Patrícia San Payo
Jean Louis Houdebine, num texto de 1967, procurava circunscrever a noção de texto definindo-o como uma forma de organização específica que decorre de uma tensão prévia entre, por um lado, a escrita que o atravessa e impede a cristalização do sentido - porque escrita/leitura, logo, necessariamente inscrição no próprio texto de uma possibilidade de ser outro - e os limites do texto enquanto enquadramento (fragmento). O texto é definido como um "sistema diferencial", ou seja, de acordo com a teoria dos níveis -ideológico, semântico, fonético (Kristeva) -, como um sistema que coloca a articulação/oposição dos diversos níveis entre si e que simultaneamente prevê - como uma possibilidade inscrita na sua própria textura - o constante diferimento do sentido.
Podemos interrogarmo-nos sobre se é possível conciliar, numa mesma formulação teórica, uma ideia de fragmento compatível com a sua definição como sistema (entenda-se fragmento, aqui, no sentido que lhe dá Houdebine, ou seja, como uma pequena totalidade fechada sobre si mesma) e a consideração de uma dimensão da escrita/leitura que atravessaria esse sistema aparentemente sem perturbar a lógica dos níveis narrativos porque, em qualquer dos casos, lhe seria exterior. (Cf. Jean Louis Houdebine "Première approche de la notion de texte" in Theorie d'ensemble )