Enciclopédia e Hipertexto

A Máquina-Literatura

Patrícia San Payo

A teoria produzida sobre o hipertexto convoca de um modo insistente reflexões do âmbito da crítica ou da teoria da literatura da segunda metade do sec. XX. Num livro intitulado Hipertext 2.0 - The convergence of contemporary critical theory and technology, Georg P. Landow cita Barthes (o "texte scriptible" de S/Z seria coincidente com a definição de hipertexto que Ted Nelson descreve como  uma forma de escrita "não-linear") e Umberto Eco (a noção de "cooperação textual" avançada em Lector in fabula ressurgiria agora na figura de um "interactive reader"); Landow alarga o diagonóstico dessa convergência a Foucault (a noção de "epistema", a "função autor"), Deleuze (o "rizoma") e a Derrida, também pelo modo como em alguns dos seus livros e de acordo com as ideias nele explanadas, as páginas evocam as do texto multimedia (é o caso, por exemplo, de Glas ou de La Vérité en peinture). De acordo com Landow a proximidade da reflexão efectuada por estes autores e do hipertexto revela que os sistemas conceptuais fundamentados na ideia de centro, margem e linearidade devem ser abandonados e substituídos por outros  baseados na multilinearidade, em nós, links e redes. Na sua opinião convergência da literatura e da informática  dará  origem a uma nova ordem dos textos e, inversamente, tornará possível a "textualização" do computador ajudando a deslocar um entendimento estritamente maquínico deste. Observando que as novas possibilidades tecnológicas e concretamente o hipertexto configuram uma realidade nova, Landow observa ainda que as formas da sua utilização e difusão indicam claramente que à nossa época corresponde a um novo paradigma do pensamento. Para autores como Richard A. Lanham, os livros electrónicos contribuem decisivamente para a democratização dos saberes e para a  educação artística segundo uma lógica de causa-efeito análoga à que determinou a difusão do protestantismo associada à descoberta da imprensa (Lanham, 1989, pp.265-90). Penso, no entanto, que  a  mudança de paradigma a que se refere Landow  pode ser melhor compreendidada à luz do que   Mark Poster, por seu turno,  chamou modo de informação, ou seja, a partir do reconhecimento da dimensão linguística das novas formas de interacção social  electronicamente mediadas.

Theodor Nelson, inventor do hipertexto, refere-o à invenção da não-linearidade e  não-sequencialidade da escrita e define a literatura como um sistema de textos interligados (Nelson, 1977). Uma tal definição é suficientemente pacífica: se a concepção não é nova, a tecnologia concedeu-lhe um real dispositivo textual. Mas a noção de escrita não-sequêncial levanta problemas teóricos e filosóficos importantes que procurarei equacionar. A minha suposição é que a predominância do modo de informação electrónico  certamente nos obrigará a conceber a escrita e a leitura de outro modo. Mas que, inversamente, tornará inevitável o reconhecimento de que a escrita e a leitura apontam implicitamente para um funcionamento de qualquer texto análogo ao do funcionamento do hipertexto.

 Num  sentido muito comum desde sempre "aquilo a que chamamos texto" vive reconhecidamente de uma tensão entre o enquadramento e o que sai do quadro. Gérard Genette, por exemplo, aponta para a  inevitabilidade de se sair do texto sempre que passamos do texto ao género, do género ao modo e novamente do modo ao texto enquanto manifestação da transtextualidade, ou seja, apresenta uma  noção de texto que torna inútil ou supérflua a sua utilização. Nas páginas finais de Introduction à l' architexte, dirá que prefere abandonar essa noção em favor de uma forma de textualidade alargada, aquilo a que chama a transtextualidade. Com base no conceito de transtextualidade sugere que se possa conceber  uma nova disciplina cujo objecto  não seja já  o texto, mas o arquitexto. O modo de proceder dessa disciplina, de que espera uma reformulação da Poética,  equivaler-se-ia, segundo as suas próprias palavras, ao de uma "navegação" na "transcendência arquitextual".

A concepção de texto em que Genette manifestamente já não está interessado - aquela que encontramos descrita numa recolha tão significativa como Théorie d'ensemble, por exemplo -, oferecia então a vantagem de ser "funcional" no âmbito determinado pelas análises de texto no interior de uma poética estrutural. Por seu turno, a noção de textualidade alargada, ou transtextualidade, parece ir ao encontro da própria ideia de "rede" (Net) e, como tal, por um salto fácil de efectuar, ao encontro de um sistema de relações entre textos de natureza hipertextual. Mas a apropriação, por Landow,  de nomes como os de Derrida e Foucault para significar esse sistema nem sempre se processa sem que algumas das consequências da reflexão desses autores sejam banidas nessa apropriação: a dimensão ética e política da reflexão de Derrida sobre a escrita, por exemplo. Uma concepção da História em Foucault (e também em Blanchot ou em de Man) que se define mais a partir do seu registo verbal do que associada à temporalidade. Procurarei, por conseguinte, demonstrar  que a dispersão inscrita, desde sempre, em qualquer texto se deve a uma migração dos seus próprios traços constitutivos por um movimento que não é adequadamente descrito como uma "saída do texto" na passagem ao arquitexto, na acepção de Genette, porque  se liga mais imediatamente a uma dimensão da temporalidade implicada na escrita e na leitura.

Sem dúvida que o recurso às novas tecnologias e, particularmente, ao hipertexto e às bases de dados,  configura hoje uma realidade nova. Mas no que diz respeito às ciências humanas e mais particularmente ao estudo da literatura, estamos ainda longe de poder ver claramente  o alcance da revolução electrónica. Disso me parece significativo o modo como Roger Laufer sintetiza no artigo de abertura a posição dos diversos intervenientes no nº 26 da revista Littérature consagrado ao tema "informática e literatura", quando  observa que as possibilidades  postas actualmente à disposição dos investigadores têm suscitado, de modo generalizado, um entusiasmo heurístico e um pessimismo hermenêutico. Hillis Miller considera que as consequências imediatas da utilização das bases de dados e do hipertexto nas Universidades dos EUA  tem contribuído sobretudo para um progressivo incremento dos Estudos Culturais (Cf. Miller, 1992).  Estas duas observações, a de Laufer e a de Miller, parecem-me  responder a uma mesma verificação. A de que o tipo de informação e o modo de comunicação que correspondem às novas tecnologias se adapta mais imediatamente a um estudo da literatura com base em elementos contextuais ou temáticos. Um banco de dados para o estudo do romance, SATOR, permite, por exemplo, identificar topoi narrativos em corpus tão vastos como os compreendidos pela designação "ficção narrativa redigida ou traduzida em francês da Idade Média à Revolução"; O hipertexto, enquanto máquina  de contextualização, abre o que Gérard Genette chamou um arquitexto à facticidade de uma apresentação multidimensional. Mas continua por responder a pergunta formulada por  Hillis Miller sobre se com as novas tecnologias e os actuais projectos que utilizam o computador para o estudo e a investigação nas Humanidades iremos ler Shakespeare ou Rabelais de um outro modo.

 A situação de que Hillis Miller faz o diagonóstico em Illustration é suficientemente reveladora de um paradoxo que subjaz à tentativa de teóricos como Theodor Nelson ou Georg P. Landow que comecei por apontar em primeiro lugar. Observando que o hipertexto favorece um entendimento da literatura como o que é  preconizado pelos Estudos Culturais,  Miller marca igualmente a dificuldade de relação da chamada Teoria com a realidade tecnológica por aqueles autores configurada. A preocupação dos Estudos culturais é em primeiro lugar com a cultura: o crítico cultural atravessa a obra com uma espécie de sentido de urgência, uma vez que lhe interessa sobretudo reconhecer nos seus traços contitutivos um  ar de família para com a cultura de onde provém. Embora reconhecendo as diferenças genéricas de cada cultura, a obra surge sempre como o caso particular que interessa atravessar rapidamente  para chegar a definir aquela. A Teoria, por sua vez, rege-se por um entendimento da linguagem que não exclui, antes afirma nas obras, a  dimensão do único e do incálculável, razão pela qual põe a ênfase na leitura. Para  Hillis Miller  o facto  de o estudo da literatura dever ter sempre em consideração uma dimensão do único na obra literária pode explicar, em parte, as razões pelas quais o hipertexto não parece  - pelo menos de imediato - susceptível de ajudar a ler no sentido da Teoria. Mas este autor sugere também que enquanto o hipertexto não for capaz de contribuir de forma efectiva para ajudar a ler nesse sentido permanecerá cativo de formas de pensar que em nada contribuem para revolucionar o mundo em que vivemos, porque a imensa capacidade tecnológica de que dispomos permanecerá subordinada às configurações ideológicas que supostamente deveria ultrapassar. Na sua perspectiva apenas uma leitura que represente um esforço contra um sentido transparente, capaz de lidar com uma dimensão material dos signos ("with what might be called the material dimensions of signs"),pode promover a mudança nos planos social e institucional.

O meu trabalho decorre da verificação desta situação paradoxal. Se a  tese da convergência que Landow defende no seu livro me parece insuficientemente comprovada isso deve-se, em meu entender, a um entusiasmo pelo contextual, o temático, que o hipertexto promove e que Landow e outros confundem com a leitura. A leitura a que me refiro é aquela que Miller define como um esforço contra o sentido transparente, um esforço no sentido de lidar directamente com a dimensão material dos signos. Gostaria por agora de reter esta palavra "material", porque irá ocorrer com frequência no meu próprio texto. Uma dimensão material dos signos é apontada por autores como Blanchot,  Foucault,  de Man, a que me referirei. Neste último, essa materialidade  é indissociável de um modo de funcionamento dos textos análogo ao modo de funcionamento de uma máquina; O meu próprio texto procurará estar atento a esse funcionamento do texto enquanto máquina a que Italo Calvino também se refere, num ensaio intitulado "Cibernética e fantasmas".  Gostaria ainda de encadear estas considerações com a  citação que fiz de Hillis Miller a propósito do hipertexto e da leitura, porque ela  justifica  a chamada  a Derrida e a de Man. Hillis Miller refere o duplo papel que cabe à leitura numa acepção que é comum a estes dois autores,  embora em Derrida seja mais premente a questão do "único" e em de Man o entendimento da literatura como "ferramenta" para a compreensão de formas ideológicas de distorção. Assim, entre um autor e outro, o que se dá a pensar é sobretudo o modo como a máquina e o acontecimento se cruzam. Gostaria de reconduzir estas questões ao hipertexto e pensar hoje a relação da escrita e da leitura  a propósito da  máquina literatura. A minha intenção é contribuir para que cheguemos a  atravessar a dimensão electrónica dos textos, por entre as novas formas de comunicação de que apenas começamos a ter a intuição, a fim de descobrir onde se abriga, bate desde sempre, a máquina performativa. 

Para Maurice Blanchot aquilo a que chamamos livro parece justificar uma antiga tradição ocidental pela qual o olhar identifica o entendimento com a repetição de um vai-vem linear. O que, a seu ver, é uma ilusão, porque esse vai-vem linear da escrita é apenas aparente. Inversamente, essa disposição só se mantém pela suposição de facilidade de compreensão analítica que se lhe atribui. No entanto, o pensamento, associado à escrita numa acepção em que ela é simultaneamente manifestação e não-manifestação, não se deixa conter nem enquadrar no objecto livro, assim como não se exerce de acordo com a ideia de linearidade e sequencialidade que ele supostamente promove: o pensamento é sempre fragmentário e, como tal, põe em causa a própria ideia de totalidade para que o livro (o codex) parece remeter. Claramente o livro de  que fala no capítulo de L'Entretien infini intitulado "L'absence de livre" não é um objecto (não designa, por conseguinte,  a realidade do livro impresso nem a do livro eléctrónico). Mais do que um objecto ou um suporte o livro é uma lei que hierarquiza, ordena e estrutura o pensamento. Blanchot define-o, justamente, como o que preside a qualquer sistema de classificação ou ordenação que veicule a transmissão de uma memória por intermédio de um traçar a que a leitura confere um sentido. À concepção do livro fundamentada na noção de totalidade, opõe um  movimento disruptor que ameaça essa totalidade, aquilo a que chama "o movimento incessante da escrita". É para esse mesmo movimento que Derrida aponta  em "Hors livre", texto no qual  lê o prefácio de Hegel à Fenomenologia como sintomático de uma  concepção ontoteológica do livro - e do conhecimento - como totalidade. Mas, para Derrida,  qualquer prefácio é  denegação de um resto inassimilável à totalidade. Por conseguinte, o prefácio de Hegel,  propedêutico ao conhecimento totalizante, é por aquele autor encarado como  porta de entrada (e de saída) para uma outra realidade do livro,  entendido desta vez como um organismo que se autoengendra (Derrida, 1972).

A ideia de um livro total, de uma súmula do conhecimento,  norteou desde sempre  o projecto enciclopédico, da Antiguidade Clássica (com Vitruvius, Séneca ou Possidónio), através da Idade Média até Hegel. Decorre do mesmo  modelo bíblico a ideia de um livro da natureza que também atravessa a literatura. Proveniente  da Antiguidade greco-latina esse sonho  prolonga-se por toda a Idade Média e ressurge com o primeiro Romantismo, nomeadamente com Novalis, para quem o livro é "a natureza inscrita numa pauta". Também para Mallarmé a literatura coincide com a ideia de um livro impossível, porque absoluto. Apesar das respectivas  concepções de livro e de natureza parecerem nestes dois autores tocar-se, na verdade, observa Derrida,  as observações de Novalis surgem em Mallarmé deslocadas. Pode-se sem dúvida observar que o Livro de Mallarmé descende igualmente do Livro por excelência, ou seja, da Bíblia, porque essa filiação está inscrita nele; mas é igualmente  importante observar o modo como, por um movimento de subtração à totalidade, ele esconjura essa filiação.

Derrida observa que o modo como Mallarmé pensa a natureza e o livro é paradoxal. São conhecidas as palavras com que descreve o pensamento cativo de uma "fórmula absoluta", ou seja, impossibilitado de se exercer  no exterior  da totalidade para que essa fórmula remete: "Nous savons, captifs d'une formule absolue que, certes, n'est ce qui est. La Nature a lieu, on n'y ajoutera pas". Se nos ativermos à aparente lógica desta afirmação, devemos concluir que, para Mallarmé, nada se pode acrescentar à natureza, nem sequer uma sua imagem (representação) ou um  seu duplo mimético que não recaia no mesmo  livro para onde tudo quanto existe deve confluir porque,  como também disse um dia, tudo existe para terminar num livro. E, no entanto, segundo uma outra célebre fórmula, desta vez uma fórmula não já de Hegel mas do próprio Mallarmé,  a literatura existe por si mesma,  "seule, à  l'exception de tout". Se o pensamento não pode colocar a existência de duas "totalidades" - porque a própria noção de totalidade exclui essa possibilidade - segue-se logicamente que, para Mallarmé, a literatura coincide ponto por ponto com esse  nada a acrescentar à "fórmula absoluta", ao que "é", à "natureza", um nada a mais ou a menos em face da totalidade,  análogo à "gota de nada que falta ao mar" de que nos fala Igitur. Ou seja, para Mallarmé,  a literatura sai do livro, tanto quanto faz vacilar a omnipotência do "saber absoluto" de Hegel.

Independentemente de se poder objectar que a literatura é, nesta leitura, encarada de um modo disciplinarmente interessado, uma vez que nela o exemplo mallarmeano é dado numa argumentação pela qual se procura desvincular os conceitos de sentido e de ser da acepção ontoteológica da filosofia clássica,  no momento em que Derrida situa a literatura num "para além da totalidade", refere-a à lei paradoxal da disseminação, o que não me parece sem consequências para o conhecimento da literatura. Citando Mallarmé, Derrida dirá ainda que  segundo uma "mise en scène théatrale" a escrita  imprime em qualquer  totalidade, do próprio interior dessa totalidade, um movimento ficcional que abre, desarticula e por isso mesmo excede, essa mesma totalidade na qual se inscreve.

Blanchot, por sua vez, oporá os emparelhamentos Livro-Hegel e Obra-Mallarmé, para referir algo de semelhante ou seja, o modo como a escrita desconstrói a noção de totalidade à qual se parece conformar e à qual à qual os limites físicos do  livro parecem  corresponder.

Assim, "aquilo a que chamamos texto" adquire, em Blanchot e Derrida, um sentido preciso, indissociável do movimento da escrita. Um texto, para Blanchot, não é nada que possa ser compreendido do ponto de vista da fenomenologia: ele não é um objecto mas um porvir, uma forma atravessada pela exterioridade e como tal uma realidade que, tal como a do livro, constantemente se autoengendra. Pela  temporalidade própria que o atravessa, um texto esconde sempre as leis da sua composição e a regra do seu jogo que não podem ser  ser apreendidas no presente de uma percepção. Derrida, que partilha esta concepção,  precisa que as regras desse jogo nada possuem de "secreto"  nem escondem um segredo. Se um texto é sempre "dissimulação da textura" é também, enquanto porvir,  "autoregeneração dos tecidos" a cada decisão de leitura (Derrida, 1972, p.2).

É a propósito de Mallarmé que Blanchot procurará esclarecer a sua própria noção de temporalidade associada às leis internas do texto que nos levam a considerar os jogos de aparição/desaparição das palavras em função do valor que adquirem no modo específico da sua interrelação. Num poema como "Un coup de dés", esse valor não pode ser determinado apenas pela consideração dos efeitos de espacialização, do aproveitamento, por Mallarmé, dos recursos da página e dos caracteres tipográficos, porque é indissociável da uma situação temporal que o poema cria de acordo com as  próprias leis internas da sua construção e  que Blanchot refere ao próprio "desdobrar-se da linguagem" ("le langage comme déploiement"). Sobre "Un coup de dés" lemos em Le Livre à venir:

"Partition ou tableau qu'il faut lire et poème qu'il faut voir et, grâce à cette alternance oscilante, cherchant à enrichir la lecture analytique par la vision globale et simultanée, à enrichir aussi la vision statique par le dynamisme du jeu des mouvements, enfin cherchant à se placer au point d'intersection où entendre, c'est voir et lire, mais ce plaçant aussi au point où, la jonction n'étant pas faite, le poème occupe seulement le vide central qui figure l'avenir d'exception"  (Blanchot, 1959, p.328)

A sua ideia de "espaço literário" responde à específica temporalidade que o poema de Mallarmé ajuda a pensar, porque suspende os modos da nossa compreensão, dispersando-os entre o visível e o legível. "Un coup de dés" é simultaneamente "partição ou quadro que deve ser lido" e "poema que deve ser visto" e, como tal, designa um ponto de intersecção no qual compreender é ver e ler. Mas porque o entendimento simultâneo do que releva de dois sistemas diferenciados é impossível,  o leitor vê-se  remetido para um ponto em que essa possibilidade é colocada em latência em função de "um vazio central"  percorrido por intensidades e forças que provêem do de-fora  ( o de-fora: 'dehors') e em função das quais é possível pensar a  articulação do que Blanchot concebe, desde logo, como modos de exterioridade - falar e ver. Também Foucault supõe que  a possibilidade de articulação do que designa por  "visível" e "enunciável" só se pode conceber do exterior de um texto (ou de um quadro) e sempre  em função de um jogo de forças subterrâneo  que desloca o sentido do que é dito ou mostrado. Penso que quando de Man se refere a uma suspensão dos aspectos cognitivos e fenomenais da leitura vai na mesma direcção, porque a leitura retórica aponta sempre nos  textos o modo como eles divergem dos valores (valores estéticos ou valores de verdade) que a partir deles colocamos. No caso de de Man a  "materialidade" dos  textos coincide com o que neles  resiste  ao que concebe como as "ilusões estéticas" ou "as ilusões formalistas" da  filosofia da arte e da teoria da literatura e surge sobretudo vinculado à sua própria teoria da história, teoria essa que começava a tomar forma  nos seus últimos textos.

Para Blanchot, "un coup de dés" suspende a leitura, impossibilitada pela alternância do visível e do legível. Pelo modo como a "alternância quase simultânea" da "leitura como visão e da visão como transparência legível" decorre do próprio movimento pelo qual a linguagem se "desdobra", é possível afirmar que "un coup de dés" apenas aponta, com um grau de consciência maior, para um modo de funcionamento da linguagem em sentido lato. E, no entanto, como observa Blanchot, pudemos assimilar, até certo ponto, a obra de Mallarmé, mas não "Un coup de dés"; Blanchot insiste na impenetrabilidade desse poema à leitura, precisamente porque ele contraria os mecanismos que, por hábito, accionamos ao ler, num sentido trivial. "Un coup de dés " é ilegível, mas convém interrogar esta afirmação, uma vez que, para este autor, a única leitura que não é redutora é aquela que lê no sentido da ilegibilidade

Blanchot distingue vários "tipos" de  leitura. A primeira, que podemos designar por leitura canónica, lê os textos com o objectivo de os fixar no conjunto dos valores da cultura. Há depois um outro tipo de leitura que consiste mais precisamente em não-ler, porque já está tudo lido à partida, ou seja,  tudo foi já percorrido com a mesma curiosidade que apenas aflora o que de imediato se dispersa e converte em opinião, assim  impedindo  que o novo seja reconhecido enquanto tal. Pela primeira leitura a que me referi, a obra é conduzida ao lugar que lhe compete  no conjunto das obras do passado. Pela segunda, é levada a participar dos valores do presente. A terceira leitura que Blanchot aponta é uma leitura concebida como um esforço dispendido no sentido de se ler contra as outras duas a que me referi primeiro. Ou seja, contra a leitura que fixa o valor da obra e a converte em cultura e conhecimento e contra a  outra forma de leitura que, nisso próxima das estratégias contemporâneas do consumo, converte em banalidade, lugar-comum ou em qualquer outra forma de já-dito o que na obra é estranheza e negação dos valores, condição sem a qual lhe está vedada a possibilidade de afirmar o novo que com aqueles não se pode harmonizar. Esta terceira  leitura implica a suspensão do juízo e da crença e afirma a existência da obra como algo independente  do valor  estético e do valor de verdade. Devemos ter em consideração a advertência de Blanchot quando nos diz que a leitura, nesta acepção - uma acepção  pela qual ela é impossível e necessária -, não pode ser confundida com uma tarefa que caiba a um leitor, porque designa um dos momentos da afirmação da obra e participa do movimento da escrita que a percorre, como se de uma força autónoma se tratasse.

Escrever (ou ler) no sentido do de-fora, não  designa qualquer forma de actividade que possa ser efectuada por um sujeito. Num sentido demasiado complicado para ser aqui mais do que meramente assinalado, o autor e o leitor são na obra desapossados do estatuto de sujeito e passam a definir-se em função dos lugares que ocupam no interior da própria linguagem de que pensaram  poder dispor, domesticar, mas que possui relativamente a eles uma prioridade ontológica absoluta. Num sentido que convém não descurar, pelas suas implicações, para Blanchot a obra está mais próxima da linguagem quotidiana, descrita como a linguagem de todos, atravessada pelo  equívoco permanente, do que de uma linguagem da autenticidade. É porque  obra e  linguagem possuem em comum uma espécie de rumorejar incessante que, atravessando o deserto que  essa repetição continuada promove, a primeira acena no sentido de uma comunicação antes da comunicação semelhante à que Mark Poster descreve no seu livro quando se refere  às novas formas de interacção linguísticas sem agentes implicados, tais como as que encontramos  nas actuais formas  de comunicação electronicamente mediada (Poster, 1990). Essa comunicação antes da comunicação era já associada por Giorgio Agamben à publicidade enquanto forma atravessada pela exterioridade (Agamben, 1989).

Gostaria de insistir nesta dimensão da obra  que Blanchot refere a uma "prolixidade repetitiva" ("ressassement": o "rumor" da linguagem), porque  está implicada em todos os momentos da sua constituição e nela consiste a "componente material" dos textos. É com base nessa "dimensão material dos signos" (para usar expressão de Hillis Miller que citei anteriormente) que a leitura, atravessando a própria  impossibilidade, se pode exercer. Interessaria ainda, para a clarificação deste ponto, interrogar de mais perto alguns momentos da obra crítica e ensaística de Blanchot nos quais nos diz  que o comentário  atravessa a  impossibilidade da leitura - ou seja, lê no sentido da ilegibilidade - quando aponta num texto o que nele é a particularidade de uma incongruência ou  de uma dissonância, afastando-se assim da "originalidade" ou da propriedade de um texto dado, asseguradas pelo nome do autor. Uma outra observação de Blanchot, devidamente sublinhada por de Man (De Man, 1971), refere que o leitor não acrescenta nada à obra, nada que já lá não esteja, ou seja,  que ler consiste num desdobrar da linguagem onde um texto  engendra já a sua metalinguagem. Isto significa, no que a Blanchot diz respeito, que a relação com os textos se  determina menos pela compreensão (ou pela atribuição de sentido), do que por uma prática que implica as operações linguísticas envolvidas na escrita: citar, reescrever, traduzir, etc. Esta relação com os textos que nada acrescenta aos textos também não é do tipo da paráfrase, porque a paráfrase esbarra necessariamente na natureza essencialmente aporética daqueles, essa mesma que Blanchot põe em relevo quando sugere que a leitura deve apontar para os momentos em que os textos entram em "crise" e desmentem as suas próprias construções aparentemente mais sólidas. Esse é o  momento em que os argumentos explanados se enredam uns nos outros e em que todo o sentido aponta para um outro sentido incompatível; para Blanchot, escrever e ler é permanecer, tanto quanto possível, no ponto impossível dessa irresolução de contrários, no vazio central que identificava no poema de Mallarmé em que uma dupla injunção contraditória se produz. A identificação desse momento em que se dá o que também designa por "désoeuvrement" é o papel que atribui à crítica e que  não corresponde a uma estratégia negativa ou destruidora, pelo contrário,  na medida em que, situando-se a esse nível, o leitor participa de uma das fases da constituição da obra associando-se ao movimento da escrita que, ao invés de paralisar, relança.  Embora o vocabulário de de Man pouco tenha a ver com o de Blanchot, assinalo aqui o que me parece ser uma afinidade mais importante: a ideia de que a obra é, num certo sentido,  autónoma, ou seja, que é sempre mais do que a soma das leituras que dela fizermos. Penso que a ideia é melhor formulada por de Man quando define a leitura como um processo interminável de evitar que o que não corresponde à exclusiva literariedade, ou seja, à "componente autónoma dos textos", se insinue entre o intérprete e o texto de modo a ocultar um  modo funcionamento deste que descreve a partir de uma analogia com o funcionamento de uma máquina. Por outras palavras, o que Blanchot concebe como o "a-venir" da obra parece-me contido na definição demaniana de texto de que me ocuparei agora um pouco.

De Man concebe o  texto  como um lugar de pares antagónicos, no qual se projecta  uma espécie de incompatibilidade estrutural entre sistema gramatical e tropos. A condição da existência de um texto enquanto tal é a gramática  que  opera antes  de qualquer princípio de aplicabilidade ou de interpretabilidade. As regras da gramática, geradoras do texto, funcionam de um modo que de Man descreve como mecânico ( porque uma gramática é um sistema inteiramente arbitrário e inteiramente repetível ad infinitum).  Mas um texto não é apenas gramática  (associada ao nível generativo, não-referêncial). À gramática  sobrepõe de Man  uma dimensão figural que a subverte, razão pela qual em qualquer texto uma  irredutível estranheza se insinua entre a generalidade do seu modo de funcionamento e as particularidades do sentido ("The divergence between grammar and referential meaning is what we call the figural dimension of language" (De Man, 1979, p.270)) É pelo facto de um texto não poder ser interpretado apenas em função da gramaticalidade (o que se torna claro se pensarmos que podemos fazer mais do que uma leitura gramaticalmente correcta de um único texto), que a tensão latente entre gramática e retórica se precipita no problema da leitura.

A um outro nível, tomando de empréstimo o vocabulário proveniente da teoria dos "speech acts", da qual se afasta em pontos cruciais, de Man definirá o texto como o impossível ponto de convergência das funções performativas e constativas da linguagem, uma vez que, como observou Rudolph Gasché "the performative is associated with the generating grammar, with the text as a machine, whereas the constative is linked to the referencial level of the text." (Gasché, 1998, pp.44-45)

De um modo resumido pode-se dizer que, antes do sentido, antes da inteligibilidade,  antes do valor, o texto é algo que também Gasché descreve como um "mecanismo" que  desarticula continuamente o que não pode mais ser pensado nos  termos de uma identidade, mas como um campo agonístico de princípios em constante processo de constituição (máquina generativa) e desfiguração (tropos).

Em Resistência à teoria, de Man observa que das suas duas companheiras no  Trivium, a retórica e a lógica, a  gramática foi sempre compreendida em associação com esta última, e, como tal, entendida como  capaz de generalização extralinguística. Deste modo  a continuidade da leitura e da fenomenalidade parece inevitável, o que explica que, por extensão, os modos de ler tenham passado a depender da  intuição (a percepção, a consciência, a experiência, etc)  que conduz imediatamente ao mundo da lógica e da compreensão com todos os seus correlativos, de entre os quais a estética ocupa um lugar de relevo. Ao invés de postular uma relação privilegiada da lógica e da gramática, de Man sugere que a relação que interessa interrogar - porque sempre ficou por explicitar - é a desta última com a retórica. Ao contrário da gramática, os tropos pertencem primordialmente à linguagem. De Man define-os como funções produtoras de texto, não necessariamente modeladas de acordo com uma entidade não-verbal. A suposição com base na qual funda a sua proposta de leitura retórica, é  a de que é possível " uma ciência da linguagem"  que não  seja necessariamente uma lógica, precisamente aquilo a que chama Teoria, que ocorre nos Estudos Literários com a introdução de uma terminologia linguística na metalinguagem acerca da literatura: essa terminologia, observa, "designa a referência antes de designar o referente  e tem em conta, na consideração do mundo, a função referêncial da linguagem" ou seja "considera a referência como uma função da linguagem e não necessariamente uma intuição". (de Man, 1989,  p.21)

A leitura retórica que preconiza distingue-se dos outros modos de ler na medida em que por atender  à dimensão exclusivamente linguística, não-fenomenal, não é ideológica, no sentido em que a ideologia consiste na "confusão linguística com a realidade natural, da referência com o fenomenalismo" (idem, ibidem, p.32). O seu cepticismo leva-o ainda mais longe, à suposição de que essa leitura é anticognitiva, porque, conforme observa, não é certo que  "função referêncial da linguagem" possa servir de "modelo para a cognição natural ou fenomenal". (idem, ibidem, p.31)

São  conhecidas as reacções que tais afirmações produziram. Não as vou comentar aqui. O meu comentário vai no sentido do esclarecimento desse funcionamento como máquina dos textos que conduz de Man a uma concepção de  "materialidade" que desenvolve sobretudo nas suas leituras de Kant, mas também de Kleist. Gostaria, no entanto, de observar que se a leitura, para De Man, é uma narrativa alegórica que conta a história da impossibilidade de ler, nada impede que uma tal alegoria seja compreendida como uma forma de conhecimento (ainda que negativo): o conhecimento do modo como os textos desfazem continuamente os seus próprios conceitos e as  suas próprias metáforas.

Uma leitura de de Man neste sentido foi feita por Rudolphe Gasché, que observa que a leitura retórica, no momento em que identifica na linguagem e nos seus usos um modo de funcionamento que cria obstáculos à inteligibilidade, mais do que paralisar o processo cognitivo, visa desconstruir nos textos um "mecanismo" de totalização erguido com base em instâncias totalizadoras  que são já, elas próprias, figuras (o conceito, o Eu, o juízo, a identidade, as imagens especulares, a organicidade, etc). Gasché observa ainda que ao processo de desconstrução da totalidade que a leitura retórica efectua a vários níveis, uma vez que  é necessário recomeçar  sempre que o momento cognitivo se sobrepõe, na leitura, ao  linguístico (ao estrito conhecimento do mecanismo que rege as estruturas sintácticas e retóricas), persegue, afinal, o único objectivo de evitar que o texto seja compreendido como uma identidade (self), ou seja, uma totalização. A este processo de desconstrução da totalidade responde, por conseguinte,o processo de autoreflexividade (self-reflection) característico do texto literário,  que implica que este  se torne o único referente de si mesmo, o próprio objecto da sua reflexão ("the very object of its own reflection"). Para Gasché, contudo,  a leitura retórica é, ainda assim, um conhecimento, um conhecimento, como diz, da "mecânica do próprio conhecimento".

Embora correndo o risco de abrir aqui um parêntesis demasiado longo, referir-me-ei, em três pontos, ao interesse de uma tal concepção :

Em primeiro lugar uma leitura retórica (o conhecimento do mecanismo que rege as estruturas sintácticas e retóricas do texto-máquina) funciona, como observou Gasché, como um "wild card of reading", ou seja, um "joker" no jogo das disciplinas que subverte a seriedade com que encaram as suas próprias contribuições no plano ético ou cognitivo: "What  this wild card subverts is nothing less than the seriousness  of the game of disciplines, that is to say, their cognitive, ethical, or theological import. Whoever reads plays the master trump, wins them all. No truth claim holds up such a card. To play the wild card of reading remains irrefutable". (Gasché, 1998, p.8) Uma vez mais não vou discutir as implicações aparentemente devastadoras para qualquer das áreas do saber implicadas nesse jogo a que se refere Gasché e em primeiro lugar para própria validade ou interesse de uma tal concepção. Como observa Gasché, a lógica a que obedece uma tal tentativa é colocada ao serviço de um "singular absoluto" o que, à partida, parece colocar em risco todo o esforço teórico. As leituras de De Man, contudo, por mais idiosincráticas que sejam não são, no entanto, ininteligíveis e podem ser, por sua vez, desconstruídas. Se atenuarmos neste edifício teórico as suas consequências mais radicais que, em última análise, parecem pôr em causa a própria possibilidade do conhecimento na medida em que   apontam para o seu carácter sempre ilusório,  podemos usar, na proximidade deste,  uma carta alternativa. É o que faz Derrida, por exemplo.

Em segundo lugar, o  facto de se interrogar a certeza não significa que se lhe substitua a incerteza, assim como não se pretende denunciar como falso o que se estabeleceu como  verdadeiro. A lógica de Man não se deixa esclarecer por oposições do tipo  necessário/arbitrário, falso/verdadeiro, porque visa justamente questionar a pertinência de se pensar com base nessas oposições. O que coloca em primeiro lugar são os fundamentos que nos permitem pensar os textos para além de critérios de verdade e falsidade.

Por último direi que quando de Man afirma que a literatura (ou a "linguística da literariedade") nos fornece os modos da compreensão (ainda que negativa) da  fiabilidade das proposições linguísticas  e a define como "uma ferramenta"  para a desmistificação das "aberrações ideológicas", isso significa, em primeiro lugar,  que parte da sua obra pode ser lida como uma tentativa de identificar no estético as imagens de uma falsa harmonia. Barbara Johnson afirma, por exemplo, que ao que Walter Benjamin disse  sobre a  esteticização da política nos sistemas  totalitários responde em eco um ensaio de De Man sobre o texto de Kleist, Über das Marionettentheater.Neste ensaio, De Man justapõe o "estado estético", a que Schiller se refere metaforicamente como uma "dança inglesa bem executada",  a esse texto de Kleist, no qual, por sua vez, a graciosidade da dança se obtém pela substituição do humano pelo mecânico (uma marioneta ou uma prótese). De Man mostra que a leitura que Schiller faz do estético em  Kant, por via também de apropriações subsequentes, termina na ideia de um "estado estético" cujo ideal só pode ser atingido com recurso à  mutilação e ao mecânico; penso que de Man sugere também que o texto de Kleist  pode ser lido como um diálogo filosófico que encena, ao mesmo tempo que executa, uma  demonstração do modo como facilmente passamos do linguístico para o estético, para o ético, para o político. A compreensão do modo como essa passagem se dá pode ajudar a compreender o modo como os nossos próprios valores morais são potencialmente diferentes dos textos onde os julgamos reconhecer.  Ao mostrar o modo como a ambiguidade e a contradição se instala até nos mais belos textos de que há memória, de Man afirma igualmente a necessidade de sabermos ler,  para além do estético,  o  modo como eles  divergem sempre de si  próprios e das nossas próprias convicções (Johnson, 1992).

Como afirmei anteriormente o conceito de texto, para de Man, apesar de algumas particularidades especialmente idiossincráticas da sua "definição", parece-me ir ao encontro de uma característica que Blanchot atribui ao que chama "obra": a obra, para Blanchot, participa de uma temporalidade que a projecta sempre no futuro e nesse sentido escapa aos modos da nossa compreensão,  excede a questão dos valores e desloca-se  relativamente à questão da verdade tal como surge, por exemplo, na concepção heidegeriana da linguagem. Para Blanchot, a literatura não opera uma conversão da linguagem quotidiana - da  linguagem de todos  que não é, por conseguinte, verdadeira nem falsa em nenhum sentido especial - numa linguagem da autenticidade, da verdade ou da legitimidade. Nela se vai depositar um sentido contingente indissociado do "rumor" da linguagem que a percorre; mas, ao mesmo tempo, pelo que na linguagem é repetição e diferença,  indissociável desse "rumor", ela excede sempre esse e qualquer outrro sentido e aponta sempre  para outros, futuros.

De Man, por sua vez, refere-se a uma actualidade dos textos na leitura  que  não dissocia da escrita, logo, da inscrição e deslocação do único (ou seja, do acontecimento passado, irreversível) no interior de um sistema inteiramente arbitrário e repetível, como uma gramática ("a system that is both entirely arbitrary and entirely repeatable, like a grammar"). O que significa duas coisas. Em primeiro lugar que é  o funcionamento do texto-máquina que permite e desfaz as interpretações. Em segundo lugar, que o modo como a leitura tropeça nos modos de disrupção inerentes a esse funcionamento, aponta para a particularidade de um sentido constantemente reversível  porque  indissociado dos modos históricos e ideológicos  de que dispomos para o estabelecer. Numa outra acepção que não vou desenvolver aqui, esta específica temporalidade dos textos interfere com o tempo histórico, na medida em que introduz nele um princípio de descontinuidade pelo qual o passado retorna no futuro.

Entre Blanchot e de Man e, de outro modo, com Foucault, temos de considerar, portanto, aquilo que todos designam como a "materialidade" dos signos (a "materialidade sem matéria" que Derrida refere em de Man, o "materialismo incorpóreo" dos enunciados, como diz Foucault, citando Artaud, o "acontecimento" material em Blanchot). É com base nessa mesma materialidade  dos signos que Hillis Miller pensa que podemos ler num sentido que não é em primeiro lugar determinado por preocupações de ordem contextual ou temática. É a  essa " matéria" que todos estes autores, apesar de tudo o que os distingue, referem o que em qualquer texto é - antes de qualquer outra coisa - determinado pela linguagem como campo de todos os possíveis; apontam assim para uma dimensão dos textos prévia às configurações do saber que nos permitem ler deste ou daquele modo.

Regresso, para finalizar, ao início do meu próprio texto e a um ensaio de Italo Calvino "cibernética e fantasmas" (Calvino, 1984),  evocando igualmente  os nomes de Queneau, Perec e, de um modo geral, de todos os membros da Oulipo que, contra a teoria romântica da inspiração e do génio, procuraram usar o computador para fazer literatura. O interesse deste texto de Calvino deve-se ao modo como procura demonstrar que a convergência da literatura e do computador povoa a realidade da cibernética com uma quantidade considerável de fantasmas. Tal como sucede na peça de Shakespeare, Hamlet,  na qual o nível de realidade implicado na construção "realista" de Elsinore  não exclui a aparição do espectro e a irrupção, no mesmo texto, de um nível de realidade concorrente (o que permite igualmente pensar o modo pelo qual o espírito  medieval e as suas concepções que combinavam a superstição e uma moral do sangue e da honra se precipita no renascimento tardio) assim também a "máquina-literatura" parece particularmente propícia à aparição de fantasmas na idade electrónica.

Para Calvino, que situa a sua concepção na sequência de uma linhagem que, de Propp a Greimas, reconhece na narrativa estruturas fixas em número finito, susceptíveis de se combinar de uma maneira infinita, a literatura enquanto combinatória infinita de  um conjunto finito de elementos e funções está inteiramente  implícita na linguagem. Em face da linguagem o autor é uma máquina de escrever e é compreensível que possa vir a ser, sem dano, substituído pelo  computador. Nesse momento, observa então, o que se tornará decisivo para a literatura, será o momento da leitura.  No meio de um processo incalculável de substituições linguísticas, em qualquer combinatória,  no computador como outrora no discurso do narrador das antigas sociedades de antes da escrita, subitamente explode um conhecimento claro/obscuro, próprio do mito. Pela leitura, todos os fantasmas - do indivíduo, da sociedade - virão povoar a nossa idade cibernética.

Ou seja, para  Calvino e, de outro modo, para  Blanchot, Derrida ou de Man, a literatura é, desde sempre, ex machina. Simultaneamente o autómato e a invenção: o engenho e a arte.

Bibliografia