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Na elaboração deste trabalho sentimos necessidade de recolher
opiniões de pessoas que já tenham alguma experiência com crianças. Assim
sendo entrevistámos a Patrícia, estudante universitária e mãe de uma
menina com 4 anos, e a Drª. Maria Manuel Vieira, socióloga e mãe de duas
crianças. As nossas entrevistadas deram o seu parecer baseado
essencialmente nas suas experiências como mães e não com base noutros
conhecimentos.
As questões por nós colocadas abordam particularmente a influência que
os desenhos animados e outras séries exercem sobre as crianças, suas
causas e efeitos.
Acha que a
animação em exibição é muito violenta? Ou serão os horários de exibição
inoportunos?
A grande parte dos desenhos
animados são violentos, não
só fisicamente como psicologicamente.
A Cinderela, a Branca de Neve, associam a madrasta ao mau. Bugs Bunny é
violento, onde faz de tudo contra o caçador. Drangon Ball é extremamente
violento, violência gratuita (sem significado). Pocahontas mostra a realidade racista que sempre existiu no
mundo. O Aladino mostra as diferenças nas classes que existem. O Tom & Jerry
que eu adoro e a Mónica também é violento, o Tom anda atrás do
Jerry e o Jerry atrás do Tom. Mas atenção, os desenhos animados
mostram que a vida não é tão cor-de-rosa, mostram a realidade só que no
fim tudo acaba bem. Mais grave que os desenhos animados violentos são os
pais não estarem presentes quando os miúdos os vêem. Caso contrário
poderiam dizer que aquilo é errado ou que não se faz.
A minha filha vê o canal Panda, que dá horas e horas seguidas, e isso é
mau. Quanto ao Batatoon, dá a horas que as crianças estão quase
todas na escola, assim como o Mix Max. Sobre o serem extremamente
violentos, o Dragon Ball é como já referi violência gratuita e não é
próprio para crianças. A minha filha não vê e até a mim me incomoda. (Patrícia)
Eu acho que são inoportunos (
horários) porque eu vejo que o meu filho acorda mais cedo só para ver
desenhos animados. De qualquer forma o horário diurno é oportuno porque
eles são crianças.
(Drª. Maria Manuel Vieira)
Tal como
expresso pela Sic, acha que a animação japonesa adapta-se a qualquer faixa etária?
Sim claro, que não sejam problemas cardíacos, que
não sejam psicopatas...
Enfim tudo pelas audiências, claro que não concordo. Esses desenhos
animados são para adultos. (Patrícia)
Confesso que não sou fã dos desenhos animados japoneses, não me agradam.
Às vezes o meu filho está a ver, mas eu não vejo. Agrada-me mais os
Simpsons...
Não interessa estar a interpretá-los porque seria muito desinteressante
para eles. Por um lado essa mensagem da Sic legitima aquilo que faz pois
muitos jovens, a maioria vêem. O meu filho mais velho (16 anos), diz que
os colegas e alguns professores vêem na escola, logo são apelativos a
todas as faixas etárias.
(Drª. Maria Manuel Vieira)
Como
caracteriza o comportamento da camada juvenil, relativamente às atitudes
violentas desencadeadas pela visualização de desenhos animados e banda
desenhada? Pois estes ao brincarem imitam o seu herói preferido, agindo
como este, que para salvar a donzela em perigo agride violentamente 20
indivíduos ao mesmo tempo.
Acho que a partir de certa idade a influência
dos desenhos animados começa a ser menor, isto é, quando se tem 4 anos o
que se vê na televisão é assumido como um comportamento a imitar, daí
o facto dos pais terem o dever de estar atentos e tentar explicar que aquilo só
acontece nos desenhos animados( como por exemplo voar). Depois com o
passar do tempo, a criança adequire a distinção entre o bem e o mal, e
as coisas acontecem de maneira diferente. No entanto acho que em geral os
tornam mais insensíveis, menos sentimentais.
Hoje as crianças crescem mais depressa, não só pelo que vêem na
televisão mas também porque a sociedade o exige. A criança aprende
através da imitação, portanto cabe aos pais ajudá-la a perceber o que
está bem ou mal.(Patrícia)
Pelos desenhos animados, por aquilo que me é dado a constactar, os
miúdos recriam algumas brincadeiras vistas no ecrã. O meu filho
faz encenações dos desenhos animados com outras crianças, primos e
colegas, no entanto ele não chega magoado a casa devido a essas
brincadeiras.
Os rapazes são mais influenciados pelas artes marciais do que
eventualmente as raparigas. (Drª Maria Manuel Vieira)
As
séries de animação têm actualmente uma grande capacidade viciativa.
Grande parte dos jovens fazem de tudo para não perderem um episódio.
Acha que deveriam ser os pais a seleccionar a programação?
Os pais não devem tomar
decisões sobre os filhos, isto é, os pais devem ajudar os filhos a
escolherem o seu caminho. Devem explicar que aquele programa não presta
porque ..., e que aquele é giro porque..., mas não devem ser eles a
decidirem pelos filhos. (Patrícia)
Idealmente sim, os pais
deveriam seleccionar a programação que os filhos vêem, porque isso
atravessa todos os programas de televisão. A cultura dos jovens está
cada vez mais centrada nas imagens e não nos livros. Eles são muito
seduzidos pela televisão, preferem estar a ver televisão do que a ler,
estudar ou conversar.
Nós pais, na medida do possível, devemos fazer isso.
Em relação aos meus filhos, sobretudo ao mais novo, os desenhos animados
ao sábado de manhã não controlo, isso porque ele durante a semana não vê.
Mas hoje em dia é muito difícil para os pais fazer essa 'selecção',
porque trabalham e muitas vezes os horários não coincidem. Importante
também é conduzi-los para a cama a horas.
(Drª Maria Manuel Vieira)
Quatro
horas em frente da TV é demasiado. Deverão os pais, encarregados de
educação restringir certos abusos?
Se as crianças passam
quatro horas em frente à TV é porque não têm nada para fazer, cabe aos
encarregados de educação a capacidade de encontrar juntamente com os
seus filhos, actividades para que eles estejam ocupados.
Claro que os pais em geral, não têm paciência para depois de um longo
dia de trabalho, estarem a inventar coisas para os filhos fazerem,
outros não têm dinheiro para os colocarem em actividades extra-curriculares,
mas isso não tem solução. Não se pode obrigar os pais a assumirem
determinados comportamentos, isso vai na cabeça de cada um. Depois os
próprios pais passam horas a vegetar frente ao televisor, e os filhos
seguem-lhes o exemplo.
A TV assumiu um papel importantíssimo na sociedade, devido a ser o
método mais rápido de cultura, distracção e informação. As pessoas
preferem ver um filme em vez de lerem um livro. Enfim, reflexos de uma
sociedade dita moderna. (Patrícia)
É um facto que a TV está
cada vez mais intrínseca nos lares, ligar a televisão é uma das rotinas
diárias dos adultos, logo as crianças sofrem um processo de
socialização pelas práticas de rotinas. Também são inflenciadas pelo
grupo dos pares, para verem isto ou aquilo, isto é, as suas conversas
muitas vezes centram-se em assuntos vistos na TV.
(Drª Maria Manuel Vieira)
Serão
os livros de animação melhores que a televisão, não transportarão o
mesmo nível de violência? Os efeitos negativos serão equivalentes?
Os livros não transmitem
todas as emoções que a televisão transmite, no entanto a violência
psicológica continua lá, a diferença não é muita. Mas em relação à
violência física, aí é totalmente diferente. Nos livros nós
imaginamos, na televisão vemos.
Os livros são fonte de inspiração e imaginação, imaginam-se os
personagens, as suas acções, enquanto que a TV tira a imaginação,
está tudo ali, é só abrir e consumir.
Acho que nos livros os efeitos não são tão violentos. Aliás, nos
livros não se vê o nosso herói, nós criamo-lo, ou seja, sabemos que
não é real. A criança sabe que as personagens do livro não existem,
são irreais. Quando esses personagens passam para a TV tornam-se reais.
É aquilo que eu considero ser a diferença.
(Patrícia)
Poderá haver uma
diferença qualitativa. Os livros são igualmente apelativos, apelam para
os mesmos medos, mas a televisão consegue ser ainda mais, uma vez que na
televisão existem imagens, existe movimento. É diferente dos livros, em
que tudo é fictício, no entanto os temas são idênticos.
A leitura implica sempre um esforço e a imagem visual não requer nenhum
esforço.
(Drª Maria Manuel Vieira)
A
Televisão desenvolve nas sociedades actuais um grande fascínio. Usarão
as crianças a TV como uma escola paralela?
Uma escola não digo, a
criança usa a TV como ocupação, algo para estar distraída. Como a
criança nasce com a capaciadade infinita de aprender, capta tudo o que a
rodeia e portanto aprende com a televisão. Mas não é uma escola
paralela, é um método de aprender. Ou seja, uma escola não é só
aprender matérias, é também conviver, respeitar direitos e deveres,
regras, aulas,... A televisão só lhes dá informação. (Patrícia)
Escola paralela ...
A televisão é mais uma fonte de informação, poderá servir para
acumular experiências de conhecimento. Mas tem funções diferentes da
escola. Enquanto esta é criteriosa uma vez que tem uma postura
científica, os meios de comunicação social fazem-no para toda a gente.
(Drª
Maria Manuel Vieira)
Considera
que os desenhos animados para além de viciarem, estimulam o consumo de
bens materiais?
Claro. Qual é o miúdo que
não quer um Pikachu, ou outro Pokémon? Quem não quer ter o seu herói?
A televisão é um veículo de consumo, anúncios e anúncios, basta
pensar que os sofás do Big Brother esgotaram no Kit-Market... Portanto se
os adultos consomem o que vêem na televisão, porque não as crianças.
(Patrícia)
Antes o consumo de filmes
era finalizado com o acto de ver o filme. Hoje em dia é diferente, fazem
publicidade, tornam a publicitar e logo há mais consumo. Os desenhos
animados utilizam as crianças para chegar aos pais.
(Drª Maria
Manuel Vieira)

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