Rómulo
de Carvalho
(1906 - 1997)
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Rómulo
Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa em 1906 e licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela universidade
do Porto em 1931. |
Mas
para além de homem da ciência, Rómulo de Carvalho é um grande poeta. Sob o
pseudónimo de António Gedeão enriqueceu de forma
decisiva a literatura portuguesa do século XX.
O
autor incorpora na sua poesia uma cultura científica actual numa mistura de
meios de expressão tradicionais, e deixa ao mesmo tempo
transparecer uma clara visão do mundo moderno.
Rómulo
de Carvalho ou António Gedeão, um cientista e um grande poeta português. Este
nosso exemplo, mostra bem como a ciência e a arte têm uma fronteira ténue!
Aqui
ficam alguns exemplos de poemas onde o universo da arte e da ciência se cruzam:
Poema
para Galileo
a
inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e
quantos milhões de homens como eu
a
quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate Galileo!
-
e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem
a menor hesitação -
que
os corpos caem tanto mais depressa
quanto
mais pesados são.
Pois
não é evidente, Galileo?
Quem
acredita que um penedo caia
com
a mesma rapidez que um botão de camisa
ou
que um seixo na praia?
Esta
era a inteligência que Deus nos deu.
(...)Por
isso estoicamente, mansamente,
resistente
a todas as torturas,
a
todas as angústias, a todos os contratempos
enquanto
eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram
caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo
sempre,
e
sempre,
ininterruptamente,
na
razão directa dos quadrados dos tempos.
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Lágrima
de Preta
Encontrei
uma preta
que
estava a chorar
pedi-lhe
uma lágrima para analisar.
Com
todo o cuidado
Num
tubo de ensaio
Bem
esterilizado.
do
outro e de frente:
tinha
um ar de gota
muito
transparente.
Mandei
vir os ácidos,
as
bases e os sais,
as
drogas usadas
em
casos que tais.
Ensaiei
a frio,
experimentei
ao lume,
de
todas as vezes
deu-me
o que é costume:
nem
sinais de negro
nem
vestígios de ódio,
água
(quase tudo)
e
cloreto de sódio.
A
Catedral de Burgos
e
as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.
Olha
a catedral de Burgos com trinta metros de altura!
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Máquina
do Mundo
Intervalos,
distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço
vazio, em suma.
O
resto é matéria.
Daí,
que este arrepio,
este
chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta
fresta de nada aberta no vazio,
deve
ser um intervalo.
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Suspensão
Coloidal
na
voz de quem a não tem;
no
pouco que há de mim em cada verso,
no
muito de tudo e de ninguém.
Anda
o cego a tocar” La Violetera”,
e
eu a vê-lo, e a cegar;
e
a pobre da mulher esfregando e pondo a cera
e
eu a vê-la, e a esfregar.
Que
riso perto, que aflição distante,
que
ínfima débil, breve coisa nada,
iça,
ao fundo, esta draga carburante,
rasga,
revolve e asfalta a subterrânea estrada?
Postulados
e leis e lemas e teoremas,
tudo
o que afirma e jura e diz que sim,
teorias,
doutrinas e sistemas,
tudo
se escapa ao autor dos meus poemas.
A
ele e a mim.