Enciclopédia e Hipertexto

A escrita e seus dispositivos

Maria Augusta Babo

 

Quando à escrita se coloca a interrogação aparentemente subsidiária, do seu suporte, logo nos surge o livro como sua configuração inexorável. 

Esta sutura do livro com a escrita revela o âmbito da representação em que assenta. O livro dá forma a uma configuração de escrita bem conhecida da nossa cultura e que desempenha uma função de representação do mundo. A figura do livro, ou se se preferir, da escrita-em-livro, fundou os modos de representação, de reprodução e de decalque, instaurando uma dependência da escrita suposta representar o mundo e ainda o seu autor.

É este regime de escrita que visam Deleuze e Guattari (1980, pp.34/35) quando designam as três instâncias que presidem à ordem do livro: "o livro como campo de representação; o mundo como campo de realidade e o autor como campo de subjectividade". Na verdade, o livro dá-se como representação do mundo e ata a escrita a essa função subsidiária do real, por um lado, e ao campo da subjectividade, por outro.

Reproduzir o mundo, decalcar outros livros, outros textos, são formas de cultura às quais reagem Deleuze e Guattari propondo em alternativa uma escrita rizomática, o livro anti-cultural, que possa agenciar o heterogéneo, nomádico e usando activamente o esquecimento, saindo fora do campo restrito da representação e envolvendo-se na mistura, na amálgama de planos, nos agenciamentos insuspeitados. Tal escrita, por se afastar do livro como modelo de representação, tendeu a ser comparada aos novos procedimentos reticulares do digital.

A ruptura que o digital traz à escrita apresenta-se, pois, como sendo a sua própria libertação relativamente ao dispositivo fixo e rígido. Para Pierre Lévy, o novo dispositivo determina uma escrita diferente, descentrada e heterogénea. Mas, se o suporte de acolhimento da escrita se alterou, não é seguro que o mesmo se passe no próprio texto-escrita-pensamento. Podemos, aliás, levantar grandes dúvidas quanto a essa desobediência da escrita, como a designa Derrida, que se instalaria no hipertexto. Se o digital traz consigo formas de desestruturação do texto, elas foram experienciadas antes mesmo do aparecimento do dispositivo: "Os textos mais desobedientes no que diz respeito às normas da escrita linear, arrisquei-os bem antes do aparecimento do computador. Ser-me-ia mais fácil agora fazer esse trabalho de deslocação ou de invenção tipográfica, de enxertos, de inserções, de cortes e de colagens, mas nada disso me interessa muito, desse ponto de vista e dessa forma. Tudo isso foi feito e teorizado ontem. Hoje tornou-se comum" (2001, p.158/9)1.

Assim, desenha-se, por um lado, o fim do livro-representação, por outro, o livro como interruptor da escrita, como seu termo o que implica também o próprio desmoronamento da noção de obra que está ligada a uma certa fisicalidade e finitude da produção. É que, se para Derrida o digital desencarna o texto para promover uma escrita virtual, liberta de todos os constrangimentos de clausura e sucessividade, o livro continua a prevalecer, no entanto, como seu espectro. Arriscamos dizer que o livro, enquanto dispositivo de mediação, marca a escrita e o texto da sua finitude na medida em que ele organiza a sua forma, lhes dá forma: "O livro é ao mesmo tempo o dispositivo e o fim de prazo que nos obrigam a interromper o processo de computador, a pôr-lhe fim" (ibid, p.161). Assm, o livro no digital torna-se uma espécie de interruptor, condição de toda a forma, da "própria formação da forma".

Mas não só o livro; também a página continua, no écran, a ordenar a superfície de inscrição o que reforça a dimensão espectral do livro. Landow refere-se, numa entrevista aquando do re-lançamento de , a esta espécie de paradoxo que faz perdurar na escrita desencarnada o modelo do livro: "Um bom exemplo é o seguinte: foi desastroso ter-se escolhido um termo como 'homepage' que nos faz pensar em termos de informação baseada na tecnologia do papel quando tudo no hipertexto é essencilamente virtual. Persistir na ideia de que a WWW é simplesmente uma outra forma do livro quando ela não tem a força de um livro é também patético. Isto é o tipo de raciocínio que, espero, o meu livro possa ajudar a corrigir".

A questão, tal como ela deve ser colocada, quer isto dizer, em termos de sintoma, revém no entanto a Derrida. Não se trata tanto de ser ou não desastroso que o livro continue a exercer essa função de formatação por excelência do texto, trata-se antes de perceber como o livro se tornou na forma espectral do texto. "A figura do texto 'tratado' em computador é fantasmática na medida em que ela é menos corporal, mais 'espiritual', mais etérea. Dá-se uma espécie de desencarnação do texto. Mas a sua silhueta espectral persiste e, para além disso, para a maior parte dos intelectuais e escritores, o programa de computador conforma-se ainda com o modelo espectral do livro" (ibid, p.163/4).

Na verdade, podemos detectar em todo este processo coexistências anacrónicas do modelo tipográfico, fechado, sequencial, no modelo digital, aberto, ininterrupto, e vice-versa. É que os modos de apropriação da escrita não são unicamente definidos pelos dispositivos de mediação de que dependem, o que favorece a existência de produtos híbridos que, servindo-se muito embora dos novos dispositivos, têm como modelo (espectral) os seus predecessores. É o caso, por exemplo, da enciclopédia. Todo um debate poderia ser levado a cabo no sentido de indagar se o dispositivo numérico/digital vai ou não no sentido de uma nova totalidade do saber ou se, pelo contrário, essa disposição à totalidade não é hoje em dia destituída de sentido dada a heterogeneidade infinita dos agenciamentos possíveis o que torna desde logo inviável qualquer unificação e totalidade.

A manutenção da configuração livresca no texto digital é sintoma de que uma escrita da representação não se esgotou, e propaga-se a outra instância que é a figura de autor nos seus efeitos jurídicos, o copyright. Àcerca da aparente ameaça que o digital veio trazer relativamente aos direitos de autor, muito pertinazmente considera ainda Landow, a propósito da reedição do seu livro, ser necessário que aquele conhecimento que o autor acrescenta ao conhecimento público consiga ser "copirrentável". Isto porque, como é sabido, se os direitos de autor protegem o criador da obra, isto não quer dizer que a sua rentabilidade seja usufruida directamente pelo próprio. Assim, a cadeia editorial é desde logo complexa e nessa intermediação entre o público e o leitor não é seguro que uma relação circular de troca se estabeleça de uma forma transparente. 

Será então a rede a única responsável pela diluição do estatuto de autor? Diríamos que a mesma função espectral que cumpre o livro é também cumprida pela figura do autor. Se o desmoronamento do autor foi levado a cabo pela teoria literária a partir dos anos 60, a verdade é que a figura do autor envolve essa "ilusão biográfica" de que fala Lejeune2. O autor, sempre já ausente, fugidío, ideal, fantasmado, origem do sentido e sua regulação, é um outro nome próprio do texto, garante de uma formação discursiva.

A eclosão do numérico no campo editorial do livro impresso não vem necessariamente acabar com o autor, tal como ela não acaba com o livro. O que provoca, seguramente, é, como assinala Derrida, "um outro regime de conservação, de comemoração, de reprodução e de celebração" (ibid, p.165) da escrita, ou ainda "uma outra experiência da memória dita 'imediata' e da passagem da memória ao arquivo" (ibid, p.157). É esse xadrez das inter-mediações que se move numa multiplicidade ainda nebulosa de descentramentos, não permitindo ver com clareza as novas distribuições das funções autoral, editorial, textual, nem tão pouco como elas criarão esse limiar entre o inédito e o édito, entre o texto acabado e o texto em processo, entre a génese da escrita e a sua versão definitiva. O que se passa no regime digital é um efeito de instantaneidade ou de imediatez que retira à escrita todo um processo de maturação e de gestação, que lhe conferia todo um horizonte intervalar e rasurante, ou de enxertia, escrita à margem. A instantaneidade e a constante actualização do texto abole na escrita essa poética da rasura de que falaram, entre outros, Blanchot, e a que Derrida também alude quando afirma: "o texto fica instantaneamente objectivado e transmissível, pronto para publicação, ele é quase público e 'pronto a saír' desde o momento da sua inscrição".

Uma poética da rasura instalou-se como uma espécie de mais-valia de subjectividade na escrita, porque ligada à própria espontaneidade do sujeito, à qual já a máquina de escrever vem retirar alguma aura.

 É que, para todo o imaginário romântico, o gesto manual da escrita, esse movimento que liga as letras entre si, assim como aquele que, de um traço, as rasura, esse rasto de movimento é a própria alma da escrita. 

O digital vem como que apagar a rasura, anulá-la definitivamente de todo o suporte abolindo assim essa estética da rasura, tão ligada à escrita como processo e inacabamento. Para toda a crítica genética, as novas tecnologias de escrita, nomeadamente o digital, retiraram ao texto a sua dimensão arqueológica, abolindo a marca processual ou de produtividade e com ela todo o resíduo, o domínio do inacabado, sintoma do próprio processo de criação. Derrida assinala esta ruptura no processo de escrita manual: "Dantes, as rasuras e emendas deixavam uma espécie de cicatriz sobre o papel ou uma imagem visível na memória./.../ Trata-se de uma outra experiência da memória dita 'imediata' e da passagem da memória ao arquivo. Uma outra provocação para aquilo a que se chama a 'crítica genética' que se desenvolveu à volta de rascunhos, de versões múltiplas, de provas" (ibid, p.157).

A emergência do digital provocou uma alteração de paradigma na relação do sujeito com a técnica. Diferentemente da técnica mecânica, o digital vem impôr, em termos fantasmáticos, a estranheza da caixa negra, cujo interior nos é vedado. Estamos perante a aparição do Outro: "uma palavra já apropriada pelo outro ou vinda do outro, uma fala do inconsciente também. /.../ tratar-se-ia de um 'estranhamento', de um Outro-inconsciente maquínico que nos enviaria a nossa própria palavra de um outro lugar qualquer" (ibid, p.156).

Na verdade, a uma poética da rasura, neste novo paradigma, sucede aquilo que na escrita releva da extravasão - ao mesmo tempo uma saída para fora e uma estranheza - em ruptura com a dimensão de intimidade tão cara ao processo de escrita (Derrida, 2001, p.161). Parece ser este o mais rude golpe que o numérico vem infligir ao imaginário que envolve o processo de escrita. O digital esbate a origem, como esbate a rasura, como esbate os seus efeitos de ambivalência. Desaparecido o gesto inaugural, a escrita dá-se sempre já como última, actual.

É pois neste sentido, que se entende a oposição entre o virtual e o impresso. Enquanto inscrição, a escrita exige um suporte para o traço, seja ele manual ou mecânico, impresso: o papel e, nessa continuidade, o livro. A escrita como rasto é a escrita do original e da origem, onde se jogam noções como as de inédito, de rasura, de original e ainda de autor como outro nome de origem. 

Ora, a desmaterialização da escrita não se resume a uma simples mudança de suporte, mas torna-se o próprio questionamento da escrita enquanto gesto, rasto de um corpo.

Esta questão vem relançar a discussão quanto à natureza indicial dos dispositivos imagéticos, onde se integra a escrita enquanto traço. Dito de outro modo, do ponto de vista semiótico, as imagens impressivas, tais como o vídeo, a fotografia, o cinema, partilham com a escrita, não naturalmente o seu carácter icónico, mas antes, o seu carácter indicial, de marca ou rasto de um corpo deixado numa superfície inscritível, quer pela via da impressão de luz e seus efeitos nos corpos, quer pela via do gesto. Ora, a relação de contiguidade física que os índices instituem com os corpos de que são índices desaparece no digital. Essa contiguidade física aproxima, por exemplo, a fotografia da assinatura, dado que a ambas se aplica uma dimensão de testemunho - o ter-estado-lá - que o digital não comtempla. Daí que a tecnologia do digital não se integre nos dispositivos de inscriçao mas antes de transcrição ou tradução - 0/1. Quer isto dizer que o digital ou numérico exige também uma forma, imagética, textual ou sonora mas tal forma é sempre potencial, está na configuração última da linguagem digital a qual não é senão uma articulação complexa de 0s e de 1s, à qual subjaz um código.

Se o corpo resiste na escrita electrónica, será então de outros modos, havendo que rever a própria noção de corpo que ela refere. Já não um corpo físico mecânico, aquele é captado pela luz, aquele que deixa um rasto de passagem, mas um corpo que não é nunca um simples corpo, para usar o oxímoro de José Gil3. Um corpo de intensidades que é também um corpo de singularidades e que, inexoravelmente está como que amarrado ao insondável processo da escrita.



1
Papier Machine, Paris, Galilée, 2001

2 Moi Aussi, Paris, ed. Seuil, 1986, p.87

3 Movimento Total - o Corpo e a Dança, José Gil, Relógio d'Água, 2001.