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Astrolábio Náutico

   

O astrolábio é um antigo instrumento para medir a altura dos astros acima do horizonte. Atribui-se a Hiparco, o pai da astronomia e trigonometria, a sua invenção. Ptolomeu designa por astrolábio a esfera armilar, que os árabes combinaram com o globo celeste e aperfeiçoaram criando assim o astrolábio esférico.
Aqui referimo-nos ao astrolábio planisférico, uma simplificação que resulta numa projecção estereográfica polar da esfera celeste sobre um plano. Os gregos já o conheciam mas foi através dos árabes, que o introduziram na Península Ibérica, que chegou à Europa.

  
Astrolábio planiférico de Nicol Patenal 1616 (frente e verso)
(Museu de Ciência da Universidade de Lisboa )

O instrumento era composto por um disco graduado, a madre, onde se achavam colocadas várias lâminas circulares. Essas lâminas eram também graduadas à superficie das suas margens, permitindo através da alidade determinar a altura de qualquer astro. A alidade girava em tôrno do centro comum da madre e de todas as lâminas. Cada uma das lâminas ou discos servia para uma determinada latitude. No séc.XI, Zarquial, um árabe da Península Ibérica, idealizou um astrolábio universal com uma só lâmina e que servia para qualquer lugar. Com o astrolábio plano resolviam-se problemas geométricos, como calcular a altura de um edifício ou a profundidade de um poço. O astrolábio naútico foi a simplificação do planisférico e tinha apenas a possibilidade de medir a altura dos astros. Inicialmente tinham a configuração da face posterior dos planisféricos. No entanto e com a experiência dos pilotos ganhou nova forma. Deixou de ser fabricado em chapa de metal ou madeira e passou a fundir-se em liga de cobre de modo a que o seu peso, cerca de dois quilos, o sujeitasse menos ao balanço do navio. O disco inicial foi parcialmente aberto para diminuir a resistência ao vento. A forma definitiva do astrolábio náutico fixa-se assim numa roda, de 15 a 20 cm., com dois diâmetros ortogonais no centro da qual gira a medeclina. Esta alidade dispõe de duas pínulas com orifícios através dos quais se visava o astro. Num dos extremos da medeclina é interceptada uma escala de 0 a 90 graus gravada nos quadrantes superiores da roda.

 


Astrolábio Dundee 1555
(Dundee, Art Galleries and Museums)

Para tomar a altura de um astro suspendia-se a roda na vertical pelo anel de suspensão, movendo-se a medeclina até que o feixe luminoso do sol atravessasse simultaneamente os dois orifícios das pínulas. A observação directa do sol não é possível sem danos para a vista pelo que se colocava, num plano inferior, um papel que assinalasse o feixe luminoso. Alguns minutos antes do meio-dia movia-se a mediclina no sentido ascendente até que, ao meio-dia solar, e num breve momento, a mediclina conservava-se estacionária para em seguida mover-se no sentido inverso. Pela maneira de como se efectuava esta operação era conhecida pelas gentes do mar como «pesar o sol». A leitura da escala, interceptada então pela medeclina, indicava a altura meridiana do sol que complementada com a consulta das tabelas de declinação do sol permitia calcular a latitude do lugar.
O Almirante Gago Coutinho é de opinião que o astrolábio apenas servia para medir a altura do Sol e, numa travessia Atlântica a bordo da barca Foz do Douro, demonstrou experimentalmente a impossibilidade de, em boas condições, se visarem estrelas a bordo com um astrolábio.


Representação da Pesagem do Sol

Nos primeiros tempos o zero da graduação encontrava-se na horizontal do quadrante mas no séc.XV o sentido da escala foi invertido agora com o zero na vertical do quadrante. Obtinha-se assim directamente na escala a distância zenital (complemento da altura) do astro suprimindo uma operação no cálculo da latitude, sempre complicado para os pilotos da época. Para o hemisfério Norte a fórmula da latitude é lat = (90º - h) + d o que simpificado dá lat = z + d (h-alt. do astro, d-declinação, z-dist.zenital).

Muitos exemplares espalhados pelo mundo foram fabricados em Portugal e exibem o nome ou as marcas do seu fabricante, como Agostinho de Gois Raposo, Francisco Gois e João Dias. Poucos astrolábios náuticos chegaram até aos nossos dias mas com o desenvolvimento da arqueologia subaquática foi possível recuperar mais exemplares. O número ascende agora a cerca de 80 e são mundialmente registados no Museu Marítimo de Greenwich. Além de um número de registo passaram também a serem conhecidos por um nome, normalmente relacionado com o navio ou o local onde foram encontrados.

Sacramento (1650)

 

Santiago (1575)

 

Atocha III (1605)

 

Atocha IV (1616)

 

Ericeira (1600)

Sacramento
(1650)

 

Santiago
(1575)

 

Atocha III
(1605)

 

Atocha IV
(1616)

 

Ericeira
(1600)

 

Aveiro (1575)

 

S.Julião da Barra 1

 

S.Julião da Barra 2

 

S.Julião da Barra 3 (1606)

Aveiro
(1575)

 

S.Julião da Barra 1

 

S.Julião da Barra 2

 

S.Julião da Barra 3
(1606)

(Museu de Marinha, Lisboa)

Em Portugal existem pelo menos dez exemplares nove dos quais no Museu de Marinha em Lisboa formando a maior exposição permanente de astrolábios náuticos. São o Sacramento, Santiago, Atocha III, Atocha IV, Ericeira, Aveiro, S.Julião da Barra 1, S.Julião da Barra 2 e S.Julião da Barra 3.
Aquele que é conhecido por Coimbra, encontra-se no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, o qual, devido às suas características, dimensões e peso, nunca foi usado a bordo dos navios.

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