Patrícia San Payo
As bases de dados e o hipertexto, quando postas ao serviço da literatura ou do estudo da literatura, têm suscitado de um modo generalizado um entusiasmo heurístico e um pessimismo hermenêutico. Compreendemos bem as imensas vantagens que a sua utilização proporciona ao historiador da literatura, na medida em que o hipertexto pode ser definido como "uma máquina de contextualização" de potencialidades virtualmente infinitas. Um banco de dados para o estudo do romance, SATOR, permite por exemplo identificar topoi narrativos em corpus tão vastos como os compreendidos pela designação "ficção narrativa redigida ou traduzida em francês da Idade Média à Revolução". Este tipo de procedimentos cria uma nova possibilidade de registo abrindo o que Genette chamou um arquitexto à facticidade de uma apresentação multidimensional. É tranquilizador saber que o estudante de Rabelais que utilize um cd-rom está a salvo de algumas ingenuidades filosóficas comuns e que não lerá "Grandgousier y prenoit plaisir" sem se aperceber de que a palavra "plaisir" significa aqui "prolongar indefinidamente o objecto do seu prazer" (no caso, o vinho e o jogo da malha) porque a edição electrónica do texto compreende ligações hipertextuais ao Thrésor de Nicot (1606): basta-lhe premir uma tecla e um efeito de janelas em cascata abre uma terceira dimensão na superfície bidimensional, vagamente líquida, onde a tinta-luz desenha os caracteres. E qualquer que seja a resposta que dermos à pergunta de Walter Benjamin sobre se os novos media alteram o nosso conhecimento do passado independentemente do modo como são utilizados ou dos fins para que são utilizados, não podemos não reconhecer que esses novos media nos desalojaram já de um tempo que foi o nosso.
Num livro recente, Jacques Derrida afirmou que, num certo sentido, somos todos, pelo menos virtualmente, "sans papier". E eu gostaria muito de poder afirmar que esse facto nos conduz ao que Maurice Blanchot, em le Livre à Venir (1959), afirmou ser um novo limiar do "poder e da glória" ("La Puissance et la Gloire"). Os ecos mallarmeanos desta "glória", no poema em prosa com esse título ("Un uniforme inattentif m'invitant vers quelque barrière, je remets sans dire mot, au lieu du suborneur métal, mon billet"), situam para mim aquele tempo - de que acabei de dizer que se tinha afastado vertiginosamente para um não-lugar qualquer - no dia seguinte do simbolismo francês e da sua mais imediata posterioridade.
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Mas é de Calvino, do ensaio intitulado "A Máquina Literatura" que gostaria de partir, recordando que "máquina" foi sinónimo de "invenção", do mesmo modo que "engenho" procede de "ingenium". De Man falou um dia de "texto-máquina" e Derrida de uma "máquina-performativa", interrogando a possibilidade de um acontecimento em que o pensamento e a máquina se articulem. Ao fazê-lo, parto de uma aporia (propriamente "monstruosa") porque distinguimos naturalmente performance técnica e performatividade (que é a exclusão, por princípio, da tecnicidade maquinal). Aporia monstruosa, sim, porque aproxima orgânico e inorgânico numa forma de prótese que suplementa o batimento cardíaco. |
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De um modo aproximado diria que trabalho, neste projecto (Enciclopédia e Hipertexto) no sentido de um texto-máquina. Queria no entanto precisar que todas as tentativas empreendidas pelos teóricos da informática de aproximar o hipertexto e a Desconstrução ("Hypertextual Derrida, poststructuralist Nelson"? pergunta retórica de George P. Landow em Hypertext 2.0 - The convergence of Contemporary Critical Theory and Technology) me parecem ignorar os aspectos mais interessantes e críticos da "Desconstrução", para além de terem sido contestados pelos que dela se reclamam.
Interessa-me assim menos procurar justificar ou negar esse cruzamento do que colocar de novo a interrogação de Benjamim, a propósito do computador e das técnicas de reprodução digital. Para tal começarei por interrogar o que possa ser uma dupla memória (Mneme, hypomnesis), entre o arquivo e o performativo; em seguida procurarei responder ao que me parecer ser o equívoco de teorizadores do hipertexto como Landow. Finalmente, na esteira de Hillis Miller (IIlustration, 1992), procurarei as consequências imediatas, para o estudo da literatura (nomeadamente nas Universidades), do recurso às novas tecnologias.