Violência na TV

 

 

 

"A pessoa aprende sem o saber, e em consequência sem saber o que aprende. A violência da situação televisiva manifesta-se nesta espécie de captura de quem vê e que sem esforço não se consegue afastar."                                         Liliane Lurçat,'tempos Cativos: As crianças TV'

 

O desenvolvimento da comunicação em massa, particularmente da televisão, tem vindo a transformar as crianças. Surgem diferentes comportamentos, alguns deles violentos e outros que conduzem à imitação massiva, alterando os modos de alimentação, vestuário, diversão, expressão oral (...).

A programação infantil dos quatro canais portugueses foi objecto de uma análise, feita durante um mês, há alguns anos atrás. As conclusões foram de certo modo inesperadas: há muita escolha, cerca de 70% dos programas foram considerados bons ou francamente recomendáveis, e a maior parte nem sequer é violenta. As coisas seriam pacíficas não fosse o caso dos dois programas considerados susceptíveis de serem banidos - Dragon Ball Z e Sky Surfers - que são precisamente aqueles que mais agradam às crianças. A lista de "reclamações" sobre o Dragon Ball Z é longa: a série é violenta, tem conteúdos que estão paredes-meias com a pornografia e cria habituação.  Mais grave ainda é que já existem casos de imitação dos rituais violentos transmitidos na televisão.

Algumas crianças imitam a agressividade e violência que vêem nas séries mais brutais, o que conduz a uma "passagem ao acto". Numa escola de Lisboa, uma criança foi vítima dos seus colegas fãs do Dragon Ball Z que, à imagem e semelhança da série a espancou, ao ponto desta dar entrada no hospital. Devido a casos semelhantes nos Estados Unidos, o Instituto Nacional para a Saúde Mental, em 1982, a Academia Americana de Pediatria, em 1984, e a Associação dos Psicólogos Americanos em 1985, todos concluiram que a violência televisiva é causa de comportamentos agressivos nas crianças. Apesar destes institutos serem americanos, não é por isso que o problema não afecta a Europa, porque neste momento a televisão é global e nós vemos o que o mundo inteiro vê.

O inquérito à programação foi conduzido durante um mês pela Associação Portuguesa de Espectadores de Televisão (APET), contou com o apoio de uma psicóloga e responsáveis universitários. O objectivo era analisar a programação infantil transmitida pelos canais portugueses e verificar a sua qualidade.

Uma das conclusões obtidas refere que a programação é vasta e o leque de escolha enorme. Semanalmente, eram exibidas sessenta e quatro séries infantis e seis filmes, nos canais nacionais. Um facto que agrada aos adultos consultados, mas que parece ser pouco ou nada valorizado pelos inquiridos mais jovens. Aqui, o leque de preferências é reduzido ao mínimo e, curiosamente, as crianças gostam precisamente das séries que os adultos rejeitam. Os que são classificados com notas negativas e apelidados de "perigosos" ou "a banir" são o DragonBall Z, Iron Man, Sky Surfers, Masked Rider e Peter Pan. Em comum têm violência em excesso, enredos sem consistência, personagens assustadoras e ausência de intenção formativa.


Este estudo deu particular importância à série Dragon Ball Z, classificando-a como sendo "monumentalmente violenta". Alguns dos jovens inquiridos confessam não ter apreciado partes dos desenhos animados, tais como "quando deitam sangue pela boca" ou "quando o Cell chupou o braço ao outro e ele ficou com a pele pendurada",ou ainda na altura em que "mesmo sendo uma máquina, fez impressão que ficasse com um bocado de cérebro arrancado".

No Dragon Ball Z é também criticado "o uso de conteúdos que são consensualmente de adultos, estamos a falar de pornografia". Um dos personagens é um velho barbudo que, ao vencer combates fatais,recebe prémios em dinheiro. Com a verba arrecadada "vai comprar livros de pornografia". O "mestre" é conhecido por perseguir raparigas para as beijar, considerando a APET que "as imagens eróticas aparecem sem qualquer ligação com a história".

A gravidade da série é tanto maior quanto a pesquisa feita junto das crianças parece indicar que os espectadores não têm capacidade para recontar os episódios a que assistem. Tal como refere Liliane Lurçat "A criança não se pode opor, nem moral nem fisicamente. A criança fascinada está subjugada pelo que vê", assim o enredo não surge no contexto, mas "em cenas soltas" muitas delas de enorme violência, facto que sugere imitações perigosas. Segundo Helena Marujo, a psicóloga consultada pela APET, existem já casos de repetição de um ritual do Dragon Ball Z que dá pelo nome de Kamea-Hamea. As crianças unem as mãos para "concentrar energias" e, numa escola do primeiro ciclo de Lisboa (que pediu para não ser identificada), um grupo de alunos fez um círculo à volta de uma colega e espancaram-na ao ponto desta ser hospitalizada. A psicóloga foi chamada a intervir a pedido dos pais alarmados e não restaram dúvidas quanto "à assumida semelhança entre o que as crianças fizeram e o que dizem ver no desenho animado".

Mais recentemente assistimos ao aparecimento de uma nova série - os Pokémon - que também têm sido objecto de estudo e de fortes críticas. O ponto de partida para o aparecimento de algumas críticas prendeu-se com um facto que ocorreu no Japão. Numa das noites em que a série estava a ser transmitida na TV Tokyo, 729 pessoas, maioritariamente crianças e adolescentes, deram entrada nas urgências dos hospitais e 24 horas depois cerca de 200 ainda estavam internadas. Todos eles tinham assistido ao último episódio dos Pokémon e apresentavam sintomas idênticos: irritação ocular, tonturas, náuseas, convulsões, problemas respiratórios ou ataques de epilépsia.

De acordo com as notícias divulgadas na altura, os sintomas terão surgido cerca de vinte minutos depois do início do episódio e na sua origem estaria uma sequência na qual os olhos do Pikachu - principal personagem da série - emitiram fortíssimos relâmpagos alternados vermelhos e azuis. A sequência, em que Pikachu lutava contra um vírus que atacara um computador, projectou 54 imagens em cinco segundos.

Segundo alguns psiquiatras e outros especialistas esta técnica de efeitos especiais, nomeadamente quando se recorre à alternância de luzes fortes, pode activar reacções epilépticas fotossentivas, muito em particular nas crianças. Casos idênticos registaram-se já em 1989, no Japão, em 1991 nos Estados Unidos, em 1993 na Grã-Bretanha, e mais recentemente, também no Japão, devido a uma outra série de desenhos animados transmitida pela televisão pública.