Teresa Levy
Quero começar por pedir desculpa se induzi alguém em erro com o título que escolhi. E o mais aborrecido é que só depois de eu já ter falado algum tempo o poderão saber. Para que possam decidir o mais depressa possível, desde já anuncio que os ‘textos’ e ‘hipertextos’ que vou considerar aqui, são, se é que o são, um caso muito particular de textualidade. O que me proponho aqui trazer é a questão do corpo material no espaço real e o seu contraponto no espaço virtual ou ciberespaço: o ciborg, o humano protésico ou o póshumano. Cada um destes termos remete para perspectivas diferentes mas que se interpenetram de modo significativo.
O que tem isto a ver com o título? Sem querer forçar a ideia de relação directa ou evidente, parece-me possível argumentar que os discursos que se têm vindo a intensificar sobre estas criaturas são discursos sobre os seus estatutos antropológicos, sobre as suas relações onde está muitas vezes em causa a fragmentação e a identidade, o material e o imaterial, o local e o sem local. Em espelho, eles reenviam-se imagens uns dos outros, não só em termos do que é, mas também em termos de expectativas sublimes ou a-bjectas.
Mas para ser franca, o meu interesse sobre o fragmento vem também da minha própria disposição actual: sinto, pressinto a ressonância de palavras, de frases, de fragmentos da vida e do corpo com as suas partes destacáveis e seus aperfeiçoamentos protésicos, sobretudo num contexto de tecnociências mas sem que necessariamente tenha um sentimento vivo e certeiro sobre relações de causalidade ou de inevitabilidade como afirmam os deterministas quer biológicos quer tecnológicos. De uma qualquer explosão, da frustração, do sem nexo restam os fragmentos. Frágeis e contingentes.
A totalidade aparece aqui como coisa interrogada e investida de grande ambivalência. Para falar verdade, e deitando um olhar pelo mundo, receio mais a nova ordem mundial cada vez mais apregoada e com provas já dadas, do que a complexidade do mundo e dos seres e dos restos que são segregados por essa ordem ou que aí se instalam. Neste sentido, a fragmentação é talvez consequência do desastre e, ao mesmo tempo, um modo de resistência na procura de aberturas.
Apropriadamente, não invoco só o monstro do Frankestein mas como também aquela figura enigmática que é o Humpty-Dumpty.
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