Blaise Pascal - filósofo, matemático, físico, teólogo e
escritor de origem francesa, nasceu em Clermont-Ferrand, região de Auvergne na
França a 19 de junho de 1623, mas aos nove anos de idade foi morar com toda a
sua família em Paris. Era filho de Etienne Pascal, um matemático e alto
funcionário do Estado, que se dedicou com muita eficiência na formação
educacional de seus filhos, Pascal e Jacqueline passando, mais tarde a se chamar
irmã Sainte-Euphémie pelo fato de entrar, em 1652, para o convento de Port-Royal.
Pascal, segundo sua irmã, era na época um génio, pois aos doze anos começou a
trabalhar em Geometria, chegando a descobrir que a soma dos ângulos de um
triângulo é igual a dois ângulos rectos, mesmo seu pai ter decidido,
anteriormente, que seria ele próprio a ensinar os filhos e que Pascal não
estudaria matemática antes dos quinze anos, mandando retirar todos os livros e
textos matemáticos de dentro de casa.
Etienne Pascal mesmo não sendo uma pessoa totalmente ortodoxa, frequentava
reuniões na casa do Padre franciscano Marin Mersenne, filósofo e físico francês,
com respeito a religião e outros assuntos, como: filosofia, física, matemática,
etc. onde participava, também, muitas personalidades importantes. Foi quando,
com aproximadamente catorze anos, Pascal decidiu acompanhar seu pai nessas
reuniões e aos dezasseis anos apresentou vários teoremas de Geometria Projetiva,
onde constava o conhecido " Hexagrama Místico " em que demonstra que " se um
hexágono estiver inscrito numa cónica, então as intersecções de cada um dos três
pares de lados opostos são colineares ", onde em fevereiro de 1640 escreveu "
Éssai sur les coniques " ( Ensaio sobre as cónicas ) baseado no estudo de Girard
Desargues.
A contribuição de Pascal às ciências é bem menos metódica e fecunda do que
brilhante, levando um de seus biógrafos a situá-lo como " o primeiro da segunda
fila ". Com o seu escrito sobre as cónicas, o adolescente, todavia, suscita a
admiração de Mersenne, que se pronuncia a respeito em carta para Descartes. Em
sua resposta, este último não vai além de estranhar " que alguém consiga
demonstrações mais simples que as de apolônio...", concluindo pela existência de
" questões acerca das cónicas que um jovem de 16 nos acharia difícil explicar ".
Faz parte desse estudo das cónicas o ' Teorema de Pascal ': " O hexágono
inscrito em uma cónica tem a propriedade de que os pontos de intersecção dos
lados opostos estão em linha recta ". Em trabalho posterior e extraviado, o "
Traité des coniques ", conhecido apenas através de Leibniz, Pascal aborda o que
chama de " hexagrama místico "; por meio de projecções, demonstra que todo
hexágono provém de uma cónica correspondente e que, por sua vez, qualquer cónica
origina um hexágono. O hexagrama serve-lhe de ponto de partida à obtenção, em
quatrocentos corolários, das propriedades peculiares às cónicas.
Pelo fato de seu pai ser nomeado colector de impostos da Normandia Superior, em
1639, fez com que toda a família deixasse Paris e fosse morar em Rouen ( sede da
região da Alta Normandia , localizada na França ), onde realizou suas primeiras
pesquisas no campo da física, escrevendo um tratado sobre acústica, sendo um dos
pioneiros da experimentação física. Nessa época, inventou, também, uma pequena
máquina de calcular digital, chamada Pascalinne, conservada, actualmente no
Conservatório de Artes e Medidas de Paris.
De regresso a Paris em 1647, Pascal publicou " Expériences nouvelles touchant le
vide " ( Novas experiências relativas ao vácuo ) e " Préface du traité du vide "
( Prefácio ao tratado do vácuo ), mostrando os resultados de sua experimentação
em torno das hipóteses de Torricelli sobre a natureza do vácuo, concluindo que,
ao contrário do que se supunha, não tem " horror ao vácuo ". A opinião de
Descartes, manifesta em sua correspondência com Huygens, não se pode considerar
entusiástica , pois julga as provas insuficientes e acha que " o autor do
opúsculo tem abundante vácuo na cabeça ". Um após outro, os princípios segundo
os quais " a natureza tem invencível horror ao vácuo " e " a natureza tem horror
ao vácuo, mas não invencível " são contrariados por Pascal em Paris, quando
repete suas experiências. Neste mesmo ano, inventou, também, a seringa e
aperfeiçoou o barômetro de Torricelli.
Em 1648, publica " Récit de la grande expérience de l'équilibre des liqueurs...
" ( Relato da grande experiência sobre o equilíbrio dos líquidos... )
relacionado com a pressão dos fluídos e hidráulica. O princípio de Pascal diz
que a pressão aplicada a um fluido contido em um recipiente é transmitida
integralmente a todos os pontos do fluído e às paredes do recipiente que o
contém. Este é o princípio do macaco e do martelo hidráulicos.
Em 1651, com a morte do seu pai, Pascal teve um período de contactos com a vida
mundana, convivendo com a nobreza da época. Escreveu para uma de suas irmãs uma
carta relatando tudo sobre a morte de seu querido pai com um profundo
significado cristão em face de sua família ser devota e adoptava princípios
católicos rigorosos.
Em 1654, depois de quase morrer em um acidente de carruagem e de levar uma vida
mundana em Paris, o sábio experimenta, juntamente com um grande desprezo pelo
mundo, o vazio do coração e a necessidade de Deus, Pascal passou por uma
experiência mística, decidindo consagrar-se a Deus e à religião. Elegeu seu guia
espiritual o padre jansenista Singlin e recolheu-se na noite do dia 23 de
novembro de 1654 à Port-Royal des Champs, e seu êxtase lembra o de São Paulo; "
Fogo...Deus de abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob, não dos filósofos e
sábios...Deus de Jesus Cristo...Grandeza da alma humana...Alegria, alegria,
lágrimas de alegria...Renúncia total e doce ".
Nesta época, Pascal já se destacava como o primeiro grande prosador da
literatura francesa, tornando-se um dos alicerces mais notáveis, pela amplitude
e riqueza de seu estilo, capaz de comunicar um pensamento em que os conflitos e
a própria natureza das reflexões prefiguram o espírito moderno. Dominando uma
linguagem profundamente identificada com o seu modo - particularíssimo - de
sentir e pensar o mundo, encontra-se em Pascal, em primeiro plano, a contradição
entre a lógica pura, a geometria, e uma inquietação, uma angústia que, em seu
caso, já se pode chamar de existencial. Se de um lado há um físico, o empirista
anti-aristotélico, afiando o olhar e a descoberta exacta, do outro lado está o
metafísico, o céptico entre o espírito e a carne, ao mesmo tempo ferido e
fascinado pelos mistérios da condição humana.
Esta última, a ' condição humana ' em toda a sua complexidade ( a ponto de
adquirir a expressão o sentido que a define na filosofia moderna ), talvez seja
a experiência e a revelação mais valiosa de Pascal. Exprimindo o antagonismo
entre as potencialidades espirituais e a miséria física do homem, vendo na vida
a morte, e convivendo com a morte, Pascal só encontra e só aponta uma saída: a
da religião cristã, em que o dilema se explicaria com outra contradição, a do
homem como criatura de Deus e vítima do pecado original, grandeza e fragilidade
em conflito permanente.
Certo, porém, de que sua angústia era uma consciência desesperada, mas fecunda,
dos desafios epistemológicos e metodológicos da teologia e da filosofia, Pascal
combate o jesuitismo, " simplificador " da religião, responsável pela
substituição da angústia metafísica pela observância automática dos ritos. Desde
que se retira para Port-Royal, exerce ali sua actividade literária, tomando a
defesa dos adeptos de Jansênio. Sua grande participação na polêmica entre
jansenistas e jesuítas, vigorosamente a favor dos primeiros, aparece nas " 18
Lettres écrites por louis de Montalte à um provincial " em 1656-1657 ( Cartas
escritas por Luís de Montalte a um provincial ), conhecidas como " Les
Provinciales " ( As Provinciais ).
Ainda em 1654, Pascal estudou e demonstrou um trabalho matemático intitulado "
Traité du triangle arithmétique " ( tratado do triângulo Aritmético ) o qual foi
publicado neste mesmo ano, onde estabelece as séries
1
1 1
1 2 1
1 3 3 1
1 4 6 4 1
que possibilitam o cálculo das combinações de 'm' elementos tomados 'n' a 'n' e
das potências semelhantes nos termos de uma progressão aritmética. Antes de
Pascal, Tartaglia usara o referido triângulo nos seus trabalhos e, muito antes,
os matemáticos árabes e chineses já o utilizavam. Podemos aumentar
indefinidamente, este triângulo, bastando, para isso, aumentar o número de
linhas da seguinte maneira: cada número é igual à soma do par de números acima
de si. Este triângulo é conhecido como Triângulo de Pascal ou Triângulo de
Tartaglia, apresentando inúmeras propriedades e relações. Entre as quais a
Sucessão de Fibonacci em que as somas dos números dispostos ao longo das
diagonais do triângulo geram a referida série.
Pascal corresponde-se com Fermat e outros eminentes cientistas de seu tempo,
neste mesmo ano, comparando com os resultados destes, a cada passo, as hipóteses
e resultados de suas pesquisas, a que se deve ainda, um papel de relevo na
formulação dos princípios da relatividade física universal, na resolução do
problema da ciclóide, na criação da geodésia barométrica, nos fundamentos do
cálculo das probabilidades e da análise infinitesimal.
Em 1658 publica " Lettre Circulaire relative á la cycloïde " ( Circular sobre a
ciclóide ) e " Écrits sur la grâce " (1656-1658; Escritos sobre a graça ).
O essencial da doutrina filosófica de Pascal está na contraposição - não
excludente - dos dois elementos básicos do conhecimento: de um lado, a razão com
suas mediações que tendem ao exacto, ao lógico e discursivo ( espírito
geométrico); de outro lado, a emoção - ou o coração -, transcendendo o mundo
exterior, intuitiva, capaz de aprender aquilo que não se pode exprimir por
palavras, o religioso, o moral ( espírito de finura ).
A compreensão desse modo de ser do homem, sua condição no mundo estabelecida
entre extremos, é o principal objeto da filosofia pascaliana. No fundo daquela
bipartição estaria, para Pascal, a oposição entre a natureza divina do espírito
e a natureza humana e falha, pecaminosa, da matéria. À medida que reconhece esse
aspecto pequeno, frágil, sua miséria propriamente dita, em um comportamento em
que a dúvida e a incerteza reflectem os dois pólos da luta que não cessa, o
homem, no mesmo passo em que se identifica, se vê diante de Deus, podendo
elevar-se a realizar-se através dele.
A influência de Pascal, como escritor e teólogo, é imensa. Inicia-se
praticamente com as polémicas religiosas em torno das Pensées, marca a aversão
dos filósofos do século XVIII, cresce em acentos trágicos um visão dos
românticos, vive no ódio de Nietzsche, tem lugar de honra entre os modernistas
católicos, que acham em Pascal o precursor de seu pragmatismo. Não pára aí: vai
ao encontro dos neocatólicos da década de 1920, ultrapassa-os, e o génio de
Pascal chega ao mundo contemporâneo comparado a Kierkegaard, Kafka, Heidegger,
Sartre, súmula pioneira de racionalismo e irracionalismo modernos.
Pascal, passou os últimos anos de sua vida dedicado a Deus e à religião vindo a
falecer em Paris no dia 19 de agosto de 1662, devido a um tumor maligno que
tinha no estômago.