ligações propostas entre textos, lhes conserva, no entanto, a sua autonomia e inteireza originais (nem seria tolerável segmentar ou interferir, a partir do seu interior, em textos literários alheios.)


5.      Obra: hipertexto exploratório

A secção Obra contém praticamente toda a obra de Pessoa editada até 1997 e é iconograficamente representada por uma Arca. Aqui, optámos por uma organização da obra em vários volumes que representem uma opção editorial. Em cada um destes "livros" - representados por pastas de documentos por se tratar da convenção mais conhecida dos utilizadores de computador - integram-se diversos textos, arrumados também por pastas (os envelopes em que Pessoa guardava os seus textos...) e acessíveis por diferentes índices: alfabético, cronológico ou outro. O modelo organizativo subjacente é assim misto, conciliando uma concepção editorial, própria dos livros, com os modelos de organização de documentos em pastas iconográficas, próprio dos interfaces de computador. A vantagem deste modelo misto é que, ao contrário dos índices de livros, cada texto pode pertencer a diferentes categorias, e portanto pode ser encontrado em diferentes pastas (por ex., simultaneamente em Textos Publicados e em Obra Dramática).

Nesta secção, o leitor encontra-se perante uma enorme base de dados, que pode explorar, livremente, com recurso a mecanismos de pesquisa de informação digital (tal como os que são frequentes no hipertexto global da internet, através dos motores de pesquisa.) Este gigantesco hipertexto exploratório permite-lhe encontrar relações (vocabulares e semânticas) entre textos nunca antes cotejados, abrindo-se a comparações e interpretações novas. Para auxiliar este processo, a secção Obra fornece várias ferramentas de anotação, como a marcação de páginas, a impressão de listagens a partir das pesquisas, campos de anotação pessoal e de classificação por palavras-chave, bem como mecanismos de pesquisa destas anotações. Assim, aos poucos, e à medida que vai abrindo percursos de exploração, o leitor pode ir construindo o seu “edifício” de análise da obra pessoana.




6.      Pessoana (Citações): hipertexto construtivo

A secção Citações tem como modelo conceptual e metáfora estrutural o de um tradicional ficheiro de citações bibliográficas arrumadas alfabeticamente por um título-chave. A procura dos assuntos pode fazer-se através de um índice, mas são também disponibilizadas funções para pesquisa de texto. Além disto, oferece a possibilidade de criar novas fichas bem como links entre fichas, permitindo assim ao leitor fazer ligações interiores ao texto (através de palavras-chave). Esta é uma forma de hipertexto construtivo, pois requer do leitor-escritor a capacidade para criar e modificar partes de um corpo de conhecimento em desenvolvimento.

A rede de ligações e remissões resultantes assemelha-se também à estrutura de um hipertexto de matriz enciclopédica, na medida em que todos os links apenas podem remeter para títulos de outras fichas, e não para partes interiores de outros textos. Deste modo, é favorecida uma forma de citação que procura unidades mínimas de sentido, comportáveis nas entradas dadas como título.

 


7.      Jogos: hipertexto criativo

Os jogos desta secção - Drama-em-GenteHeteroloto e Puzzle - inspiram-se nos pressupostos do grupo OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potencielle)[7], que explorou diversas formas de criação literária: umas baseadas em processos combinatórios de analogia matemática, outras na definição de constrangimentos (contraintes), outras ainda pela fragmentação das narrativas ou pela criação de jogos lógicos ou labirintos formais.

Na relação da literatura potencial com a informática, os oulipianos encaram o computador não como um meio, mas como um agente de criação literária, com «um papel de assistente na definição final do texto» (Fournel 1981: 299)[8]. Ao  leitor caberá escolher uma sequência narrativa através de uma série de perguntas alternativas que lhe são colocadas, ou, a exemplo de Queneau[9], o leitor poderá criar um soneto pela combinatória de versos de dez sonetos, num total de 1014 sonetos. Outra possibilidade explorada pelos oulipianos é a da «criação assistida», em que «o autor escolhe trabalhar sobre uma matéria que quantitativamente o ultrapassa e que a máquina lhe permite dominar» (Fournel, 1981: 300).

No jogo Drama-em-gente (designação dada por Pessoa para definir a sua obra heteronímica[10]), propõe-se ao leitor a criação de diálogos entre 4 heterónimos,  a partir de frases/versos que são sorteados (de um conjunto previamente definido de acordo com critérios semânticos). Assim, pela colagem de frases pré-existentes distribuídas aleatoriamente, mas escolhidas segundo o seu arbítrio, o leitor pode construir e reescrever um texto dramático. Através da criação de contrangimentos (as regras do jogo), o leitor é estimulado a fazer um exercício de imaginação e interpretação da obra pessoana. 

O jogo Puzzle – que apresenta um esquema semelhante de sorteio de versos  - consiste numa espécie de laboratório poético, em que o leitor pode construir poemas a partir de versos distribuídos aleatoriamente e por ele combinados e reescritos, à maneira de Queneaux. Os versos são sorteados de modo a casar categorias semânticas pré-definidas, e distribuídos por três grupos formais: estilo clássico (decassílabos e hexassílabos), estilo tradicional (redondilha maior e menor) e verso branco.

O Heteroloto é um outro tipo de jogo, onde o leitor procura adivinhar a qual dos 4 heterónimos (incluindo ortónimo) pertencem os 20 versos sorteados. Note-se que este jogo não testa tanto a memória dos textos como a compreensão que o leitor tem das atitudes das diferentes personagens heteronímicas, permitindo-lhe verificar no final a atribuição correcta das frases e a pontuação obtida. Muitas vezes, os erros do leitor devem-se à ambiguidade de certas frases, cujas proposições são partilhadas por mais que um dos heterónimos. Estas ambiguidades conduzem também a uma compreensão mais aprofundada das relações e semelhanças entre heterónimos, para além das suas divergências).



Notas:

[1] Fernando Pessoa Multimédia, Texto Editora, 1997 (cf. http://multipessoa.planetaclix.pt)

[2]A crítica literária de Barthes analisa o «texto estilhaçado», através de unidades de leitura - lexias - estabelecidas arbitrariamente a nível do significante, e interpretadas a nível do significado - visando não a «descoberta da verdade do texto» mas a pluralidade das unidades de sentido, em relação intertextual permanente. Barthes, Roland (1970). S/Z. Lisboa: Edições 70, 1980

[3]Pessoa, Fernando. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação de Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966: 18 (data provável do texto: 1910)

[4] «Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo (...).» Pessoa, Fernando. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação de Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966: 98.

[5] A ideia de labirinto literário visto como desafio foi defendida por Calvino: «o que queremos separar e distinguir da literatura de entrega ao labirinto é uma literatura de desafio do labirinto.». Calvino, Italo(1962). “El Desafio al Laberinto” in Punto Y Aparte. Barcelona: Bruguera, 1983: 128.

[6]Numa definição próxima da de literatura potencial, criado pelo grupo OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potencielle), que, nos anos 60, propunha e explorava diversas formas de literatura potencial, ou seja, uma literatura cujas possibilidades só se realizam plenamente pela acção de cada leitor. Numa definição sintética, «uma obra potencial é uma obra que não se limita às suas aparências, que contém riquezas secretas, que se presta à exploração» (Bens, Jacques. “Queneau Oulipien”. in OuLiPo. Atlas de Littérature Potencielle. Paris: Gallimard. 1981: 23).

[7] OuLiPo. Atlas de Littérature Potencielle. Paris: Gallimard, 1981.

[8] Fournel, Paul. “Ordinateur et Écrivain”. in OuLiPo. Atlas de Littérature Potencielle. Paris: Gallimard,1981.

[9]Queneau, Raymond (1961). Cent mille milliards de poèmes. Paris: Gallimard

[10]  «As obras destes três poetas formam, como se disse, um conjunto dramático; e está devidamente estudada a entreacção intelectual das personalidades, assim como as suas próprias relações pessoais. (...) É um drama em gente, em vez de em actos.» Pessoa, Fernando (1928). “Tábua bibliográfica de Fernando Pessoa” in Presença nº17, Dez. 1928, Coimbra.