Introdução

Zenão de Eleia

Paradoxos

 de Zenão

Impacto

 na Filosofia

Outros

 Paradoxos

Bibliografia

 


ESCOLA DA ELEIA

À matemática não era atribuída muita importância na educação grega, apesar de esse conhecimento ser valorizado pelos filósofos. Logo, não é de estranhar que no mundo grego, a matemática fosse estudada apenas entre os filósofos, e de modo particular pelos filósofos pitagóricos.  Conhecimentos básicos de matemática eram conhecidos pelos que os utilizavam no seu quotidiano, mas sem preocupações científicas.

A colónia de Eleia foi fundada por um grupo de gregos jónicos que em 545 antes de Cristo fugiram pelo mar quando a sua cidade de Phocaea foi invadida pelos Persas. Eles foram para a ilha da Córsega, que tomaram após uma batalha naval com os cartagineses e etruscos, mas mais tarde, em 535 antes de Cristo, os cartagineses e os etruscos retomaram a ilha. Desta feita, este grupo de gregos navegou para a costa sudoeste de Itália e fundaram a colónia de Eleia, tomando o local aos nativos. Nesta colónia seria fundada uma das principais escolas da filosofia pré socrática.

Arqueólogos dizem, que no tempo de Parménides, Eleia era uma cidade grande com vários templos, um porto e uma cintura de muralhas com algumas milhas de extensão. No local, foram encontrados vestígios arqueológicos desta escola, nomeadamente referências a Parménides.  

Escola da Eleia, não deve ser entendido como um edifício em Eleia onde se davam aulas. Antes, significa uma corrente ou doutrina de ideias característica, neste caso, o eleaticismo.

É por alguns considerado que a escola da Eleia foi fundada por Xenófanes, que ensinava que o universo é singular, eterno e imutável. Outros estudiosos, consideram que não há nada que comprove isso e apontam Parménides como fundador da escola. Durante muito tempo considerou-se que foi Xenófanes o fundador desta escola e mentor de Parménides, contudo, isso foi alvo de muitas críticas e há até quem defenda que Xenófanes teria sido um aluno mais velho de Parménides. De qualquer modo, o monismo defendido por Xenófanes é eleático, ao defender que deus é só um, sempre existiu e é imóvel.

As fontes literárias que se possuem desta escola são fragmentos preservados por autores clássicos posteriores: 19 de Parménides, 4 de Zenão e 10 de Melissus (alunos de Parménides), dos quais apenas 3 de Parménides e 2 de Melissus têm mais de 10 linhas.

            Dentro da escola da Eleia, nem todos os seus membros seguiram os mesmos caminhos: Parménides um caminho lógico e directo de pensamento visualizando o ser como finito e intemporal; Zenão concordou com as doutrinas do seu mestre mas utilizou métodos indirectos como a redução ao absurdo; e Melissus modificou as doutrinas vendo o ser como infinitamente extensivo e eternamente temporal.

O Eleaticismo representa uma reacção contra várias tendências de pensamento. Os eleáticos afastaram a abordagem empírica (observação) e pelo contrário, ignoraram as aparências concretas e optaram por uma abordagem racional, mais abstracta e lógica. Para eles, a derradeira realidade era um indiferenciável “ser” em contraste com o testemunho ilusório dos sentidos.  

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XENÓFANES

Xenófanes foi um poeta, filósofo e pensador religioso, nascido por volta de 560 antes de Cristo, em Colofon (na actual Turquia), oitenta quilómetros a norte de Mileto e vinte e quatro quilómetros a norte de Efeso, na Ásia Menor. É difícil determinar as datas da sua vida com exactidão e os factos da sua vida são um pouco obscuros.

Perante a ameaça de invasão da Jónia e da Grécia pelos Persas, em 545 antes de Cristo, exila-se e vai para Siracusa, na Sicília, onde se sustenta como poeta, expondo as suas visões filosóficas em verso, criticando (satiricamente) Homero e Hesíodo. Daqui vai para Magna Grécia e torna-se filósofo e professor da escola pitagórica, tendo-lhe sido dada maior liberdade de pensamento que a habitualmente dada aos discípulos de Pitágoras. Xenófanes desenvolveu teorias que se opunham às doutrinas de Epimenides, Tales e Pitágoras, mas leccionou filosofia na escola pitagórica por cerca de setenta anos.

Segundo alguns historiadores, tomando por base sobretudo os testemunhos de Aristóteles e Platão, a Escola da Eleia foi fundada por Xenófanes, contudo, considera-se que tenha sido um pensador relativamente solitário, levando uma vida de deambulação, daí que seja por muitos também defendido que este estilo de vida seria inconsistente com o facto de se ter estabelecido em Eleia e dado origem a uma escola, verificando-se que de facto, nenhum escritor antigo refere expressamente que Xenófanes esteve lá. Igual incerteza existe sobre se Parménides, um dos elementos mais proeminentes da Escola da Eleia, terá sido ou não aluno de Xenófanes e se não terá sido ele quem de facto fundou a dita escola.

            Xenófanes criticava o que para ele era a exagerada valorização das vitórias desportivas (os Jogos Olímpicos são testemunho dessa valorização, tanto que as datas entre os gregos chegaram a ser contadas com base nestes Jogos), ridicularizou a crença na reencarnação das almas e denunciou a vida luxuriosa, apontado-a como obstáculo ao atingir da sabedoria. Mas as principais críticas de Xenófanes foram para o antropomorfismo politeísta (muitos deuses, de formas humanas) da religião grega e que é apresentado nas obras de Homero e Hesíodo. Para Xenófanes as histórias imorais dos deuses contadas por estes autores (envolvendo roubos, adultério e traições), eram directamente responsáveis pela corrupção moral de então, e isto devia-se à representação de deuses em forma humana, pois os gregos faziam os seus deuses à sua imagem.

Para Xenófanes, existia um único deus, unificador e todo poderoso, um ser incorpóreo, eterno e tal como o universo, esférico (assim acreditava Xenófanes). E sendo da mesma natureza que o universo, compreende todas as coisas em si mesmo, é inteligente e está em tudo, mas não tem semelhanças com os homens, quer em corpo ou mente. Segundo os seus ensinamentos, o universo é uno, infinito, esférico, sensível, eterno (se deus nascesse também morreria e então existiria tempos sem deus), homogéneo, imutável e imóvel (se deus é tudo, onde poderia ir deus?). Não há provas de que Xenófanes, quando se refere a este “deus” lhe atribua algum significado religioso, acreditando-se que considerava deus como um sinónimo do cosmos que portanto será sensível, vivo, consciente de si mesmo e da sua diversidade, tendo vontade própria. Se o universo é um todo, a existência separada de coisas materiais é mais aparente do que real, para Xenófanes o todo é um.

Xenófanes foi principalmente um poeta e um reformista religioso que aplicou noções filosóficas e científicas em concepções populares.

Para além de dedicar-se à filosofia, Xenófanes também se dedicou às ciências naturais, sendo um dos primeiros gregos a defender que a Terra ou parte dela esteve originalmente submersa em água, como era evidenciado pelos fósseis de animais e plantas marinhas que encontrou nas pedreiras de Siracusa. Pelo seu estudo neste ramo, é por alguns considerado como o mais antigo geólogo e o fundador da Paleontologia.

Xenófanes terá morrido por volta de 478 antes de Cristo, sabendo-se, pelos fragmentos da sua própria obra que chegaram até aos nossos dias, que aos 92 anos ainda era vivo e fazia poesia (num dos fragmentos das suas obras que chegaram até nós ele diz que as suas viagens começaram 67 anos antes quando ele tinha 25).

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PARMÉNIDES

Filósofo grego, nascido na cidade grega de Eleia, no Sudoeste da Itália (um pouco a sul da cidade actual de Nápoles), cerca de 515-510 antes de Cristo, pertencente a uma família ilustre. Filósofo, poeta e o mais destacado elemento da Escola da Eleia, sendo por alguns considerado o fundador desta escola e não Xenófanes. Parménides defendeu que o que nos rodeia não existe mesmo, não passam de ilusões, logo quaisquer mudanças ou variações não existem. A verdadeira realidade não pode ser conhecida pelos sentidos mas apenas pela razão.

Há quem considere que teria sido discípulo de Xenófanes, mas, por outro lado, segundo Diógenes Laércio (um escritor da Antiguidade), Parménides terá sido educado por um filósofo pitagórico, Ameinias e terá levado uma “vida pitagórica”, sendo que ele apenas teria “ouvido” Xenófanes, não sendo seu discípulo.

Parménides para chegar ao seu raciocínio fazia uso de um raciocínio bastante abstracto e generalista, assente em noções essencialmente gerais como ser e não-ser, unidade e pluralidade . Iniciou a sua argumentação dizendo que o ser é a substância material da qual o universo é composto e defendeu que era a única e eterna realidade. Partindo daqui ele argumentou que seria impossível a geração, destruição, mudança e movimento. Toda a mudança e movimento seriam ilusões dos sentidos. Visto que o ser é espacialmente estendido e é tudo o que existe, não há espaço vazio e portanto o movimento é impossível. Apenas fragmentos do trabalho de Parménides chegaram até aos nossos dias. O seu maior trabalho era um poema, do qual terão sobrevivido 154 linhas.

Os seus ensinamentos foram reconstruídos a partir dos poucos fragmentos que sobreviveram, da sua principal obra, um poema intitulado Da Natureza, no qual ele é transportado numa carruagem até à morada dos deuses, onde ele conversa com a deusa que segundo o que diz na sua obra, o instrui nos primeiros princípios da investigação filosófica, mostrando-lhe «o âmago inabalável da verdade e as opiniões dos mortais». Seguidamente ser-lhe-ia apresentado por um lado aquilo que é descoberto pela razão e por outro aquilo que é descoberto pelos sentidos.

Parménides defendeu que a multiplicidade das coisas existentes, as suas formas mutáveis e movimento, não são mais do que uma aparência de uma única realidade eterna (ser), daí o seu princípio: o todo é só um. Desta conceptualização de ser, ele afirmou que todos os pretensos movimentos ou não-ser seriam ilógicos. Ele nega a mudança da realidade, para ele tal é impossível, e a sua própria noção é incoerente. Esta conclusão não se baseia em observação (até porque esta diria o oposto) mas sim num raciocínio dedutivo, partindo de premissas básicas.

A única verdadeira realidade é o permanente, eterno, imutável e indestrutível ser. Para Parménides o ser não sentirá quaisquer variações temporais, pois ninguém lhe poderá determinar a sua criação de um outro ser (pois ele já é todo o ser) ou de um não-ser (pois isso não existe).

Nesta obra, Parménides diz ter-lhe sido revelada a existência de três vias:

 - a do ser ou a da luz, da verdade, da unidade e da identidade (a verdade);

- a do não-ser ou a da impensabilidade;

- a do ser e do não-ser ou da opinião, da multiplicidade e da diferença;

sendo apenas a primeira válida, e as outras caminhos de erro. Daí que para Parménides «o ser é, o não ser não é» e «é o mesmo ser e pensar», ou seja, o que é impossível para os seres é impossível para o pensamento e vice-versa. Por exemplo um homem com duas cabeças é algo estranho mas pensável logo possível se a ordem natural fosse outra, contudo, uma contradição de lógica é totalmente impensável, como, por exemplo, dois mais dois tem de ser quatro e a soma dos ângulos internos de um triângulo tem de ser igual 180º. Do mesmo modo, não pode algo ser e simultaneamente não-ser, ou, algo que aconteceu deixar de ter acontecido.

Logo, para Parménides, se o pensamento não é capaz de conceber certa coisa então ela não pode existir, reflectindo uma ligação entre o mundo do pensamento e o mundo da natureza, regendo-se pelas mesmas leis fundamentais, daí que tudo o que existe tenha de ser inteligível ou concebível. Daí que quando, num raciocínio se atinja uma contradição, se conclua que aquilo não é possível e não existe. Para Parménides isto era tão claro que ele não teve dúvidas em afirmar que se algum dia fosse visto, ouvido ou manipulado um ser que fosse uma contradição para a inteligência, tal ser não passaria de uma ilusão.

            Relativamente à estrutura do ser, Parménides concluiu:

- a existência do ser,  pois considerou ser uma necessidade inerente à própria estrutura da realidade;

- a sua unicidade, pois se existisse outro, deveria ser diferente para que pudessem ser distinguidos e portanto se não fosse ser, seria não-ser do outro e portanto existiria o não-ser e o ser, mas isso é contraditório logo o ser é único;

- a sua eternidade, pois quando deixasse de haver o ser, o não-ser passaria a ser e o ser não seria o que é contraditório;

- a sua imutabilidade, imobilidade e indivisibilidade, pois o ser só pode mudar para o não-ser, e durante o processo de mudança, já não seria ser e ainda não seria não-ser, pelo que já seria ser e não ser o que é contraditório (por isso considera impossível a multiplicidade de seres e que estes mudem ou se alterem).

            Por isto, Parménides considera que o que os sentidos nos transmitem é uma ilusão, não significando isto que o mundo que vemos não exista, simplesmente não tem a aparência que os sentidos nos transmitem, pois o mundo é único, eterno e imutável. A maioria dos contemporâneos de Parménides julgaram isto uma piada extravagante, procurando ridicularizá-lo ao confrontá-lo com o mundo real. No entanto, o que Parménides quis demonstrar foi que, se colocarmos a experiência sensorial de lado, é possível seguir um raciocínio lógico e chegar aquelas conclusões, a diferença entre a experiência do mundo real e as conclusões de Parménides não invalida a sua mensagem até porque essa diferença faz parte da mensagem. De facto há um erro, mas durante muito tempo, mesmo rindo-se da sua obra, ninguém descobria esse erro e dizer porque razão o seu raciocínio estava errado, só mais tarde, Aristóteles descobriria esse erro e este não seria de lógica mas sim relacionado com os princípios da metafísica (uma ciência desenvolvida por Aristóteles).

            Em 445 antes de Cristo, Parménides toma a decisão de ir a Atenas e aí expor os seus ensinamentos, o que viria a ter consequências tanto na Filosofia como na Pedagogia. Nesta viagem, faz-se acompanhar de Zenão de Eleia um seu discípulo, que ficaria famoso pelos paradoxos que criou para defender as teorias do seu mestre. Quando eles chegaram a Atenas apenas se tinham passado cinco anos desde que Anaxágoras havia fugido ou sido morto pelas suas afirmações sobre o Sol e a Lua (afirmou que o Sol era apenas uma massa de metal incandescente e que a Lua era feita de terra, contrariando a doutrina vigente entre a sociedade ateniense), daí que se especule sobre a sua entrada nesta cidade se tenha revestido de coragem ou simples desconhecimento. Quando chegou a Atenas, Parménides tinha 65 anos e embora ensinassem a mesma doutrina, havia grande distância entre ele e Zenão.  Em Atenas, Parménides e Zenão hospedam-se na casa de Pitodoro do lado externo dos muros da cidade e aí receberão a visita de Sócrates, que ainda novo, desejava ouvir e aprender com eles. Este encontro foi posteriormente narrado por Platão, apesar de ainda não ter nascido, pois segundo ele, Pitodoro terá de tal modo sido impressionado pelo diálogo que memorizou grande parte dele e contou a muitas pessoas, entre as quais Antífon, que terá sido quem o transmitiu a Platão, que o reproduziria por escrito já depois da morte de Sócrates.

            Quando Sócrates chega a casa de Pitodoro, não encontra Parménides mas apenas Zenão, que lhe lê em voz alta o seu livro. Durante esta leitura, chega Parménides que se senta e ouve o resto da leitura do livro e o posterior diálogo entre Zenão e Sócrates. Por fim, Parménides toma a palavra e dirigindo-se a Sócrates faz-lhe muitas perguntas para as quais Sócrates não tinha resposta e procurou instruí-lo sobre como deveria ser conduzido o raciocínio. Se a princípio, os atenienses, desvalorizaram e ridicularizaram as teorias expostas por Parménides e Zenão, quando estes se foram embora, houve quem se apercebesse do seu valor, pois no regime democrático de Atenas era de grande importância quem conseguisse apresentar raciocínios que provassem aquilo que quisessem e estes dois filósofos, apesar de terem apresentado teorias que lhes pareciam estapafúrdias a verdade é que não conseguiam provar que de facto eles estavam apresentado demonstrações falsas de que a flecha em movimento não se movia na realidade. Acreditavam que alguém com aquela capacidade de argumentação conseguiria manipular a Assembleia do Povo (também chamada de Eclésia, formada por todos os ateniense maiores de 18 anos e que tomava as decisões). Assim, apesar de não ser assim que queriam ser levados a sério, a verdade é que houve quem os levasse a sério com intuito de compreender como se poderia provar o absurdo. Apesar de já existirem sofistas (ensinavam a arte de falar e de convencer as multidões) antes da visita de Parménides e Zenão, estes terão sofrido um grande impulso com esta visita.

Não é claro o que ele defendia, mas de acordo com algumas interpretações, Parménides, negava a pluralidade, não existindo muitas coisas mas apenas uma coisa existiria, não sendo certo o que ele entenderia por esta coisa única. Resumidamente, Parmenides concluiu que: nada se cria ou destrói, não podendo existir diferenças temporais e o mundo é aquilo que sempre foi; não existe mudança; não existe movimento, pois essa é uma forma de mudança; e não existe pluralidade. No fundo, ele defendeu que o verdadeiro universo era uma grande esfera de pensamentos em repouso e que o Ser absoluto existe mas que não conseguimos apreendê-lo.

Não se sabe ao certo quando morreu, julga-se que terá sido depois de 450 antes de Cristo.

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