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Cantor |
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O primeiro ensaio de Cantor publicado foi sobre a teoria de conjuntos ainda nesse ano. O ensaio tinha sido apresentado e aprovado meses antes, mas um dos editores do jornal onde ele estava para ser publicado deliberadamente atrasou a sua publicação. O editor era Leopold Kronecker, um dos professores de Cantor na Universidade de Berlim, e este atraso não foi apenas uma questão de desleixo da sua parte: era um bocadinho de maliciosa censura académica e um bocado ainda maior de ciúme profissional.
Kronecker é famoso, entre outras coisas, pela afirmação: Como se pode constatar, os seus pontos de vista eram totalmente opostos aos de Cantor, e Kronecker tirou partido do seu estatuto de superioridade profissional para suprimir a heresia Cantoriana. Mas Cantor não foi o único objecto da opressão de Kronecker. Outro matemático da Universidade de Berlim, Weierstrass, colega de Kronecker mas oponente nas suas ideias, foi profundamente ferido pelos seus ataques. No fim da sua carreira, Weierstrass chegou mesmo a escrever:
Já não consigo ter o mesmo prazer que tinha antes, quando dava aulas;
Kronecker usa a sua autoridade para proclamar que todos nós, que temos
trabalhado até agora para estabelecer a teoria das funções
[proximamente relacionada com o infinito] somos pecadores perante
Deus... Tal veredicto, vindo de um homem cujo talento eminente e o notável
desempenho na investigação matemática admiro tão sinceramente e com
tanto prazer (...), é não só humilhante... como um apelo directo às
novas gerações para que abandonem os seus actuais mestres e para que
se reunam à sua volta como discípulos de um novo sistema que é
inevitável. Isto é verdadeiramente triste, e provoca-me uma amarga
dor, ver um homem cuja glória permanece imaculada, deixar-se arrastar a
si próprio... para proclamações de cujos efeitos injuriosos sobre os
outros parece não se aperceber.(Weierstrass, cit in Muir, 1996, p. 236,
trad. livre)
Cantor acreditava que todos os prejuízos que lhe foram causados tinham
sido "sistematicamente estimulados por Kronecker" (Cantor, cit
in Muir, 1996, p. 237, trad. livre), e não eram apenas ilusões neuróticas.
Ele não foi a única pessoa a notar ser vítima de hostilidade;
Minkowski, que viria a ser mais tarde professor de Einstein, observou -
sem no entanto mencionar nomes - que: Cantor nunca tinha sido muito
assertivo, na sua relação com o pai sempre se submeteu docilmente, e
agora mais uma vez estava a ser submetido por outro ser humano. Tal como
todos os dominados, perdeu completamente a sua auto-estima, ficou
profundamente deprimido e perdeu toda a fé em si próprio e no seu
trabalho. Nem mesmo as palavras de Minkowski o conseguiram animar: Lentamente Cantor começou a receber o reconhecimento que merecia - depois de ter esperado mais de 20 anos. Foi então nomeado membro honorário da London Mathematical Society, eleito membro correspondente da Sociedade de Ciências em Gottingen, e em 1904 foi homenageado com uma medalha pela Royal Society of London. Recordando a sua experiência recente, Cantor estava sempre pronto com uma palavra de apreço ou encorajamento para aqueles homens que continuavam a lutar. Em complemento fundou um jornal, o Deutsche Mathematiker-Vereinigung, como veículo para os trabalhos de jovens investigadores que pudessem não conseguir impor-se nos jornais controlados pelos matemáticos estabelecidos.
Para ele, no entanto o reconhecimento chegou tarde demais; a
infelicidade e amargura de tantos anos não podiam ser apagadas por um súbito
jorro de fama e glória. Respeitado por todo o mundo, sentiu-se como um
estrangeiro no seu próprio país: |
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