Página dos Números Primos
 Página projecto da cadeira de ICM do DEFCUL

O misticismo dos números


Plutarco ( 40 d.C, 120 d.C ), ao descrever  o culto a Ísis no Egipto, confunde história sacra com teoremas matemáticos:

 
Os Egípcios contam que a morte de Osíris se deu a dezassete ( do mês), quando é mais   evidente o minguar da lua cheia. Chamam por isso os Pitagóricos a esse dia o “ obstrutor” e abominam-no completamente. Pois o número dezassete, interpondo-se entre o quadrado dezasseis e o rectangular dezoito, os dois únicos números em todo o plano a terem os seus perímetros iguais à área que rodeiam, separa-os e aparta-os um do outro, sendo dividido em partes desiguais na razão de nove para oito.


" Tudo é número " disse Pitágoras, e o misticismo dos números leva mesmo a sério  esta máxima. O universo é governado  em todos os seus aspectos pelo número. Três é a trindade , seis é o número perfeito (um número perfeito, é um número cujo resultado da soma dos seus divisores naturais é ele mesmo; por exemplo o número 6 tem como divisores 1,  2,  3 e 1+2+3=6, 28 tem como divisores 1, 2, 4, 7, 14 e 1+2+4+7+14=28) e 137 era a constante de estrutura fina de Sir Arthur Eddington, um místico dos números .

 
 
Vejamos agora um exemplo de misticismo  dos números que é incrível para o espírito moderno. Ora como é que se chegou à conclusão de que o Messias estava para chegar? Simplesmente porque  o ano de 1240 no calendário cristão correspondia ao ano de 5000 no calendário judeu e porque, segundo algumas teorias, o Messias deveria surgir no início de sexto milénio”.
Segundo Henry Cornélius Agrippa, um mago filósofo do século XVI,  a matemática é absolutamente indispensável para a magia, pois tudo o que se consegue por meio natural é determinado pelo número, pelo peso e pela medida. Um mago que entenda a filosofia natural e a matemática e que conheça as ciências intermédias que delas provêm - a aritmética, a música, a geometria, a óptica, a astronomia, a mecânica - pode conseguir maravilhas”.
A geometria baseia-se no facto de que as letras nos alfabetos clássicos de latim, grego e Hebreu têm normalmente equivalentes numéricos. Na sua forma mais simples a geometria identifica palavras com números e interpreta os equivalentes verbais.
 
Eis um exemplo contemporâneo de Frederico II. O nome Innocentius Papa ( papa Inocêncio IV ) tem o equivalente numérico 666. Este é o "número da besta" de Revelações, 13-18, donde se conclui que Inocêncio é o Anticristo ( Frederico  era violentamente antipapa).


No entanto estes raciocínios e estes pontapés nos números podem ter promovido capacidades e interesses numéricos que compensaram em muito os estragos feitos.
Um número, especialmente um número sagrado, era para o espírito medieval uma manifestação de ordem divina e espiritual. Podia ser transformado em princípio estético. Apresentamos como exemplo uma análise feita por Horn a um plano concebido em 816 para uma comunidade monástica em Aachen, o chamado " plano de Saint Gall". Horn descobre que com a sua concepção o arquitecto teve sempre em atenção os números sagrados 3 , 4 , 7 , 10 , 12 ,e 40,usando-os constantemente.

 
O plano consiste em três áreas principais - oriental, central e ocidental. Existem três áreas de edifícios, três claustros, três padarias e cervejarias, três balneários, três enfermarias, três jardins murados, três galinheiros e três casas de moagem.Encontramos quatro estruturas circulares, quatro altares no transepto e quatro em cada coxia e ainda quatro peças de mobília litúrgica na nave. São quatro as fileiras para plantação. O quatro participa ainda nos módulos elementares do traçado.O núcleo da comunidade é constituído por sete edifícios. São também sete os degraus que elevam o presbitério, como sete são as secretárias para os escribas no scriptorium. O dormitório dos monges abriga setenta  e sete camas. As estações litúrgicas no eixo da igreja são sete. Em toda a igreja existem dezassete( 10 +7 ) altares e em todo o plano  existem vinte e um (3 x 7).
O céptico que veja nestas ocorrências meros acasos ou uma simples indicação de que qualquer número pode ser decomposto numa soma ou num produto de uma lista de números sagrados, (à imagem do teorema da decomposição em primos ou na conjectura de Goldbach (Será que cada número par  é a soma de dois primos impares?) deve tentar estudar a planta do Hotel mais próximo e descortinar o plano sagrado que superintendeu o seu desenho.

Um observador inteligente que observe os matemáticos a trabalhar e a falar entre si e que não estude ou aprenda matemática poderá concluir que se trata de devotos de seitas exóticas.

 

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