Pedro Nunes

 

 

O Ensaio histórico de Garção Stockler, o Elogio histórico publicado por António Ribeiro dos Santos nas Memórias de Literatura da Academia das Ciências de Lisboa (t. VII, 1806) e a Notícia sobre Pedro Nunes de Rodolfo Guimarães, publicada nos Anais da Academia Politécnica do Porto (t. X, 1915), são, entre os escritos até agora consagrados ao nosso matemático, os mais abundantes em informações sobre a sua vida. O último é, a este respeito, o mais rico e também o é em informações bibliográficas preciosas. Mas, pelo que respeita a apreciações dos seus trabalhos, são todos insuficientes. 

O nosso biografado era judeu, sendo natural de Alcácer-do-Sal. Já dissemos que nasceu em 1502 e que em 1529 foi nomeado cosmógrafo do Reino, depois de ter ido visitar em romaria de estudo  à célebre Universidade de Salamanca. Não sabemos quais foram os mestres que nesta cidade ouvira. É provável que tenha ouvido Sancho de Salaya, que era então Lente de Astronomia, e alguns dos lentes muis insignes em Medicina e Filosofia, para se aperfeiçoar nas doutrinas que aprendeu na Universidade de Lisboa. E; talvez tenha ouvido também as lições do Padre João Silíceo, que naquele tempo era também ali mestre de Ciências naturais, o qual estudara as Matemáticas em Paris, e nesta cidade fora depois professor destas ciências e publicara, em 1514, um tratado de Aritmética. 

No mesmo ano em que foi nomeado cosmógrafo, fez exame de Licenciatura em Medicina na Universidade de Lisboa e nos anos seguintes ensinou nesta Universidade Filosofia, Moral, Lógica e Estatística. 

Mais tarde, em 1544, depois de D. João III ter transferido a Universidade para Coimbra e reorganizado os ensinos, foi nomeado professor de Matemática e Astronomia deste instituto, cargo que exerceu até 1562, ano em que foi jubilado. 

Em 1531 foi convidado por D. João III para mestre de seus irmãos D. Luiz e D. Henrique e foi também mais tarde encarregado de ensinar D. Sebastião. 

Como testemunho de gratidão pelos serviços ao país e à Côrte, concederam-lhe os monarcas portugueses pensões, que lhe permitiram entregar-se completamente à ciência, sem pensar nos cuidados materiais da vida, e criou D. João III para ele o lugar de Cosmógrafo-mor do Reino, no qual foi investido em 1547. 

Dissemos que Pedro Nunes era médico pela Universidade de Lisboa. Os médicos daqueles tempos estudavam a Astronomia, como já dissemos, para a aplicar à clínica astronómica. Por isso se recrutavam geralmente entre eles os astrónomos para dirigir os trabalhos náuticos. Assim eram médicos Zacuto e José Vizinho, os primeiros organizadores dos Regimentos das navegações portuguesas, Mestre Filipe, o primeiro professor de Astronomia da Universidade de Lisboa e Mestre João, que fez as observações astronómicas na viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, etc. Zacuto exerceu a astrologia; não sabemos se os outros astrónomos mencionados a exerceram também. 

Nas obras de Pedro Nunes, só se fala da Astrologia na introdução ao tratado De Crepusculis, mas é para qualificar os seus prognósticos sobre a vida e a sorte dos homens como quimeras e como superstições felizmente quasi extintas. São estas as suas próprias palavras. 

Agora, ao terminar esta biografia, permita-se-me que transcreva aqui as palavras com que fechei o Elogio histórico do grande matemático, publicado nos Panegíricos e Conferências: 
"A vida de Pedro Nunes não foi como a de muitos sábios que se isolam nos seus gabinetes de estudo, a fazer investigações para honra do espírito humano e proveito da humanidade; foi, sim, a de um patriota, que deu a Portugal todo o seu saber, todo o seu talento e toda a sua actividade, que eram grandes, ensinando pilotos e reis, preparando cartas marítimas, aperfeiçoando regimentos náuticos, e escrevendo livros para uso dos mareantes. 

"A trajectória da sua vida assemelha-se à curva representativa do poderio português no século em que viveu. Nasceu quando este poderio crescia dia a dia no tempo do Rei Venturoso; teve a sorte feliz de assistir ao apogeu da grandeza lusitana, quando Lisboa, radiante de glória e beleza, olhava orgulhosa das colinas em que assenta para as águas do seu rio, coberto de embarcações de variadas formas e grandeza, a descarregar as riquezas vindas do Levante e do Poente; começou a declinar quando aquele poderio começava a decair no tempo do Rei Piedoso; morreu quando a nacionalidade portuguesa caiu, mortalmente ferida, nos areais de Alcácer-Quibir no tempo do Rei Desejado. 

"Teve Portugal no seu tempo grandes figuras em todas as manifestações da actividade humana. As principais formam três grupos: o primeiro composto por Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, etc., os heróis do mar; o segundo formado por Duarte Pacheco, D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, D. João de Castro, etc., os heróis das conquistas; o terceiro formado por Pedro Nunes, João de Barros, Luiz de Camões, etc., os heróis do pensamento. 

"Todos estes grandes homens formam um quadro harmónico. Os do segundo grupo, os conquistadores, asseguraram a obra dos do primeiro. os do terceiro grupo concorreram por modos diversos para um mesmo fim: perpetuar pelos séculos dos séculos a memória do saber e dos grandes feitos dos navegadores e dos guerreiros lusitanos. Dos três mencionados no último grupo, o primeiro, o sábio, ensinou aos pilotos meios para navegar longe da terra sem se perderem na amplidão dos oceanos; o segundo, o historiador, traçou com mão de mestre, em estilo que encanta pelo singeleza e elegância, a narração dos feitos gloriosos realizados pelos portugueses nos mares e nas terras por eles encontradas; o génio sublime do terceiro, o poeta, celebrou estes feitos na mais grandiosa das Epopeias. "Foi precisamente quando Portugal entrava na agonia, em II de Agosto de 1579, pouco depois da lúgubre derrota de D. Sebastião, que Pedro Nunes desapareceu para sempre da cena do Mundo. 

"Quási ao mesmo tempo emudeceu a lira de Camões e parou a pena de João de Barros, o cronista da Índia. A providência levou-os a todos quando a Pátria já não precisava dos cantos do Poeta, nem das crónicas do Historiador, nem dos cálculos do Cosmógrafo. 

"Terminou então o período áureo da Matemática portuguesa, que começara a desenvolver-se nos tempos felizes da Dinastia de Aviz, atingira o seu máximo esplendor, quando Portugal subiu ao máximo poderio, e acabou quando ele decaiu, até desaparecer como nação, passando ao domínio de Castela".