Demonstração de Próclo
Sejam r, s paralelas e l cortando r em P, com vista a provar que l corta necessariamente s.
Seja Q o pé da perpendicular a s
passando por P. No caso l =
, l corta r
em Q. No caso contrário, alguma semi-recta
contida
em l está entre a semi-recta
e um semi-recta
contida em r, onde X é o
pé da perpendicular a r passando por Y.

Ora, continua Próclo e este é
o ponto crucial da sua argumentação quando o ponto Y se afasta mais e mais de P
ao longo de l, o segmento
aumenta sem cessar, até
que acaba por se tornar maior do que
, de modo que Y terá de acabar por atravessar s para o outro lado
e, assim, l corta s. Q.E.D.
Neste sofisticado argumento envolvendo
movimento e continuidade, cada passo, individualmente considerado, é correcto, todavia a
conclusão de que l corta s não é legítima, por muito chocante que isto
possa parecer! É verdade, e pode ser justificado rigorosamente na geometria absoluta, que
cresce ilimitadamente (o que quer dizer:
torna-se maior do que qualquer segmento dado). Parece razoável pensar que, sendo Z o pé
da perpendicular a s passando por Y, se tem
.
Assim, tornando-se
maior do que
, também
se tornará maior do que
, o que só é possível com Y do
outro lado de s. Por muito que custe à intuição, o problema é que tanto (1)
como (2) são impossíveis de justificar na geometria absoluta! Parecem razoáveis face à
figura acima, mas devemos precaver-nos de utilizar um diagrama ou figura para justificar
um passo de uma demonstração - todos os passos têm de ser justificados a partir dos
postulados ou axiomas e dos teoremas já demonstrados. Os passos (1) e (2) podem ser
justificados, sim, mas na geometria euclidiana, utilizando o postulado de paralelismo de
Euclides.
Em conclusão, o argumento de Próclo, tal como o de Ptolemeu, é circular. Daí o cuidado que devemos ter ao lidar com a noção de paralelismo. As imagens ou visões que possuímos sobre duas rectas paralelas apenas podem ser justificadas na geometria euclidiana.