Enciclopédia e Hipertexto

Resposta a uma entrevista que não chegou a acontecer

(entrevista imaginada com base no itinerário. Guião para um seminário elaborado por Cristiana Veiga Simão)

Rodrigo Vilhena

 

1ª definição - happening - "acção artística realizada na presença do público, com frequência integrado no acontecimento"

Este espaço não faz parte do circuito das galerias, pois seria actualmente impossível realizar um trabalho de pesquisa artística desta “espécie” numa galeria de arte. Contudo, nem sempre foi assim. As galerias nos anos 60/70 eram laboratórios vivos de criação artística. Podemos relembrar a obra de Yves Klein, em Abril de 1958, na Galeria Iris Clert, onde apresentou a exposição intitulada: “The Void”. Consistia na apresentação da galeria totalmente vazia e pintada de branco, onde Klein ofereceu cocktails azuis, a mesma cor com que pinta a fachada da galeria, o seu International Blue Klein.

Na mesma galeria, em Outubro de 1960, Arman exibiu: “Le Plein”, uma acumulação de lixo e desperdício. A galeria ficou atolada totalmente de detritos da sociedade de consumo. O público assistia à exposição através da montra da galeria.

Nos anos 80, houve uma viragem no papel das galerias vocacionadas para o negócio da arte, tornaram-se meras lojas de exposição e de venda; neste sentido desapareceu a memória de tempo da experimentação, de pesquisa artística do autor nas galerias de arte.

O público que presenciou este evento foi diverso, desde artistas, espectadores leigos, amigos e conhecidos, alguns curiosos e outros que vieram não só ver como participar no work in progress.

2ª definição - interactivo - "arte interactiva"- arte que prevê uma intervenção directa do espectador. Frequentemente, esta intervenção torna-se possível através de computadores"

Diz o autor:

Esta exposição é um projecto vivo e, como tal, o espaço cria uma nova dimensão, um ambiente em que tudo está interligado, sendo o próprio espaço uma obra aberta.

O Palácio de Tóquio, que foi recentemente, inaugurado, é também um lugar não formatado, um espaço em abertura total para a criação artística. As paredes nuas deixam ver as infra-estruturas, encenação rugosa e de aspecto industrial. Podemos também observar que aqui os convidados, são jovens artistas desconhecidos que se podem exprimir ao longo das diversas galerias, criando uma dinâmica interactiva no museu, onde existem conferências e debates, num espírito de rebeldia e experimentação contínuos.

Neste sentido, podemos dizer que este é um exemplo para este projecto realizado neste espaço alternativo; as paredes da Fábrica Nacional de Óptica também impõem uma determinada história criando a sua própria encenação, e as obras dos artistas que surgem nas paredes criam dinâmicas específicas com toda a obra do artista, uns e outros co-autores de um trabalho que promove a critica e a reflexão.

3ª definição - ambiente - "espaço interior ou exterior totalmente formado pelo artista e que integra o espectador no acontecimento estético"

Se o espaço é o próprio ambiente de exposição, sendo ele vivo, podemos afirmar que o espectador quando entra nesse espaço, passa a ser objecto estético da instalação. O espectador torna-se objecto perante o acontecimento artístico, sendo também uma manifestação do work in progress.

Podemos encontrar um exemplo de um work in progress realizado inicialmente a partir de um estúdio. Em “Merzbau”, o trabalho de Schwitters, realizado em Hanover, a partir de 1923, destruído em 1943, funciona como um espaço irracional, onde se pôde assistir ao longo de treze anos, a um work in progress. Partindo do estúdio, alargou-se a toda a casa. Nas suas intermináveis viagens pela cidade, Schwitters providenciava os materiais para o desenvolvimento do seu ambiente. Através deles, Schwitters, num trabalho autobiográfico, construía os cenários, que iam sendo reformulados com o tempo, exercendo uma função entre arte e vida.

4ª definição - ecletismo - "procedimento corrente na arte pós-moderna e que se caracteriza pela citação generosa de obras e estilos (históricos) de outros artistas"

Este projecto tinha como base a colecção e a acumulação e, também o próprio gabinete de amador, definido por uma super – moldura, que exibia uma colecção de pinturas em mosaico. É um sistema de imagens que se torna visível e emerge da pintura que o representa. Esta fragmentação de imagens impede uma linearidade de leitura, permitindo ao visitante a liberdade de construir o seu próprio percurso visual.

Podemos citar um exemplo mais concreto: a obra de David Teniers II, “The Gallery of Archduke Léopold-Guillaume in Brussels”.

Os trabalhos reproduzidos neste Gabinete de Amador são facilmente reconhecíveis devido aos nomes dos autores inscritos em cada moldura.

O Gabinete de Amador em que o espaço pictórico era um catálogo de pinturas, acabou por ser substituído pelo próprio livro catálogo que surgiu por volta de 1660: “Theatrum Pictorium Davidis Teniers Antverpensis”, onde o artista colocou em cada página uma reprodução da obra, só na última página foi reproduzido um Gabinete de Amador: “Lady at Her Toilet” por Giovanni Bellini. Este catálogo foi o espelho da colecção.

A arte dos nossos dias prevê no mecanismo de nos apoderarmos das imagens e dos objectos do quotidiano. A obra é assim receptáculo de milhares de referências. O papel do artista alterou-se: compete-lhe, já não criar novas obras, mas novas formas de confrontação do sensível, procurando nas combinações, uma arte da manipulação das obras de arte que intervêm entre si. O espaço da arte contemporânea é um espaço elástico, onde trabalhos pessoais estão cada vez mais confinados a exposições que são representativas de todas as civilizações, nas quais encontramos ligações a outras culturas, tornando-se difícil distinguir um artista de um outro, formando um tecido de universos artísticos.

5ª definição - instalação - "obra de arte que integra o espaço de exposição como uma componente estética"

O “White Cube” é uma referência fundamental para uma concretização deste projecto artístico.

Neste sentido, talvez seja o ideal para a galeria dado que, ao entrar, o espectador, a dirige o seu olhar, primeiro para o espaço em si e, só depois, para a arte exposta. A galeria ideal, o “white cube”, isola o trabalho artístico de tudo o que pode distrair o olhar do público. O espaço apresenta-se como um sistema fechado, no qual é preservada a repetição dos seus valores.

Contudo, o “white cube” proporciona uma experiência estética cuidada, sendo exactamente o oposto do que se pretendeu na concretização deste ambiente.

6ª definição - ready-made - "É um objecto do quotidiano declarado obra de arte pelo artista e exposto como tal sem alterações notórias"

A garrafa de vinho que a Cristiana propositadamente deixou na fábrica após um jantar onde conversámos sobre a “Condição Humana”.

s / título, 2002
Cristiana Veiga Simão