Rómulo de Carvalho
(1906 - 1997)

   

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa em 1906 e licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela universidade do Porto em 1931. Foi professor, pedagogo, cientista e investigador de História das ciências. 
Publicou diversos livros de divulgação científica, assim como livros escolares especializados, nomeadamente na área da matemática.  

Mas para além de homem da ciência, Rómulo de Carvalho é um grande poeta. Sob o pseudónimo de António Gedeão enriqueceu de forma decisiva a literatura portuguesa do século XX. Gedeão é autor de inúmeros belos poemas, “A Pedra Filosofal” ou “Lágrima de Preta” são dois exemplos bem conhecidos. Estes e outros mostram uma originalidade indiscutível e um génio poético impar! Apesar do enorme génio poético, só aos 50 anos decide publicar o seu primeiro livro de poesia.      

O autor incorpora na sua poesia uma cultura científica actual numa mistura de meios de expressão tradicionais, e deixa ao mesmo tempo  transparecer uma clara visão do mundo moderno.  António Gedeão morreu em 19 de Fevereiro de 1997, meses antes de ter sido homenageado pelo Ministério de Ciência e de Tecnologia.  

Rómulo de Carvalho ou António Gedeão, um cientista e um grande poeta português. Este nosso exemplo, mostra bem como a ciência e a arte têm uma fronteira ténue!

Aqui ficam alguns exemplos de poemas onde o universo da arte e da ciência se cruzam:

   

Poema para Galileo

  (...)Eu queria agradecer-te, Galileo,  
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
 
e quantos milhões de homens como eu  
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate Galileo!  
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça  
sem a menor hesitação -  
que os corpos caem tanto mais depressa 
quanto mais pesados são. 

Pois não é evidente, Galileo?  
Quem acredita que um penedo caia  
com a mesma rapidez que um botão de camisa  
ou que um seixo na praia?  
Esta era a inteligência que Deus nos deu.  
(...)Por isso estoicamente, mansamente,  
resistente a todas as torturas,  
a todas as angústias, a todos os contratempos  
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,  
foram caindo,  
caindo,  
caindo,  
caindo,  
caindo sempre,
e sempre,  
ininterruptamente,  
na razão directa dos quadrados dos tempos.

 

 

 

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar  
pedi-lhe uma lágrima para analisar.

  Recolhi a lágrima  
Com todo o cuidado  
Num tubo de ensaio  
Bem esterilizado.

  Olhei-a de um lado,  
do outro e de frente:  
tinha um ar de gota  
muito transparente.  

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas  
em casos que tais.  

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes  
deu-me o que é costume: 

nem sinais de negro  
nem vestígios de ódio,  
água (quase tudo)  
e cloreto de sódio.   

 

A Catedral de Burgos

  A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.  

Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!

 

 

 

Máquina do Mundo

  O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.  
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.  
Espaço vazio, em suma.  
O resto é matéria. 

Daí, que este arrepio, 
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

   

Suspensão Coloidal

  Penso no ser poeta, e andar disperso
na voz de quem a não tem;  
no pouco que há de mim em cada verso,  
no muito de tudo e de ninguém. 

Anda o cego a tocar” La Violetera”,
e eu a vê-lo, e a cegar;
e a pobre da mulher esfregando e pondo a cera
e eu a vê-la, e  a esfregar. 

Que riso perto, que aflição distante,  
que ínfima débil, breve coisa nada,  
iça, ao fundo, esta draga carburante,  
rasga, revolve e asfalta a subterrânea estrada?

Postulados e leis e lemas e teoremas,  
tudo o que afirma e jura e diz que sim,
teorias, doutrinas e sistemas,
tudo se escapa ao autor dos meus poemas.  
A ele e a mim.