ANTÓNIO ANICETO MONTEIRO 

 

 

António Monteiro nasceu em Angola em 1907, e concluiu a licenciatura em Ciências Matemáticas, na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1930,  como bolseiro da Junta de Educação Nacional (futuro Instituto para a Alta Cultura), doutorou-se na Universidade de Paris em 1936, com uma tese intitulada Sur l'additivité des noyaux de Fredholm, realizada sob a orientação de Maurice Fréchet. Regressa a Portugal e funda (com Manuel Valadares, Marques da Silva, António da Silveira, Peres de Carvalho e outros) o Núcleo de Matemática, Física e Química, que promoveu vários cursos, conferências e publicações. No ano seguinte, com a cooperação de Hugo Ribeiro, Silva Paulo e Zaluar Nunes, fundou a revista Portugaliae Mathematica, no qual publica a sua tese de doutoramento. Em 1939 cria o Seminário de Análise Geral, que começa por funcionar numa sala da Faculdade de Ciências de Lisboa e depois no Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, dirigido pelo Prof. Pedro José da Cunha, para iniciar um grupo de jovens no estudo das matemáticas modernas, grupo esse do qual se destacaram Hugo Ribeiro e Sebastião e Silva. Com outros matemáticos, fundou em 1940 a Sociedade Portuguesa de Matemática, da qual é eleito primeiro secretário-geral, e, no mesmo ano (com Bento Caraça, J. da Silva Paulo, Hugo Ribeiro e Manuel Zaluar Nunes), a revista Gazeta de Matemática, que pretendia ser um instrumento de trabalho e um guia para os estudantes de Matemática das escolas superiores portuguesas. Estas e outras actividades de António Monteiro tiveram grande eco na Faculdade de Ciências do Porto, no final da década de 30.

Por iniciativa de Ruy Luís Gomes, convida António Monteiro para uma série de conferências e lições sobre temas actuais da matemática e outros contactos, dos quais resulta a criação do Centro de Estudos Matemáticos do Porto (1941) e a Junta de Investigação Matemática (1943), e para os quais António Monteiro dá uma colaboração decisiva. Das iniciativas desenvolvidas por António Monteiro durante a sua estadia no Porto resultaram os Cadernos de Análise Geral (Cadernos de introdução ao estudo das modernas correntes do pensamento matemático, publicados pela Junta de Investigação Matemática), compreendendo cerca de vinte monografias baseadas em cursos, colóquios e lições realizados em domínios fundamentais, como a Álgebra Moderna (dirigido por A. Almeida Costa), Topologia Geral, (António Monteiro), Teoria da Medida e Integração (Ruy Luís Gomes), Geometria das Distâncias (Aureliano Mira Fernandes) e Teoria das Estruturas e Problemas dos Fundamentos (Hugo Ribeiro). Durante este tempo (1938-43) António Monteiro vive de lições particulares, de um trabalho remunerado no Serviço de Inventariação da Bibliografia Científica, criado pelo instituto para a Alta Cultura. A universidade portuguesa fechava-lhe as portas, enquanto a Universidade de Filosofia do Brasil (Rio de Janeiro) convidava-o para a cadeira de Análise Superior, sob recomendação de A. Einstein, J. Von Neumann e Guido Beck. Em 1945 partiu para o Brasil e uns anos mais tarde instalou-se na Argentina. A sua acção nestes países é relatada no vol. 39 (1980) da Portugaliae Mathematica que lhe foi dedicado, e aí publicou também o seu último trabalho, a memória Sur les Algébre, de Heyting Symétriques, premiada em 1978 pela Fundação Calouste Gulbenkian e redigida durante a sua única estadia em Portugal (1977-79) depois do exílio. A obra científica de António Monteiro compreende mais de 50 trabalhos de investigação, na maioria sobre álgebras de lógicas não clássicas, assunto este em que foi um dos pioneiros e lhe granjeou reputação internacional e muitos discípulos. A sua produtividade, até ao fim da vida, é um dos raros casos no panorama matemático. Em carta a Pereira Gomes (31 de Maio de 1979) escreve: "Comecei de novo a levantar-me ás 4 ou 5 da manhã para trabalhar. São tão lindos os temas sobre os quais estou trabalhando...". 

Faleceu em Babia Blanca, na Argentina, em 29 de Outubro de 1980.