Um esboço histórico...
Pitágoras
acreditava que os números que medem as distâncias de
cada um dos planetas à terra, ordenam-se de modo a corresponderem aos números
característicos dos acordes musicais. Deste modo, no movimento das esferas
celestes exista uma música que os sentidos não apreendem, mas que, no silêncio
das noites estreladas das costas de Itália, fazia vibrar harmoniosamente a alma
do matemático e do místico que era Pitágoras.
A filosofia clássica defendia assim três tipos de música,
a qual foi classificada em terminologia boeciana em música
instrumentalis (produzida pela lira, flauta, etc.), a música humana (inaudível,
mas produzida no homem pela interacção entre o corpo e a alma) e a música
mundana (produzida pelo próprio cosmos e mais conhecida pela música do
universo).
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Pitágoras estabeleceu então a 1ª teoria matemática da música, ao
estudar as relações dos comprimentos das cordas da lira e descobrindo que a
frequência de uma corda vibrando é proporcional ao seu comprimento. |
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Devem-se-lhe também, descobertas consideradas cientificas neste campo.
Conhecia por exemplo a seguinte propriedade das cordas vibrantes: se se dividir
uma corda ao meio, o som que ela produz está em uníssono com o som produzido
pela corda inteira. Desta forma, o intervalo entre estes dois sons, a chamada
oitava na terminologia dos músicos, está associada à fracção1/2. Reparou
também que eram particularmente agradáveis as combinações de sons, ligadas a
outras fracções simples: o que acontecia quando se encurtava a corda para 2/3,
o som produzido forma um intervalo duma quinta em relação ao som original, e
quando se encurta para 3/4, um intervalo duma quarta.
Desta forma se compreende como para Pitágoras, a música (harmoniosa)
evidenciava uma correspondência directa com a aritmética das fracções.
Repare-se que o facto de se obter a oitava ao fazer a soma dos intervalos duma
quarta e duma quinta, é resultante da seguinte relação aritmética: o produto
de 2/3 (fracção associada
à quinta) por 3/4
(fracção associada à quarta) dá a fracção 1/2 associada à oitava.
Na música ocidental o tom é considerado o átomo musical e obtém-se
fazendo a diferença entre uma quinta e uma quarta. É produzido numa corda
generalizando, desta vez, a subtracção de intervalos e a divisão das fracções,
em vez de as multiplicar. O tom pitagórico estava então associado à fracção
8/9=(2/3):(3/4), ou seja, o intervalo de um tom, obtém-se encurtando a
corda a 8/9.
Utilizando o nome das notas hoje conhecidas de todos, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, e uma vez que cada nota corresponde a um comprimento de corda, constrói-se então a gama pitagórica:
| dó | ré | mi | fá | sol | lá | si | dó |
| 1 | 9/8 | 81/64 | 4/3 | 3/2 | 27/16 | 243/128 | 2 |
Assim para se obter o ré, separado da nota fundamental dó por um tom, é necessário tomar a corda com 8/9 do comprimento, para ter mi a de 64/81 uma vez que 64/81=(8/9)*(8/9).
Para
definir o fá e o sol, são usados intervalos de base que são a quarta e a
quinta, a partir do sol, de novo se acrescenta um tom para obter o lá, e ainda
um tom para o si, daí a fracção associada ao si
Note-se que os
intervalos entre as notas mi e fá, por um lado, si e dó da oitava superior por
outro, aparecem como restos; na gama pitagórica, não são iguais,
verificando-se estarem próximos do meio tom.
A primeira transformação da gama pitagórica foi feita por Dydimos, em 63 a.C., utilizando fracções diferentes das anteriores, mas bastante próximas, que tiveram uma certa aceitação por serem mais simples:
| dó | ré | mi | fá | sol | lá | si | dó |
| 1 | 9/8 | 5/4 | 4/3 | 3/2 | 5/3 | 15/8 | 2 |
Era a chamada gama diatónica.
Para a transformação
seguinte, foi preciso esperar muito tempo. O problema foi tratado de maneira
mais sistemática e foram necessários os progressos tecnológicos e
conceptuais. Aparecia então a gama temperada.
| dó | ré | mi | fá | sol | lá | si | dó |
| 1 | 2 |
Este procedimento
pressupõe processos matemáticos bastante importantes no domínio do cálculo
algébrico, que só foi possível por volta de 1600.
No meio
desta evolução está presente uma pequena ironia da História, a gama
temperada baseia-se no n.º irracional,
raiz duodécima de 2,
que para os
pitagóricos era pura heresia.